"A Sabedoria do Polvo" | © Netflix

A Sabedoria do Polvo, em análise | Melhor Documentário

O grande vencedor do Óscar para Melhor Documentário deste ano foi “A Sabedoria do Polvo” da Netflix. O filme tem conquistado muitos fãs, mas será que merece toda a aclamação?

Antropomorfia é algo insalubre e perigoso, um veneno cujos efeitos são tão invisíveis como corrosivos. Quem já não se divertiu a ver filmes com animais falantes ou imaginando personalidades humanas para queridos companheiros de quatro patas? Contudo, da inocência nasce a perfídia, o dano ambiental e a libação de sangue que é feita em nome da estupidez humana. Talvez os melhores filmes jamais feitos sobre o tema sejam aqueles assinados por Werner Herzog.

Em “Grizzly Man”, esse cineasta alemão fez questão de desconstruir a ingenuidade mortífera de um aficionado da vida selvagem que acabou a vida a ser devorado por ursos. Sem ofender os mortos ou os vivos, esse documentário mostra-nos como a sobreposição de valores humanos a animais é uma forma de mentirmos a nós próprios e nos pormos em situações com consequências devastadoras. Noutras obras, o cineasta foi mais longe, subtilmente ilustrando como o afeto da pessoa pode ser a desgraça do animal.

a sabedoria do polvo critica
© Netflix

Muitas histórias existem sobre pessoas que, ao quererem constringir animais à vivência humana, tanto se magoam a si mesmas como aos animais. Quantas formas de pseudo domesticação não são mais que abuso mascarado de compaixão? Tudo isto para dizer que antropomorfizar animais é uma má ideia e, longe dos campos da ficção e fantasia, convém examinarmos a arte que promove tais dinâmicas com uma módica suspeita. Quando se trata de um documentário que pretende contar uma história inspiradora, a necessidade de algum ceticismo é ainda maior.

“A Sabedoria do Polvo” jamais admite a existência de uma intrínseca barreira que separa o pensamento humano daquele do animal. Se conhecer outras pessoas por completo é, já por si, uma impossibilidade, conhecer um animal “irracional” é algo ainda mais arrojado. Contudo, as barreiras da razão não param o cineasta indiscreto de projetar suas mágoas, suas esperanças e ansiedades, na criatura que lhe aparece no caminho. Esse homem é Craig Foster que, a meio de uma crise de meia-idade, resolveu afastar-se da família e passar os dias a explorar a vida subaquática na costa da Cidade do Cabo.

Nas suas viagens debaixo de água, ele deparou-se com um polvo fêmea e, maravilhado com a astúcia do invertebrado, deixou-se encantar pela proximidade que sentia. Sobrepondo suposições de emoção humana sobre o polvo, Foster construiu toda uma relação afetiva, uma amizade inter-espécies que o ajudou a superar um período de crise. Como todo o bom profeta New Age com rasgos de hippie endinheirado, o senhor persegue o polvo em busca de sabedoria profunda e diz encontra-la. De facto, o filme assim nos é apresentado como uma espécie de carta de amor ao animal e partilha da epifania pessoal com a audiência.

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O que não é, na verdade, é um bom documentário sobre cefalópodes, suas características científicas, sua estonteante capacidade para resolver problemas e “raciocinar”. Tudo o que Foster nos conta, em vertente factual, é algo básico e superficial. Mais se aprende com um documentário da Disney que com este campeão dos Óscares. Se a educação está fora do prato, o que nos resta é um festim de sentimentalismo açucarado. Disso sim, há muito para encontrar em “A Sabedoria do Polvo”.

Através de fotografia aquática muito bela, os realizadores Philippa Ehrlich e James Reed constroem um festim para os sentidos que jamais desafia o espetador. Eles preferem embalar as audiências, como que lhes sussurrando um conto-de-fadas e pedindo que ignorem as inconsistências da peça. A música ainda é mais pesada em termos da lamechice, puxando a lágrima com tão pouca vergonha que temos de aplaudir a audácia. De facto, se a Netflix tivesse promovido “A Sabedoria do Polvo” como uma narrativa ou um estudo de personagem, a crítica até era capaz de ser positiva. O filme não tem grande astúcia, mas sempre é bem feito, eficaz.

Contudo, o contexto em que o filme existe impede-nos de aceitar sua evocação emotiva. As imagens têm poder, a sinergia entre pessoa e animal, entre humanidade e natureza, tem valor. Mas a invasão do habitat natural é intragável, a arbitrariedade das barreiras éticas que Foster impõe, sua negligência familiar e falta de curiosidade zoológica, prejudicam “A Sabedoria do Polvo”. Quase temos vontade de ver o filme que existe sem Foster, uma obra que olha a natureza com franqueza e não sente aa necessidade de lhe impingir um melodrama antropológico.

a sabedoria do polvo critica
© Netflix

Admite-se também que este desgosto devém muito da reação de amor desmesurado com que o filme tem sido agraciado. Quando arte medíocre é celebrada acima de trabalhos superiores, vem ao de cima um certo ódio mesquinho. Quiçá seríamos mais brandos com “A Sabedoria do Polvo” se este não tivesse conquistado o Óscar de Melhor Documentário a um quarteto de filmes superiores. Ficamos genuinamente felizes por quem encontrou algo profundo no filme. Na mesma medida que confessamos a falta de objetividade, também salientamos que, não obstante suas belezas superficiais, seu caloroso sentimento, este sucesso da Netflix que promove sentimentos antropomórficos não é nada de especial. Recomendamos para quem goste de ver belas paisagens subaquáticas.

A Sabedoria do Polvo, em análise
a sabedoria do polvo critica

Movie title: My Octopus Teacher

Date published: 6 de May de 2021

Director(s): Pippa Ehrlich, James Reed

Genre: Documentário, 2020, 85 min

  • Cláudio Alves - 35
35

CONCLUSÃO:

“A Sabedoria do Polvo” não mereceu o Óscar que ganhou. Também não merece a adoração de tantos, se bem que percebemos quem se sinta inspirado sobre esta história de crises de meia-idade e intervenção animal. O polvo é a estrela do filme e a obra seria melhor se fosse somente sobre esse ser. O animal tentaculado é muito mais interessante que o seu “stalker” de duas patas.

O MELHOR: A fotografia colorida, o polvo em si.

O PIOR: A música manipuladora e demasiado enfática, gritante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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