Alexandre Rockwell na rodagem de “Sweet Thing” © Zero em Comportamento

Alexandre Rockwell | Entrevista exclusiva ao cineasta de Sweet Thing

Continuamos com o nosso extraordinário leque de entrevistas e desta vez falamos com o cineasta Alexandre Rockwell sobre “Sweet Thing”. 

A MHD esteve à conversa com o responsável pelo filme “Sweet Thing – Infância à Deriva“, um drama independente sobre a infância nos Estados Unidos na América que chega às salas de cinema portuguesas já na próxima quinta-feira 22 de julho. Para a MHD foi uma oportunidade única, promovida pela distribuidora Zero em Comportamento – Associação Cultural, de falar com um dos melhores cineastas do fórum independente norte-americano.

Antes de leres a nossa conversa, poderás assistir ao trailer de “Sweet Thing – Infância à Deriva” abaixo.

Sweet Thing | O novo filme de Alexandre Rockwell chega a Portugal

Alexandre Rockwell pode não ser um nome tão conhecido como Richard Linklater, Jim Jarmusch, Wes Anderson ou sequer Steven Soderbergh, esses artistas que aspiraram a uma nova forma de fazer cinema nos anos 90. Enquanto esses nomes conseguiram dar o salto para Hollywood ou até mesmo ganho um estatuto de culto, o nome de Alexandre Rockwell sempre ficou ligeiramente à margem. O seu primeiro sucesso aconteceu em 1992 com “In the Soup“, protagonizado por Steve Buscemi, Seymour Cassel e Jennifer Beals, com o qual acabaria por vencer o Grande Prémio do Júri no Festival de Sundance desse ano.

Seguiu-se “Somebody to Love“, com Rosie Perez e Harvey Keitel e depois disso “4 Quartos” (1995) no qual Rockwell colaborou com Quentin Tarantino, Allison Andrews e Robert Rodriguez, num filme dividido por segmentos. Em 2002, apresentou-se a comédia de sucesso “13 Moons” com Steve Buscemi, Peter Dinklage, Sam Rockwell e Jennifer Beals e já em 2011, colocou Peter Dinklage ao lado de Tim Roth no filme “Pete Smalls is Dead”. Finalmente em 2016 teve a oportunidade dos seus sonhos: trabalhar com os seus filhos Lana e Nico Rockwell no drama “Little Feet”, aclamado nos Festivais de Cinema de Toronto e de Roma.

Oito anos depois volta a rodar com os seus filhos “Sweet Thing – Infância à Deriva” que aqui dão vida a duas crianças que tentam fugir ao tenso ambiente familiar, provocado pela existência de um pai alcóolico (Will Patton). Deixados por conta própria, cruzam-se com Malik (Jabari Watkins), com quem irão passar um bom bocado e escapar ao ambiente complexo que habitam.

Alexandre Rockwell
O realizador Alexandre Rockwell na rodagem de “Sweet Thing” © Zero em Comportamento

Na verdade, esta nova proposta de Alexandre Rockwell é a prova de que o cineasta está interessado em desenvolver um cinema inquietante, energético e sobretudo mais humilde possível. Apropria-se da sua vida privada, apresenta-nos os seus filhos, esses atores de tão tenra idade, com a finalidade de tocar temas mais universais. Com Virgílio Jesus, coordenador de cinema e streaming da MHD, Alexandre Rockwell comentou essas mesmas questões e o quão fascinado ainda está pela infância, período do qual confirma não existirem muitos projetos fidedignos. Não há nenhuma preocupação do realizador em tornar a sua história excêntrica. Aquilo que vemos é um retrato gentil de um ambiente sórdido e da maneira como as três crianças o tentam superar. “Sweet Thing – Infância à Deriva” fala-nos da insegurança, da imaginação e da liberdade das crianças, tudo de uma maneira poética e com a nostalgia da Nouvelle Vague e do cinema de François Truffaut.

Atualmente, além de realizador, Alexandre Rockwell é diretor do departamento de Realização no prestigiado Programa Tisch School Arts Grad Film da Universidade de Nova Iorque. Lá tem conseguido apoiar os mais promissores jovens do cinema independente, aproximando-se de um cinema de autor, que está à margem, mas que ainda não foi esquecido.

