Fernanda Pessoa em "Zona Árida" com apenas 15 anos © Zero em Comportamento

Zona Árida | Entrevista à realizadora Fernanda Pessoa

Fernanda Pessoa, realizadora do documentário “Zona Árida” falou com a MHD sobre a cidade mais conservadora dos EUA.

Zona Árida” é um filme do aqui e do agora e um dos documentários fundamentais deste ano cinematográfico que os espectadores portugueses precisam de descobrir nas salas de cinema (conta com exibições até ao próximo dia 9 de julho como é possível observar na imagem abaixo).

Realizado por Fernanda Pessoa, “Zona Árida” tem sido rotulado como um filme pertinente sobre a cidade mais conservadora dos EUA, neste caso referindo-se a Mesa, no estado do Arizona. Na verdade, trata disso mesmo mas o seu principal foco é sobretudo relatar a experiência pessoal de uma brasileira que sonhava experienciar o american way of life, que sonhava agarrar com unhas e dentes o american dream.

Zona Árida
Sessões de “Zona Árida”

Da ilusão para a realidade, “Zona Árida” é exatamente sobre uma zona cega, aparentemente anónima e sobre um deserto imenso que tapa os olhos dos seus habitantes. Com enorme decepção, percebemos que a América dos sonhos de Fernanda não foi a América com a qual a cineasta se cruzou. Em pouco mais de 1 hora, viajamos com Fernanda Pessoa pelos EUA, um país que iludiu e continuará a iludir muitos jovens, aprisionados a uma construção cultural de filmes de super-heróis, de filmes de animação e obviamente de filmes de ficção científica que adoram abordar a árdua vida daquela que muitas vezes se auto-denomina como a maior nação do planeta Terra – pelo menos é onde parecem chegar todos os aliens.

Mas como poderemos entender o conservadorismo americano? O que significa ser conservador? Se para uns, o conservadorismo americano é sinónimo de clausura, de supressão branca e machismo, para outros pode ser sinónimo de “mente aberta”. O conservadorismo americano pode ser sobre o aceitar as opiniões dos outros. Pelo menos é um que diz uma das intervenientes deste documentário. Fernanda Pessoa começou cedo a tentar encontrar uma resposta para esse termo, tinha apenas 15 anos quando aterrou nas terras do tio Sam. Com a ajuda da cineasta, esta entrevista focou-se em tentar decifrar melhor este conceito.

Zona Árida
Documentário de “Zona Árida”

Talvez o nome e apelido de Fernanda Pessoa leve mais portugueses para as salas. Na irónica interligação com o nosso poeta Fernando Pessoa, encontramos em Fernanda de múltiplas identidades. Temos que lidar primeiro com a jovem sonhadora Fernanda do Brasil, a Fernanda aventureira dos EUA e ainda a Fernanda que desperta para a realidade e para o mundo conflituoso em que vivemos. Todas juntas, deram origem a esta mulher madura e mais velha que sabe precisamente aquilo que quer mostrar a nós espectadores. Alguém que cresceu e precisa de juntar as linhas do seu passado, para perceber o seu lugar no mundo, para entender melhor o que fazer no futuro.

A conversa de Fernanda Pessoa foi feita online e concebida ao nosso Coordenador de Cinema e Streaming, Virgílio Jesus, que continua a ser um dos especialistas em entrevistas a personalidades do mundo do cinema e da televisão na nossa página. Entretanto, em breve poderás ler a crítica da MHD ao documentário “Zona Árida”. Não te esqueças ainda de acompanhar os lançamentos da distribuidora Zero em Comportamento – Associação Cultural, que nos permitiu esta conversa.

MHD: “Zona Árida” é um filme rodado em 2016, mas o seu lançamento em Portugal acontece 5 anos depois. Como se sente por ver um filme estrear em solo luso e como contempla agora o seu desafio de regressar a Mesa, no Arizona para fazer um documentário sobre a sua estadia lá em 2001?

Fernanda Pessoa: O “Zona Árida” é um filme onde o tempo tem uma importância muito grande: ele foi rodado em setembro de 2016, 15 anos depois que eu cheguei no Arizona para fazer o meu intercâmbio em 2001. Isso era essencial para mim, eu queria muito estar lá exatamente 15 anos depois.

