Trail of Dead à MHD | “A frustração é um bom combustível para qualquer fogo”

Falámos com os And You Will Know Us By the Trail of Dead sobre a longa carreira, o amor ao rock e à banda e o futuro da estupidez. Que são eles, segundo nos disseram.

Falar com os …And You Will Know Us By the Trail of Dead pode ser arriscado. Como não se levam a si próprios demasiado a sério, não levam de todo a sério as entrevistas nem, por arrasto, os jornalistas que lhas fazem. É fácil ser vítima do sentido de humor da rapaziada e da sua satírica impaciência com o necessário, mas cansativo invólucro promocional da música. No entanto, se é verdade que não resistiram a uma piada final – “estupidez futurista?” -, não me senti o alvo dela, no contexto de uma conversa em que aquela atitude de sarcástico desprendimento da geração X convivia com uma gentileza de fundo.

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Delicadeza que nasce, suponho, do mesmo lugar de onde emerge a estima pela música e o desejo de a fazer com os amigos de longa data que são os restantes membros da banda, cujo formato se mantém o mesmo desde 2011. Através das vicissitudes da vida, a bordo da montanha russa que é a volubilidade dos críticos e do público comum, à mercê do vaivém da simpatia pelo rock, os Trail of Dead persistem por força da dupla criativa de Conrad Keely e Jason Reece, amigos de liceu, fundadores da banda em 1994 e únicos membros permanentes desde então. Estes não só partilham entre si equitativamente o dever de composição como também trocam amiúde, nas gravações de estúdio e nos concertos ao vivo, os papéis de voz, guitarra e bateria. O baixista Autry Fulbright II juntou-se aos Trail of Dead em 2010 e, no ano seguinte, entrou o baterista e guitarrista Jamie Miller. Falámos com os quatro, durante a sua vinda ao Vodafone Paredes de Coura para tocar na íntegra o clássico Source, Tags & Codes (2002), celebrando (um ano depois, num gesto de irreverência punk) o seu 15º aniversário.

TRAIL OF DEAD | VÍDEO DA ENTREVISTA

MHD – Antes de mais, podiam-nos falar um pouco sobre a razão de ser desta digressão dos Trail of Dead e o que estão vocês a celebrar?

Conrad Keely – A vida! Estamos a celebrar a vida, a celebrar os nossos 40!

Jason Reece – Não tocámos muitos concertos durante um ano, depois começámos a trabalhar num álbum, entretanto deu-se esta digressão e ficámos muito entusiasmados por as pessoas querem que viéssemos cá tocar o Source, Tags & Codes.

Autry Fullbright – Não vínhamos à Europa há três anos, o que para nós é muito tempo. Normalmente temos um ciclo de criar e lançar um álbum em cada 18 meses. Temos estado a trabalhar no nosso primeiro álbum em quatro, quase cinco anos e fizemos uma pausa para sair e tocar um ou dois álbuns anteriores.

MHD – De facto, vieram cá para celebrar o Source, Tags & Codes (2002). Mas podemos acabar a ouvir o Madonna (1999)?

JR – Ai é, foi isso que ouviste?

AF – É o que se diz por aí?

CK – Podíamos!

AF – Adoraríamos fazer isso, mas é suposto tocarmos o Source, Tags & Codes.

CK – Está no nosso contrato…

JR – Podiam-nos despedir do festival, se fizéssemos isso.

MHD – Interessa-me o facto de os Trail of Dead estarem juntos há tanto tempo. Por exemplo, tu e o Conrad estão juntos há quase trinta anos.

JR – Começámos oficialmente em 1995, com o nosso primeiro espectáculo.

MHD – O que é ter esta relação de trabalho e amizade há tanto tempo?

CK – É melhor não a questionar! Deixar-se ir na onda! Bom, eu conheço certas bandas em que não são amigos, têm apenas uma relação profissional, e isso parece-me estranho, porque sem uma amizade, qual é o ponto de fazer música juntos, apreciar o tempo juntos na estrada?

JR – Entre ele e eu, conhecemo-nos desde o tempo do liceu e há por isso esta coisa de irmãos…

CK – Nunca lutamos nem nada.

JR – Nunca lutamos… a não ser luta greco-romana.

AF – Acho que é uma camaradagem que ajuda a fazer parte de uma banda. Na entrevista anterior perguntaram-nos quando soubemos que queríamos tocar música e penso que é porque temos de o fazer. Para nós, não é tanto que queiramos mas mais que temos de o fazer. Temos de estar juntos numa banda, temos de ser bem educados uns com os outros, temos de nos estimar uns aos outros e criar juntos. É o que é suposto fazermos, faz parte da nossa vida. Tanto como tudo o resto que tenho de fazer na minha vida. Tenho de fazer música nesta banda. Não é opcional. Mesmo que não quisesse – o que quero -, teria de o fazer. E essa é a melhor coisa, é positivo quando sabes que fazer música com estes tipos é intrínseco à essência do teu próprio ser.

TRAIL OF DEAD | “ANOTHER MORNING STONER”

MHD – Como evoluiu a vossa relação com a música? Quais as diferenças entre o início, quando os Trail of Dead começaram, e agora?

CK – Nunca se pára de aprender, sente-se sempre um aluno. Estou todo o momento a aprender sobre coisas acerca das quais sempre quis saber: tecnologia, gravação. Há muitas coisas que dava por adquiridas quando era mais novo, quando começámos a gravar, pensando sempre que “o produtor perceberá como fazer, o engenheiro fará isso”. Mas cheguei ao ponto em que quero saber como funciona, o que fazem os compressores, qual o nome de todos estes microfones. E isso nunca termina. Sempre idolatrei o Andrés Segovia, o grande guitarrista clássico, porque ele parecia estar sempre a progredir e a melhorar a toda a hora, enquanto crescia e até chegar aos 80.