MHD: Como é que lhe surgiu  a ideia para “Sweet Thing – Infância à Deriva”? 

Eu tinha feito um filme com os meus filhos chamado “Little Feet“, com um orçamento relativamente baixo. Nele documento uma época das suas vidas, em que cada momento é repleto de poesia e beleza. Tinha um forte sentimento nostálgico e, de muitas maneiras, lembrava-me de filmes como “O Balão Vermelho” (Albert Lamorisse, 1956), que me afetaram muito quando eu era criança. Para esse projeto, eu coloquei-me de joelhos para fazer um filme no nível do olhar de uma criança com cinco ou seis anos. Era uma história simples, mas, à medida que a contava, comecei a ver uma grande profundidade nela. A simplicidade de um dia que dura para sempre trouxe muito ao próprio filme.

Depois que terminei aquele filme, passei um tempo a pensar noutro projeto, mas a ideia de fazer outro filme com os meus filhos e com os meus alunos não me parava de atormentar. Decidi então que “Sweet Thing” consideraria a inocência e a pureza dessas crianças e as faria enfrentar uma conformidade extremamente brutal do mundo adulto. A ideia deles preservarem a sua pureza e a sua honestidade num  ambiente comprometido foi o que mais me desafiou. Portanto, esse era o objetivo e a razão de fazer esta viagem.

Alexandre Rockwell
Alexandre Rockwell e Will Patton © Zero em Comportamento

MHD: Como foi trabalhar com o Jabari Watkins, uma preciosa revelação neste filme? 

AR: O Jabari Watkins é uma força da natureza. Como o fogo ou como um rio furioso que não gostarias de controlar.  Muitas pessoas pensaram que eu tinha cometido um erro quando o trouxe para o filme depois de descobri-lo numa pista de skate na cidade de Nova Iorque. O primeiro dia de filmagem foi impressionante para ele, mas encontramos uma maneira de trabalhar juntos que trouxe todas as suas melhores qualidades para o grande ecrã.

Às vezes, como realizador, descobres que não existe uma forma única de trabalhar com um ator, assim como não existe apenas uma forma de trabalhar com qualquer ser humano. Para extrair o melhor de alguém, é preciso encontrar a sua linguagem ou uma linguagem que funcione para ambos. O Jabari e eu tornamo-nos família e foi essa confiança mútua que criou o que considero uma das apresentações mais maravilhosas nos meus filmes.

3 – Em “Sweet Thing – Infância em Deriva” o Alexandre colaborou com os seus próprios filhos. Como foi fazê-lo depois da rodagem de “Little Feet”? Acredita que a rodagem de um filme deve tomar sempre uma linha mais pessoal?

AR: Acho que é impossível evitar a si mesmo num determinado trabalho. Muitos filmes são desprovidos de personalidade e voz, mas isso revela um pouco a natureza do criador. Se fores verdadeiro contigo mesmo e corajoso o suficiente para mostrar todas as tuas verrugas e também os teus pontos fortes, talvez sejas capaz de fazer um bom filme. Um filme pessoal, fiel à tua voz.

Para mim o cinema deve ter sempre um lado pessoal, mesmo que a sua história não tenha nada a ver contigo ou com a tua vida pessoal. Esta será a tua maneira de dizer alguma coisa. Basta pensar na estrondosa voz de Billie Holiday, sendo um dom, tens a obrigação de partilhá-lo.

Alexandre Rockwell
Lana e Alexandre Rockwell © Zero em Comportamento

MHD: Porque decidiu rodar “Sweet Thing” em preto e branco e não a cores? Qual foi o seu propósito para este coming of age?

AR: Para mim, o preto e branco é a linguagem dos sonhos. Isso o afasta da “realidade” e permite que o público faça uma viagem livre das restrições da chamada arte representacional. Outra razão é que, quando não tens muito dinheiro para fazer um filme, podes controlar o preto e branco de uma forma que é bastante difícil com a cor, caso não tenhas uma equipa de produção tão completa. É meio estranho alguém entrar numa livraria e olhar para um livro de fotos em preto e branco e não pensar em nada disto. Ao passo que quando vamos ver um filme, pensamos que preto e branco de alguma forma é nostálgico. Para mim, a arte é atemporal e as minhas inspirações vão para frente e para trás sem restrições de tempo. Acho que às vezes as pessoas cometem o erro de pensar que eu faço sempre um filme nostálgico. De alguma forma, somos todos feitos de nossas memórias, mas também é importante ser fiel ao momento e vivê-lo plenamente.

