Alien: Covenant, em análise

Alien: Covenant evoca o terror primordial num pesadelo benigno de histeria xenomórfica.

Falar de Ridley Scott, o pai de “Alien”, sem idolatrar um dos seus primeiros filhos cinematográficos “Alien: O Oitavo Passageiro“, seria uma heresia indesculpável perante a magnificência de um pedaço digital de ficção cientifica tão historicamente relevante à quase quatro décadas como agora. Covenant nasce, assim, com o pesado fardo do seu berço de ouro, mas tem mais de primogénito do que de algo vincadamente incaraterístico. A fita abre-se no Cosmos, com a embarcação espacial “Covenant” a pisar o terraço estrelado entre os clássicos glifos iniciais de palavras alienígenas. E sente-se logo a ideia daquele pivete acídico de um fluído pegajoso a deslizar algures nas grelhas metálicas desta nave colonizadora a caminho de um paraíso qualquer. Mas nada melhor que a rudeza de uma tempestade solar para despertar o astral de quinze tripulantes enjoados; dois mil passageiros em câmaras de sono e mil embriões congelados; só para aquecer prematuramente os corações de fé. “Origae-6” seria o destino de tais preces, não fosse uma mensagem clandestina avivar o carma de um “Prometeus” adormecido à dez anos, desviando aquele gado de vidas para os aposentos da morte. Foi assim que John Logan e Dante Harper redigiram o convite envenenado dos nossos “Engenheiros“, compactando gradualmente todos os espaços abertos até o “gatão” e o “ratinho” ficarem enjaulados naquele labirinto neurótico e claustrofóbico.

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E enquanto a nave mãe dava coices sobre um ciclone de iões furiosos com um vaqueiro ao leme, Tennessee (Danny McBride), a turma do “Convénio” – liderada por um cientista crente Oram (Billy Crudup) e a sua destemida subordinada Daniels (Katherine Waterston), aterram naquele postal romântico de uma flora demasiado atrativa para não ser letal; algo que não espantaria os circuitos cerebrais de Walter (Michael Fassbender) – aquela espécie de “mordomo espacial” como Ridley carinhosamente apelida o seu androide protagonista. E enquanto Wolski vai desapertando o cenário idílico, surripiando a unidade de colonos por entre as searas de trigo até cair a seus pés, os esporos fúngicos vão-se disseminando pelos orifícios humanos como minas ativadas na sua passagem, incubando uma forma parasitária em tudo aterradora. E é logo aqui, que Ridley começa a rasgar a contenção atmosférica com uma cadência sôfrega em mutilar sem demora o primeiro corpo, esguichando para a tela um grau de violência quase intolerável. É um registo invulgar do realizador britânico, que numa recente entrevista admite que “Prometheus” possa ter frustrado as expetativas dos fãs mais devotos, provando-lhe a ineficácia de um filme quase anti-alien. Mas “Covenant” sucede-lhe agora como o equalizador da saga original, estando apenas a escassos vinte anos de apanhar Ripley.

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“O guião de Logan parece esforçar-se em demasia por justificar a existência dos seus intervenientes, que Ridley tenta despachar a torto e a direito.”

A gestação dos trogloditas aracnídeos é tão acelerada que só permite um guincho de ajuda, retalhando a espinha dorsal do hospedeiro como uma porta aberta para um banquete vampírico. Scott pretende assustar “the shit out of people” como já confessou publicamente, promovendo um autêntico banho de sangue num elenco quase virgem, que alimenta eficazmente a trepidação da câmara aflita com aquela emergência dramática própria da jovialidade. Contudo, o guião de Logan parece esforçar-se em demasia por justificar a existência dos seus intervenientes, que Ridley tenta despachar a torto e a direito. Mas não tarda o seu olhar cinematográfico em atingir laivos de génio, quando a “Força Delta” da “Covenant” circunda militarmente uma das criaturas extraterrestres e, no meio do nada, por entre os lasers noturnos das automáticas, surge um disparo cegante de David (novamente Fassbender) como se fosse um autoproclamado guerreiro Jedi. E é ele quem rouba duplamente os holofotes daqui em diante, esvaziando o grosso do argumento de “Covenant” com um discurso deleitosamente sombrio e manipulador repleto de referências mitológicas. E Drew bem que invoca com toda a pompa e circunstância a enciclopédia artística que David pretende cinzelar para si próprio, engendrando esta rotunda de cadáveres fossilizados em camadas góticas de agonia desde Pompeia.