MHD – E em termos das coisas que procuram exprimir através da vossa música, foi mudando ao longo dos anos ou tem-se mantido constante?

CK – Bom, julgo que a frustração é sempre um bom combustível para qualquer fogo. Mas essa frustração pode mudar, dependendo do que as circunstâncias da tua vida são e podem ser. Estava a ouvir alguns dos nossos álbuns anteriores e surpreendeu-me que o penúltimo fosse na realidade um dos mais irados que alguma vez fizemos. Era o nosso oitavo álbum!

AF – Não é que estivéssemos realmente furiosos na altura mas estávamos a falar acerca de uma grande agitação social, revolta política, que soa ainda mais verdadeiro agora do que nessa época. Mal sabíamos nós que era uma premonição de tempos ainda mais tumultuosos no mundo. Os nossos discos são determinados pelo quer que esteja no topo da nossa mente, seja pessoal ou político.

MHD – Conrad, as letras do último álbum eram mais pessoais. Como concilias um conteúdo lírico mais confessional com o som mais político, hardcore dos Trail of Dead?

CK – Foi sempre mais ou menos assim que escrevemos, é uma coisa natural. Não há nenhum método, na verdade. Gosto de escrever sobre paisagens e lugares por onde viajo muito. Tento trazer isso para que, quando as pessoas ouçam e leiam as letras, sejam transportadas para um outro lugar.

JR – Liricamente, estamos a tentar relacionar-nos com alguma coisa na nossa vida e a pô-lo cá fora de uma maneira poética. É difícil dizer que o estejamos a fazer conscientemente, é apenas o que somos, as nossas personalidades, a maneira como escrevemos.

CK – Julgo que este novo disco também vai ser muito pessoal. Acho que uma das maneiras de manter as letras pessoais é continuar a passar por péssimos rompimentos [ri-se].

TRAIL OF DEAD | “RELATIVE WAYS”

MHD – Há quanto tempo estão a trabalhar no novo álbum dos Trail of Dead?

AF – Há já quase um ano.

JR – Esta digressão é uma grande distracção!

AF – Ajuda parar quando se está a gravar, sair e tocar, porque se pode então ver o que realmente funciona ao vivo, a que é que as pessoas estão receptivas, quais as canções que se expandem e ganham vida em concerto, quais as que ressoam com a audiência e entre nós, pessoalmente, na banda.

Jamie Miller – A audiência é, num certo sentido, co-autora da música.

MHD – A música chega a destruir alguma coisa, ao interferir, por exemplo, com a vida pessoal?

CK – Eu nunca culparia a música por isso. Penso que a música, quanto muito, tem o efeito contrário. Atrai as pessoas para ti, dá-te qualquer coisa que amplifica isso. E também serve de canal de saída para todas as coisas que são negativas. Pode-se contar com a música para estar ali e ser o teu consolo e a expressão de ti, uma forma de escape do negativo.

JR – A música não está a estragar a minha vida. Eu estrago a minha vida [ri-se]! Acho que tudo o que rodeia a música, tudo aquilo que se atravessa no caminho da pureza de criar, isso sim pode estragar a coisa.

MHD – De que maneira é que os altos e baixos da longa carreira dos Trail of Dead contribuíram para o que vocês e a vossa música são?

CK – Nós somos o que somos e a música é um reflexo disso. É suposto a nossa música reflectir aquilo por que estamos a passar, as nossas experiências. Acontece naturalmente, nunca pensamos demasiado nisso. Nunca tentámos também fazer parte de nenhum género ou de mais um movimento, nada que pudesse rotular o que fazemos como banda ou o tipo de música que compomos. E isso permite continuar a evoluir, como nós evoluímos.

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MHD – O rock está a passar por tempos difíceis, com o pop/r&b a dominar o ambiente, um pouco como na altura em que vocês começaram. O que tem o rock de especial, que o faça valer a pena?

CK – Pessoas a tocar à séria os seus instrumentos!? Estou a gozar. Em todas as formas de música há pessoas a tocar os seus instrumentos. Não duvido que o Justin Timberlake seja um guitarrista fantástico e um pianista. Mas não sei, o rock está assumidamente a passar por tempos difíceis, já existe há muito tempo e tornou-se, de várias maneiras uma caricatura de si próprio. No caso do rock, o mais importante é que se sinta que continua a evoluir. O que mais temo é que se codifique que o rock tenha de soar como soava na década de 70 ou 60, ou até mesmo 80 e 90. Se isso acontecer então o rock morrerá. Mas se conseguirmos criar rock e dizer “hey, como irá o rock soar na década de 2020?”, então pode continuar a ser comovente.

JM – Eu penso o contrário. Sou um primitivista. Quero permanecer muito primário e estúpido.

CK – Podia ser estupidez futurista?

AF – Com a dinâmica que temos entre nós, há sempre, em última instância, um puxa de um lado e puxa do outro, alguma coisa que olha para diante, mas também uma homenagem ao passado, coisas que se fazem para alargar os nossos limites, mas também para se manter dentro dos parâmetros que realmente funcionam. Penso que essa tensão resulta.

CK – Se alguém é o futuro da estupidez, somos nós.

AR – Sim, nós somos Trail of Dead, o futuro do estúpido.

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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