Para responder à segunda parte da pergunta, acho que este é um momento crítico para as crianças. De alguma forma, eles devem navegar pela vida conforme encontram o mundo adulto. Eu queria tornar isso extremo, então ampliei a conformidade e a brutalidade da vida adulta. Isso ajudou a ilustrar o conflito e a dificuldade das crianças manterem a sua inocência. Foi um desafio para mim e é um desafio para os personagens do filme permanecerem honestos, leais e verdadeiros.

Alexandre Rockwell
Rockwell na rodagem do filme | © Zero em Comportamento

MHD: Atravessou alguma dificuldade durante a sua infância? O que diferencia “Sweet Thing – Infância à Deriva” de outros projetos sobre a infância?

AR: Eu não gosto de desprezar as crianças. Acho que, para ser criança, tens que te ajoelhar e ser humilde e não julgar. Cresci numa família que tinha problemas com álcool e abusos físicos e os meus pais divorciaram-se quando eu tinha apenas quatro anos, então tive os meus próprios desafios e, talvez de alguma forma, resolvo-os em “Sweet Thing – Infância à Deriva“. Eu acho que um artista deve reter um certo sentido de honestidade e inocência.

Adoro tantos filmes sobre crianças. Existem filmes mágicos como “O Espírito da Colmeia” (Víctor Erice, 1973), e adoro a inocência dos filmes de Jean Vigo, e claro “Os Quatrocentos Golpes” (François Truffaut, 1959). O filme italiano “Ladrões de Bicicletas” (Vittorio De Sica, 1948) também reside em “Sweet Thing”.

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MHD: Como foi trabalhar com o Will Patton e como é que ele trouxe a profundidade necessária à personagem, tendo em conta que é o alcoólico?

AR: O que posso dizer sobre o Will Patton? Ele foi uma dádiva de Deus para o filme, o único outro adulto que trabalhou nele, e ele exigia respeito. Ele é um ator muito corajoso e os meus filhos apaixonaram-se por ele. Ele traz tanta alma à personagem que torna a sua realidade brutal vulnerável e identificável.

Eu sei que foi difícil para ele interpretar um personagem tão brutal, mas redimiu-se quando pensou no amor que a personagem sente pelos seus filhos. A certo ponto na história afirma “tu és a melhor coisa que me aconteceu”. Isso define realmente o Will Patton em poucas palavras.

Alexandre Rockwell
Lana e Alexandre Rockwell em “Sweet Thing” © Zero em Comportamento

MHD: O que o Alexandre gostaria de dizer às audiências antes da projeção de “Sweet Thing – Infância à Deriva”?

AR: Eu espero que eles vejam algo de si mesmos neste filme, mesmo que seja de um lugar completamente diferente no mundo. Espero que a voz humana no filme transcenda e se traduza para outras culturas. Eu faço os meus filmes para dar voz às pessoas ou alguma parte delas que nem sempre é reconhecida.

Oferece tudo à minha audiência. Todos nós trabalhámos em “Sweet Thing – Infância à Deriva” com muito amor e fomos guiados por um sentido de humanidade que nos uniu. Espero que a audiência  testemunhe o amor que envolveu toda a equipa técnica.

MHD: O que admira mais enquanto professor de universidade? 

AR: Gosto de partilhar as coisas que adoro no cinema com os mais jovens. É uma relação recíproca onde fazemos experiências que nos mostram novas dimensões desta arte mágica e transformadora. Cinema é emoção pura, como música, e, para mim, é uma honra partilhá-lo com outras pessoas, principalmente os jovens tão cheios de vida, cuja curiosidade e vontade em aprender são uma inspiração.

Alexandre Rockwell
Alexandre Rockwell ao lado da sua filha Lana Rockwell © Zero em Comportamento

Ansioso pela estreia de “Sweet Thing – Infância à Deriva”? Fica atento aos próximos artigos da MHD sobre o panorama independente americano. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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