Eu descobri que Mesa, no Arizona, era a cidade mais conservadora dos Estados Unidos em 2014, quando o Vic, que foi o meu “host pai”, postou essa notícia no Facebook, com muito orgulho e dizendo que gosta de pensar que contribui para isso – e quem viu o filme pode confirmar que ele realmente contribui. Nós filmamos dois meses antes da eleição do Trump em 2016 e lançamos o filme no Brasil no dia das eleições estadunidenses de 2020, quando havia possibilidade da reeleição do Trump.

Então o filme tem esses dois grandes momentos de reflexão: ele é um filme gravado durante a eleição do Trump e lançado no Brasil quando Trump não é reeleito (ainda bem). Acho que essa relação com o tempo é importante para poder decantar algumas informações e refletir menos no calor do momento. Com as redes sociais, muitas vezes não refletimos, apenas emitimos uma opinião muito imediata. O “Zona Árida” é um filme um pouco mais lento na sua reflexão, o tempo da sua narrativa é cíclico.

Eu fico muito feliz com o lançamento do “Zona Árida” em Portugal, que é um país com o qual eu tenho uma relação muito especial. Ainda é hora de refletir sobre esse conservadorismo: aqui no Brasil, ainda estamos vivendo esse momento de conservadorismo muito forte, e o facto do Trump não ter sido reeleito, não quer dizer que o Trumpismo ou que o conservadorismo de extrema direita tenha acabado. Então o filme continua sendo relevante e eu fico muito feliz que o filme encontre esse novo território. O “Zona Árida” foi atravessado pela pandemia, pois foi lançado no Brasil durante esse período, e agora ele vai ter sessões em salas de cinema em Portugal, que é uma coisa que ainda não pôde acontecer aqui no Brasil.

Zona Árida
Fernanda Pessoa, cineasta em “Zona Árida” © Zero em Comportamento

MHD: Como é que a Fernanda se sentiu ao rodar o documentário “Zona Árida” quer a nível político como a nível pessoal tendo em conta que é uma cidade extremamente conservadora?

Fernanda Pessoa: Eu muitas vezes chamei o “Zona Árida” de “a vingança do contexto”. Quando eu voltei em 2016, eu tinha um conhecimento que aos 15 anos, eu não possuía. Em 2001, eu não entendi aquele lugar onde estava, então foi muito curioso voltar e reencontrar essas pessoas, mas agora com todo esse conhecimento. Nessa volta, eu consegui entender a importância do contexto onde se cresce, onde se nasce, o que nos rodeia, e como várias coisas que aconteceram comigo, em 2001, na verdade ultrapassavam as minhas relações ou atitudes individuais. Era algo que tinha muito mais a ver com o contexto social, político e histórico daquele lugar.

Então a nível político foi uma experiência quase antropológica de revisitar esse lugar com todo esse conhecimento. Outra percepção foi a certeza de que o Trump seria eleito – saímos de lá em 2016 com a certeza de que ele seria eleito, enquanto todo o mundo gozava disso e dizia que ele não tinha quaisquer chances. E a nível pessoal, acho que foi uma experiência de crescimento, de entender realmente que muitas coisas que eu passei não foram culpa minha, que muitas coisas que eu vivi fazem parte de algo maior.

Foi uma experiência ambígua, porque, por um lado algumas dessas pessoas despertam carinho em mim: eu tenho carinho por elas. Por outro, são pessoas que pensam de uma forma totalmente oposta à forma como eu vejo o mundo. Eu acho que nos Estados Unidos do Trump e no Brasil de Bolsonaro, muita gente se sentiu assim, nessa relação muito difícil com pessoas por quem se tem um carinho especial, mas que têm pensamentos que abominas.

Zona Árida
Fernanda Pessoa em foco no filme “Zona Árida” com apenas 15 anos © Zero em Comportamento

MHD: O que mais me chamou à atenção no seu documentário é o facto de uma das intervenientes referir que “ser conservador é ser uma pessoa de mente aberta”. O que significa ser conservador aos seus olhos?

Fernanda Pessoa: Essa é uma das questões de base do “Zona Árida“. Durante muito tempo, repetimos a palavra “conservador” sem nos perguntar o que ela de facto significa. Por isso, eu perguntei isso a todos os entrevistados. Todos eles responderam que nunca tinham pensado sobre isso ou deram respostas que não correspondiam à definição do que é ser conservador.

Apenas o Vic tinha uma resposta quase pronta, apontando para a questão do conservadorismo fiscal nos EUA. Na fase de pesquisa do filme eu debati muito isso com a equipa técnica. Uma das minhas definições preferidas é a do Andrew Levine, no seu “Political Keywords: A Guide for Students, Activists, and Everyone Else”, onde no verbete “conservadorismo”, ele diz que “conservadores são gradualistas”, pois querem preservar um certo status quo e rejeitam mudanças abruptas. Para eles, o valor mais importante da política seria a ordem.

Tanto o contexto de um conservadorismo norte-americano quanto o brasileiro, que me parece bastante inspirado pelo norte-americano, apresenta uma contradição essencial, pois o que querem conservar é o capitalismo, que em si é algo em constante transformação e destruição. Ao mesmo tempo, sinto que no Brasil a direita que elegeu Bolsonaro gostaria que fossemos mais parecidos com o modelo norte-americano, mas a verdade é que somos muito diferentes, pois apenas podemos reproduzir um conservadorismo possível aos países periféricos. Nós não somos e não poderíamos ser um grande Arizona, mas acho muita gente no Brasil de hoje gostaria que fossemos.

MHD: Como é que a Fernanda viveu o american way of life numa cidade como Mesa? Sentiu alguma limitação além daquelas contadas no documentário ou foi possível fazer essa viagem a 100% de descoberta do sonho americano?

Fernanda Pessoa: Acho que outro tema importante do filme foi a minha frustração de não ter conseguido concretizar o meu sonho de viver um “filme de liceu americano”. Muita coisa era parecida com o que eu via nos filmes, mas havia uma diferença essencial: eu não sou americana ou branca aos olhos deles, eu era latina e, portanto, o tratamento para comigo era diferente. Eu acredito que o filme deixa a entender que muitas coisas que não estão retratadas no filme aconteceram. O filme é um recorte do que foi essa experiência e é claro que tiveram bons momentos, que pareciam efetivar esse sonho, mas no geral foi uma experiência estranha, que curiosamente eu só consegui encarar porque eu realmente olhava para ela como se fosse um momento separado da realidade.

Aquilo era uma experiência de um ano, que tinha um prazo de validade, uma data específica para acabar e, portanto, eu podia viver aquilo como uma ficção, como se eu não estivesse na minha vida real, e acho que foi isso que me fez aguentar ficar um ano e passar por tudo isso.

Zona Árida
“Zona Árida” © Zero em Comportamento

MHD: A Fernanda chegou a entrar em discussão com alguns dos membros que a acolheram nos EUA. Porque razão vivemos numa sociedade com cada vez mais medo do estranho? Do estrangeiro?

Fernanda Pessoa: Eu sinto que eu fui bastante aberta ao diálogo, para conversar com eles. Uma das grandes orientações para equipa, antes de irmos filmar, era não julgar e tentar abrir um diálogo, conversar e entender esse ponto de vista tão diferente do nosso, e eu sinto que fomos bem sucedidos nisso. As nossas conversas no filme revelam algumas coisas que só podem ser ditas porque tivemos uma conversa “cordial”, sem embates. Eu acho que esse medo do estranho e do estrangeiro tem justamente a ver com uma vontade de conservar um tipo de vida que parece ficar ameaçado quando alguém diferente ou de fora chega.

