"A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca" (2019) |© Aardman Animation/ NOS Audiovisuais

A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca | Conversa com os criadores na Comic Con Portugal 2019

A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca” é o novo filme do Estúdio Aardman Animations, um dos mais prestigiados estúdios de animação do mundo. “A Ovelha Choné” é uma personagem do universo de Wallace & Gromit que há muito o ultrapassou.

Na Comic Con Portugal 2019, em setembro, estivemos à conversa com os realizadores da obra Will Becher e Richard Phelan, e ainda com o produtor Paul Kewley. Trazemos agora os destaques dessa conversa. O novo capítulo da “Ovelha Choné” encontra-se já em exibição nas salas de cinema nacionais.

Lê Também:
MONSTRA 2018 | Entrevista ao animador Emanuel Nevado

“A Ovelha Choné“, ou no original, “Shaun the Sheep”, é uma personagem criada por Nick Park, o diretor criativo do Estúdio Aardman, e por Richard Starzak, que escreveu os 150 episódios da série animada, emitida originalmente no Reino Unido entre março de 2007 e novembro de 2016. Posteriormente, a série foi emitida na Disney, nos Estados Unidos, entre 2010 e 2017, atingindo assim sucesso internacional.

O primeiro filme do franchise, um enorme sucesso, inclusive nomeado ao Óscar, surgiu em 2015, realizado e escrito por Mark Burton e Richard Starzak, contando com Paul Kewley, um dos nossos entrevistados, na lista de produtores. Em 2019, chega um novo capítulo nas suas aventuras.

Ovelha Choné - o início
“Wallace & Gromit- No Fio da Navalha” (1995) marca a primeira aparição da Ovelha Choné  |©Aardman Animations/BBC

Shaun surgiu originalmente numa das curtas-metragens de Wallace & Gromit, neste caso “Wallace & Gromit: No Fio da Navalha”, de 1995, curta vencedora do Óscar nesse ano cinematográfico. Aqui, a Ovelha Choné surge ainda jovem, tendo escapado recentemente de uma operação de apreensão de gado, e acaba por ir parar, por mero acaso, à casa do inventor Wallace. Por acidente, o seu pêlo acaba por ser transformado numa camisola. Divertido, Wallace chama-lhe “Shaun”, uma brincadeira entre a palavra para ovelha em inglês “Sheep” e “Shorn”, que significa tosquiado. Dá-lhe assim a blusa para substituir a lã perdida.

Shaun é bastante importante para resolver o conflito deste filme, e assim começou a sua aventura. Contudo,  “Wallace & Gromit” não tem continuidade com o universo de “A Ovelha Choné”, e por isso a personagem da série e dos filmes é apenas levemente baseada na ovelha que aparece na curta-metragem.

Futebol
“A Idade da Pedra”  (2018) | ©NOS Audiovisuais

Em 2019, e depois de todo o sucesso alcançado, Choné regressa ao grande ecrã, agora realizada por Will Becher e Richard Phelan, que trabalham aqui na sua primeira longa-metragem.  Becher tem trabalhado, acima de tudo, em departamentos de animação, de filmes dos Aardman, mas também de outras grandes casas. No seu currículo, destacam-se trabalhos como departamento de animação na longa-metragem de “Wallace & Gromit” (2005) ou departamento de animação em obras como “ParaNorman” (2012)  ou “Idade Da Pedra”, de Nick Park, em 2018. Trabalhou também como animador em 45 episódios da série “A Ovelha Choné”, entre 2009 e 2014. Por isso, contava já com uma enorme familiaridade relativamente ao projeto.

Já Richard Phelan trabalhou também no departamento de animação de “Idade da Pedra” e esteve também envolvido no primeiro filme da “Ovelha Choné”, lançado em 2015, também como animador.  Paul Kewley, o produtor que nos visitou em Lisboa tem estado envolvido em diversos projectos recentes do estúdio, tendo já colaborado anteriormente com os animadores tornados realizadores. A cumplicidade entre os três é evidente, mas lá vamos mais tarde.

A Ovelha Choné
“A Ovelha Choné: A Quinta-Contra Ataca” | ©2019 Aardman Animations Ltd and Studiocanal SAS All Rights Reserved.

Nesta nova aventura no formato de longa-metragem, a Ovelha Choné, o seu rebanho e amigos, vivem uma vida calma no Vale Verdejante, na vila britânica de Mossingham. Isto até luzes estranhas anunciarem a chegada de uma visitante misteriosa, uma visitante que chega até nós a partir de uma outra galáxia….

