A Academia das Musas, em análise

A Academia das Musas de José Luis Guerín é uma curiosa experiência cinematográfica que levanta questões de ordem filosófica.

Face ao tangível domínio das produções comerciais americanas, nomeadamente de filmes de super-heróis ao estilo dos medíocres Batman V Superman: O Despertar da Justiça, de Zack Snyder ou Capitão América: Guerra Civil dos irmãos Russo, produzidos pela DC Comics e pela Marvel Studios, é sempre interessante assistir à estreia de um filme do circuito independente europeu. Desta vez, estamos perante uma produção um quanto experimental do realizador catalão José Luis Guerín com o título A Academia das Musas. Vencedor de três conceituados prémios – o prémio de melhor filme no Festival de Sevilla, o prémio Don Quixote no Tromsø International Film Festival e o de melhor realizador no Cartagena Film Festival – A Academia das Musas, parece ser aquele tipo de filme indicado para debater questões sobre onde termina o documentário e onde começa a ficção, ou vice-versa.

Nele, Raffaelle Pinto é um professor italiano que ensina, numa turma de pós-graduação de Filologia em Barcelona, sobre o poder fetichista e, quiçá, ninfomaníaco explicitado pelas musas, com influência particular em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, um dos maiores poetas italianos. Os seus alunos, ou melhor as suas alunas, discutem eloquentemente sobre as teorias um pouco proeminentes do professor, tentando coloca-las em voga nos dias de hoje. Estas jovens, todas elas de uma beleza e encanto magnético natural parecem, de certo modo, fascinar o próprio cineasta, sensação que, por conseguinte, trespassa para a audiência. Olhando uma para às outras questionam sobre a realidade e sobre as suas tão divergentes e inseparáveis categorias metafísicas.

A Academia das Musas

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Ao mesmo tempo, Raffaelle, tenta instigar à reflexão do papel da mulher no contemporâneo, sempre num devaneio artístico e poético. Uma certa excelência deste filme resguarda-se por ser uma espécie de aula de ensino superior mais apelativa do que aquelas que realmente experienciamos. Contra esse modo de instrução está a sua esposa, que prefere a dominação masculina nas histórias de sedução, como por exemplo Lancelot ou Orfeu. As discussões entre eles decorrem, de forma orgânica, à medida que Guerín infiltra-nos no retrato daquele casal notoriamente cansado com a presença do outro – veja-se a necessidade de ambos preencherem a estante da sala com os livros ordenados como um dela, outro dele.

Mesmo assim, a câmara está sempre por ‘fora’, afinal aquele mundo é distante do seu espetador, filmando a partir das janelas e vidros dos espaços onde as personagens se encontram (seja a casa, o carro e o café), prova constante dessa influência da natureza no instinto humano. Por sua vez, discutem-se nada mais, do que a origem do amor, da palavra em si, na verdade uma invenção puramente literária, como referenciado no início do filme, “uma invenção dos poetas”. Nesse pretexto, A Academia das Musas explora o vazio nas relações, no qual Guerín cria um exercício cinematográfico estimulante, pelo menos até certo ponto.

É que A Academia das Musas, embora disposto a atingir o espetador, com uma estética primorosamente similar aos filmes do Dogma 95 dos cineastas dinamarqueses Lars von Trier, Susanne Bier e Thomas Vinterberg, não consegue causar qualquer efeito de surpresa ou espanto. Situação que mostra como o espetador em vez de querer intervir como crítico, prefere levantar-se rapidamente da sala e deixar a experiência preferencialmente para um dia de estudo imersivo. Inclusive, as cenas, por vezes sobre uma marca brechtiana de rutura, são excessivamente interrompidas para que tomemos conhecido das datas em que as sequências supostamente foram filmadas e decorrem, como se isso fosse o primordial da trama.

A Academia das Musas

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A valer, apesar dos seus problemas, A Academia das Musas encontra-se numa panóplia de filmes riquíssimos com a mesma fórmula, onde se destacam Santiago (2007), do brasileiro João Moreira Salles e Elegiya zhizni. Rostropovich. Vishnevskaya (2006), do russo Aleksandr Sokurov, criando uma imagem um quanto melodramática e exacerbada dos seus protagonistas, uma vez que os cineastas ligam-se subjetivamente às situações contadas.

Não esqueçamos que em A Academia das Musas, Guerín remota a uma memória cinematográfica italiana, sobretudo ao mundo de Roberto Rossellini e a duas das suas parcerias com Ingrid Bergman. Quando o professor Raffaelle visita Sardenha com a sua aluna lembramo-nos imediatamente de Stromboli, com o pastores a declamarem alguns versos que redigiram quando ainda eram jovens. A segunda até Nápoles onde o Viagem em Itália é patente na visita à caverna da Sibila, aos poços de enxofre de Pozzuoli e ao cemitério de Fontanelle, este último que dispõe de caveiras amontoadas umas em cima das outras. Nestes dois filmes apodera-se da alma humana uma melancolia marcante, cujos espaços remontam às profundezas do caráter.

José Luis Guerín contempla ainda na sua modesta obra, uma certa desmistificação dos modelos tradicionais femininos, posto que as diferentes mulheres que o protagonista contacta são inteligentes, perspicazes e conseguem eclipsar todos os homens. Não são fantoches estereotipados de mulheres com uma vida familiar francamente estável, preferindo a leitura de obras clássicas às lidas domésticas.

Como já referido, A Academia das Musas perde terreno na repetição da temática das discussões, e pela pouca empatia que as personagens conseguem gerar com o espetador. Excepção óbvia para a mulher do professor, interpretada pela atriz Rosa Delor, à partida disposta em acompanha-lo por todas as jornadas e mudanças repentinas de atitudes para no final duvidar do homem que esteve, durante vários anos, ao seu lado.

A Academia das Musas

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Faltava, talvez, um maior cuidado intelectual na forma como o cineasta pretendia amalgamar documentário com ficção, esticando o filme por terrenos despropositados. Não obstante, vale a pena a ida ao cinema nem que seja para perceber onde é que começa o real e onde começa a ficção, ou melhor, onde começa um comum filme e onde começa a obra-prima.

O MELHOR – A interpretação da ‘musa’ do professor.

O PIOR – A angústia sentida pelo espetador normalmente mais dado ao cinema mainstream.


Título Original: La Academia de las Musas
Realizador:  José Luis Guerín
Elenco: Rosa Delor, Emanuela Forgetta, Patricia Gil, Mireia Iniesta, Carolina Llacher, Raffaele Pinto 
Leopardo | Drama | 2016 | 92 min

a academia das musas

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VJ

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