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Ridley Scott puxa, talvez em demasia, pela questão filosófica da existência humana, impregnando o ego do seu intocável David com as megalomanias poéticas de “Shelley” e “Lord Byron“, que tentam colar-se ao ouvido como notas impositivas fora de tom. Mas apesar de Fassbender, de per si, salvar-nos parcialmente dessa sobreexposição de conteúdo literal, a precipitação incontida em oferecer o monstro aguardado ao virar de cada esquina, redunda num subdesenvolvimento das restantes individualidades do elenco, engasgando o clímax da revelação final. Também aqui, Scott, rebobina aquela estrutura hereditária da sucessão de eventos já experimentada em setenta e nove, numa clara tentativa de povoar a sua obra de nostalgia.

“Ridley começa a rasgar a contenção atmosférica com uma cadência sôfrega em mutilar sem demora o primeiro corpo, esguichando para a tela um grau de violência quase intolerável.”

E mais do que envolver-nos numa carnificina da velha guarda, que não se esgote na gratuitidade de matar sem a presunção de Heráclito de Éfeso de que “se a felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer…”; talvez “Covenant” até consiga escapar por um triz a essa premissa massificada; e talvez Daniels pudesse ser mais Ripley do que foi. Infelizmente, a atriz de “Monstros Fantásticos” é praticamente ofuscada pelos compromissos unidimensionais da trama, revelando uma amostra do pedigree de Weaver como uma “outsider” que não deveria ser, não obstante uma performance competente no sprint final. Tennessee merece igualmente uma vénia sulista, reforçando o espírito de grupo e o músculo que Scott dizimou logo no arranque desta jornada visceral. Mas não nos interpretem de forma errada, “Covenant” congrega em Fassbender, Waterston e McBride um novo folgo para o futuro do “franchise”, mas tenta ser demasiado depressa o que leva tempo a maturar.

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Alien: Covenant é um regresso fiável e palpitante ao universo da criatura mais temível da estória do cinema, não tenhamos a menor dúvida disso, mas fica um certo amargo de boca por gorar ligeiramente as expetativas pelo potencial que tem e não concretiza na plenitude. De um ponto de vista técnico, o trabalho de Ridley é irrepreensível, mas peca por se centrar em demasia num terror desenfreado sem travão, atirando todas as fichas a uma “plot” vítima das suas óbvias contradições e ingenuidades. Bem sabemos que não existe o filme perfeito, por isso, já sabemos que, ao compararmos seja o que for com a utópica noção de “perfeição”, o resultado será sempre uma “nódoa”, neste caso, uma “nódoa” altamente visionável.

Alien: Covenant - Análise

Movie title: Alien: Covenant

Movie description: Ridley Scott regressa para o universo que criou, com Alien: Covenant, um novo capítulo do seu inovador franchise, Alien. A tripulação da nave Covenant, com destino a um planeta remoto do outro lado da galáxia, descobre o que acredita ser um paraíso desconhecido, mas é na realidade um estranho e perigoso mundo. Quando descobrem uma ameaça além da sua imaginação, eles tentam uma angustiante fuga.

Date published: 18 de May de 2017

Director(s): Ridley Scott

Actor(s): Michael Fassbender, Billy Crudup, Katherine Waterson, Danny McBride

Genre: Terror, Sci-fi, Thriller

  • Miguel Simão - 80
  • Rui Ribeiro - 90
  • Daniel Rodrigues - 70
  • Catarina d'Oliveira - 75
  • Maria João Bilro - 70
  • Ângela Costa - 50
  • José Vieira Mendes - 80
  • Ana Rodrigues - 70
  • Cláudio Alves - 60
72

CONCLUSÂO

Alien: Covenant recicla o terror mais puro e palpável do filme original, num festival alienígena macabro e perverso, que se desconcentra algures com a sua mensagem subversiva e obsessão em aterrorizar.

O MELHOR – Visualmente belo com elevada nota artística; Fassbender numa interpretação dual de se lhe tirar o chapéu; ritmo alucinante em ambiente tenso e provocador.

O PIOR – Sobrelotação de pretextos para violência gratuita; fraquezas do argumento desequilibram a coesão e consistência do mesmo.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

2 Comments

  1. António Costeira 23 de Maio de 2017
  2. Luísa Ribeiro 31 de Maio de 2017

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