Na quinta Mossy Bottom, apesar do alvoroço que os humanos fazem acerca da aparição de um misterioso OVNI, Choné tem outras coisas com que se preocupar, nomeadamente os seus planos endiabrados, que são sempre impedidos por Bitzer, o fiel cão pastor do dono da quinta. Quando uma adorável alien vai parar à quinta por mera casualidade do destino, a Ovelha Choné vê esta como uma enorme possibilidade para se divertir e para ter uma aventura épica. Há que ajudar a alien Lu-la, antes que uma organização secreta e vil a consiga capturar. Será que Choné e o rebanho conseguem impedir um Farmageddon na quinta Mossy Bottom, antes que seja tarde de mais? Esta comédia de ficção científica em stop-motion bebe de inúmeras referências do género, e consegue conquistar mesmo dizendo poucas a nenhumas palavras.

shaun the sheep
Richard Phelan no set de “A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca” (2019) |©NOS Audiovisuais

Encontrámos três bem dispostos convidados na última edição da Comic Con, os dois realizadores e o produtor desta criativa obra de animação para os mais jovens. Começámos por lhes dar as boas-vindas a Lisboa, um local que ainda não conheciam bem e que estavam entusiasmados por vir a explorar.

A primeira pergunta colocada ao grupo relacionou-se com o título da obra. Em Português, o filme tem o subtítulo “A Quinta Contra-Ataca”, que compreendemos ser uma referência a um dos capítulos do Star Wars. Contudo, e apesar de ser um nome relacionável com os eventos do filme, o nome original em inglês transporta um trocadilho bem mais eficaz.

Lê Também:
A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca | Estreia dia 12 de dezembro (Trailer)

No original,  “A Shaun the Sheep Movie: Farmageddon”, remete-nos para uma contração entre as palavras “Farm” (Quinta) e “Armageaddon” (Armadegão), que assentam que nem uma luva à narrativa alienígena da obra de animação.  Por isso, começámos por questionar a equipa responsável pelo filme em relação a quem foi, entre eles, o responsável pela criação do nome. Algumas risadas e silêncios depois, lá me foi confessado que Nick Park, criador inicial do personagem e produtor executivo do filme, foi quem sugeriu o nome, inicialmente não escolhido, mas ao qual a equipa acabou por regressar.

Através de diversas questões que se tocam, conseguimos compreender que este foi um trabalho feito a diversas mãos, um trabalho de equipa notável por parte deste estúdio mestre da animação em stop-motion a nível mundial. Nick Park e Marc Burton, grandes nomes, estiveram envolvidos em cargos de produção executiva, tendo Mark Burton, argumentista também  de “Wallace & Gromit: A Maldição do Coelhomem” (2005), sido responsável por este guião.

A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca
“A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca” (2019) |©NOS Audiovisuais

Depois do sucesso gigante da primeira longa-metragem da “Ovelha Choné”, os realizadores desta nova aventura indicam que começaram “de imediato a trabalhar no segundo acto”. Ávidos fãs de ficção científica, tiveram a ambição de conduzir esta história até uma nova dimensão. Quanto às ideias, estas “estiveram a ser aperfeiçoadas durante muito tempo, à volta de quatro anos”. Assim, esta segunda longa não foi, para eles, e para o Estúdio, nada senão um esforço orgânico e natural.

Esta equipa não tinha apenas experiência com o universo dos Aardman, mas também com a própria Ovelha Choné, considerando o trabalho prévio já mencionado, no que diz respeito à versão televisiva e ao primeiro filme. Por isso, seria imperativo questioná-los acerca do grande desafio que é adaptar um conteúdo da televisão ao cinema. De acordo com os criadores, “uma série é uma ideia de alguns minutos, uma longa-metragem é uma viagem emocional profunda e rigorosa”.

A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca
Nas Gravações | ©NOS Audiovisuais

O trabalho desenvolvido não é comparável, evidentemente, mas também não o é o método empregue. E, por isso, o ponto de partida para uma curta de meia-hora é muito diferente do ponto de partida para um filme de hora e meia. Os realizadores estreantes não tiveram problemas em admitir o seu nervosismo, mas garantem que todo o Estúdio os apoiou ao longo desta longa jornada que é criar de raiz um filme, especialmente utilizando figuras de plasticina e maquetes.