Em Mesa, eu sinto que eles querem preservar um estilo de vida dos anos 50, com a família tradicional, o papel do homem e da mulher, as casas em condomínios abertos, etc. Os estranhos ou estrangeiros parece que ameaçam esse lifestyle. O curioso é que Mesa é uma cidade com uma população latina muito grande, mas parece que para os latinos serem aceites, precisam preservar esse estilo de vida americano conservador. É isso que o personagem Ricky simboliza para mim no filme, porque ele é um mexicano que absorveu as ideias dos americanos em relação aos mexicanos. Desde que eu morei lá, em 2001, Mesa cresceu muito e sua população de 150 mil habitantes triplicou de tamanho nesse intervalo de 15 anos. Existe um medo muito grande do que vem “de fora”, ainda que eles mesmo, estadunidenses, não sejam nativos daquela terra, como bem lembra o próprio Ricky: ali era a terra dos indígenas e território mexicano, e foi tomada pelos Estados Unidos ao fim de guerra Mexico-Americana em 1848, sendo o Arizona o estado em território “terrestre” mais novo do país. Dessa forma, esses “estrangeiros” encontraram alguém para representar esse “outro” invasor: os mexicanos, ainda que 30% da população da cidade seja “hispânica ou latina”.

MHD: Que semelhantes e também diferenças encontra entre Mesa no Arizona e o Brasil politicamente defendido por Jair Bolsonaro?

Fernanda Pessoa: Como disse antes, eu sinto que no Brasil muita gente gostaria que o país fosse mais parecido com os Estados Unidos. Os Estados Unidos viraram um modelo cultural e social que exerce um poder muito forte através da cultura, principalmente do cinema. É o que eu chamo no filme de “colonialismo cultural”. Ele exerce um fascínio muito grande para os países da América Latina, além de praticar uma dominação geopolítica evidente. No Brasil, estamos sempre muito influenciados pelos Estados Unidos e, durante a eleição do Bolsonaro, muitas pessoas justificaram o voto dizendo que assim estaríamos mais alinhados com os Estados Unidos de Trump. Acho que alguns aspetos mais evidentes, que estão retratados no filme, são a questão da religião, os papéis tradicionais homem/mulher e o culto a armas, algo que Bolsonaro prega bastante aqui.

Foi interessante porque quando começamos a editar o filme, em 2018, eu pensei que estávamos a fazer um filme que dizia apenas respeito aos Estados Unidos. No processo de montagem isso foi mudando, e terminei a achar que o filme talvez faça até mais sentido para nós, brasileiros. A reflexão sobre o momento atual no Brasil, onde há uma quebra da estética do filme, foi inserida nesse momento final da montagem. A sensação de que estávamos a falar do Brasil já estava lá, mas senti que era necessário fazer essa ligação de forma mais clara.

Revê o trailer de Zona Árida, de Fernanda Pessoa


MHD: Quais são os próximos projetos da Fernanda? Tem conseguido filmar alguma coisa aí no Brasil?

Fernanda Pessoa: Eu lancei um curta-metragem em 2020 que se chama “Igual/Diferente/Ambas/Nenhuma”, co-dirigido com a Adriana Barbosa, uma cineasta mexicana-brasileira que mora em Los Angeles. O filme é uma troca de vídeo-cartas durante o período da pandemia, contando um pouco da nossa situação pessoal, política e social – eu no Brasil, ela nos Estados Unidos. Cada vídeo-carta é inspirada por uma mulher cineasta experimental. Esperamos que o filme seja lançado em Portugal em breve. Esse projeto é também uma longa-metragem e já foi selecionado para alguns laboratórios esse ano e que conseguiu financiamento fora do Brasil, do fundo suíço Visions Sud Est. Isso é muito importante, porque no Brasil nós estamos com um enorme problema de financiamento para o cinema.

A Ancine, que é a nossa agência do cinema, está praticamente parada pelo governo Bolsonaro, que está tentando desmantelar o cinema brasileiro. Então tem sido muito importante esses apoios internacionais. Além disso, logo antes da pandemia, no final de 2019, eu filmei uma curta-metragem experimental em Super 8, em que eu viajei por sete países que viveram por experiências anti-capitalistas no século passado. Editei esse projeto durante a pandemia e em breve terei novidades.

Apesar das tentativas do governo Bolsonaro em acabar com o cinema brasileiro, resisto e continuo a produzir os meus projetos, de uma maneira ou de outra.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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