Paul Kewley, produtor que tem dedicado grande parte da sua vida profissional à ficção em torno desta personagem, destaca a sua paixão pelo projeto, dizendo que “se apaixonou, e que Shaun (no inglês) é um estupendo personagem” e que “obter uma reacção positiva por parte das pessoas (como aconteceu no primeiro filme) faz com que tudo valha a pena”. Kewley reforça ainda o quão aterrador é preparar um filme durante anos, sem saber qual vai ser a reacção do público.

Ovelha Choné (2019)
Choné e Lu-la |©2019 Aardman Animations Ltd and Studiocanal SAS All Rights Reserved

Aproveitámos para questionar os realizadores em relação ao processo e aos desafios colocados ao passar do departamento de artes e animação para a cadeira do realizador. Quão diferente foi afinal? Segundo Richard “A ambição para realizar implica um esforço consciente e concentrado”. Uma vez mais, agradecem a ausência de pressão ao longo de todo o processo, e destacam a sua ambição corajosa, a de levar o projecto em direcções nunca antes exploradas.

A casa Aardman é uma das mais lendárias no que diz respeito a animação, e apresenta uma marca visual bastante distinta. Estes três membros centrais, os mais essenciais à concretização do projecto, destacam a honra que é trabalhar com uma empresa tão premiada, mas também o longo envolvimento que possuem já com este personagem. Destacam ainda que Mark Burton esteve bastante presente ao longo de todo o processo, especialmente no que diz respeito à história, bem como todo o estúdio, mas deixam bem claro que houve uma evidente aposta no seu talento e na sua visão e que este “foi sempre o seu filme”. Um gesto de confiança que sem dúvida deu dividendos…

Os realizadores, fãs de ficção científica e fantástico, falaram ainda um pouco sobre as incontornáveis influências que povoam o filme, a maior parte delas residentes no mundo da ficção científica. Destacam “Arrival”, H.G. Wells e a sua “Guerra dos Mundos”, Spielberg e em geral todo o universo de clássicos de sci-fi como a sua grande inspiração central. Todas estas referências se tornam bastante evidentes, e deliciosas, para quem vê a obra, tornando-a verdadeiramente uma obra familiar que qualquer adulto fã de ficção científica conseguirá apreciar.

Choné - backtage
“A Ovelha Choné” ou “Sinais”, de M. Night Shyamalan? |© Aaardman Animation/ NOS Audiovisuais

Pedi ainda aos três realizadores que indicassem um filme de animação que fosse particularmente do seu agrado, mas que tivesse sido algo subvalorizado. E, ainda, para indicarem quais os estúdios que mais admiravam para além do seu. Richard Phelan referiu uma enorme paixão por todos os outros grandes estúdios: adora filmes da Pixar, Disney, Ghibli, e refere uma paixão recente na produção dos últimos anos, a co-produção entre o Estúdio Ghibli e a Wild Bunch “A Tartaruga Vermelha” (2016), que vê como um filme diferente, poderoso e que se destaca claramente.

Já Will responde inicialmente o que muitos criadores respondem, e de certo com razão. Avança que tem um respeito tremendo por quem quer que realize um filme de animação. Se aprendeu algo com as suas incursões na realização, foi que até os filmes “maus” de animação merecem o reconhecimento devido. Destaca ainda a importância do filme “O Gigante de Ferro”, obra da Warner Bros. de 1999. Por sua parte, Paul destaca “Carros”, de John Lasseter, como um dos filmes da Pixar mais subvalorizados pela crítica.

O Gigante de Ferro
“O Gigante de Ferro” (1999) | © Warner Bros. Ent. All Rights Reserved

Sobre possíveis projetos futuros nos Aardman, e sobre a possibilidade de realizar um filme do universo “Wallace & Gromit”, os realizadores acenam que não com a cabeça: “Esse é o bebé de Nick Park, e não quereríamos isso”. Procuram antes as suas próprias histórias. E mal podemos esperar por elas! Houve ainda tempo para tentar tirar nabos da púcara junto de Paul Kewley, colaborador na antecipada sequela de “A Fuga das Galinhas”. O produtor fechou-se em copas, e nada avançou, mas como se costuma dizer, tentar não custa. Disse-nos contudo que envolverá muitas galinhas. Quem diria?

Com uma conversa breve mas agradável, conseguimos compreender o amor pela animação que une estes três entrevistados, que certamente voltarão a colaborar e a surpreender-nos no futuro próximo.

“A Ovelha Choné: A Quinta Contra-Ataca” estreou em Portugal no passado dia 12 de dezembro, última quinta-feira. Não percam esta aventura,  que oferece verdadeiramente algo para toda a família! 

Maggie Silva

Mestre em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *