Frankie Cosmos à MHD | “É como escrever no meu diário”

Frankie Cosmos falou-nos do intimismo descontraído da sua música, de se divertir mentalmente e ter a sorte de ser filha de celebridades pouco amigas do vedetismo.

Não é todos os dias que se encontra uma celebridade, filha de celebridades. Acima de tudo e bem mais interessante, não é todos os dias que se encontra uma pessoa simples, ainda por cima celebridade e filha de celebridades. Tímida, quase nervosa, mas sempre cheia de simpatia, Greta Kline, conhecida pelo seu nome artístico Frankie Cosmos, falou connosco em agosto, no Vodafone Paredes de Coura, sem nunca jogar à defesa, mas claramente habituada à discrição e modéstia que tanta falta fazem hoje.

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A impressão geral que me deixou é que ser famosa não a atrai, ser mulher não é assunto, tudo é acerca de um ser humano cuja felicidade passa por se compreender a si próprio, no interior de uma arte por meio da qual se exprime e de uma história, de uma trama de relações que se estende desde o núcleo familiar – cão incluído – até aos amigos, ao trabalho e àquelas estimas que deixam, por vezes, dor e cicatrizes. Bem vindos ao pequeno mundo de Frankie Cosmos.

FRANKIE COSMOS | VÍDEO DA ENTREVISTA

MHD – Aprecio bastante a linha de baixa fidelidade da tua música, especialmente porque está ligada a um universo muito pessoal. Que significa isso para ti? Porque sentes a necessidade de fazer a tua música assim?

Frankie Cosmos – É só a maneira como faço, não sei. Para mim, escrever canções é uma coisa mesmo pessoal, gosto de ter uma relação íntima com as gravações, especialmente as demos. Faço-as totalmente por minha conta. Gosto de ter controlo sobre isso, o que implica não soar às vezes com uma fidelidade tão elevada.

MHD – A tua música tem muitas personagens, que retiras da tua vida. O que é pegar nas pessoas que conheces e escrever sobre elas?

Frankie Cosmos – Sinto-o como normal, faz-me sentido. É como escrever no meu diário. Talvez a audiência não conheça o nome do amigo que estou a mencionar, mas para mim, quando canto, ao dizê-lo, penso nele. É como uma pequena piada privada comigo mesma.

MHD – E as observações? Reparas em alguma coisa e isso torna-se uma canção ou uma letra? Como?

Frankie Cosmos – Precisamente assim, noto numa coisa e aponto-a. Penso nela, penso demasiado nela, talvez.

MHD – E as pessoas que descreves, como se sentem ao ouvir-te cantar sobre elas?

Frankie Cosmos – Não sei, nunca me lembrei de lhes perguntar [ri-se]. Acho que provavelmente não há problema. Em última instância não estou a falar sobre as pessoas, é mais sobre as minhas experiências e reacções. Conviver com certos amigos ou relacionamentos. Não é que esteja necessariamente a dizer qualquer coisa sobre aquela pessoa em concreto, é mais o eles fazerem parte do meu conto.

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MHD – E como te ajuda isso a fazer sentido da tua vida?

Frankie Cosmos – Gosto muito de pensar sobre tudo o que estou a sentir e organizá-lo deste modo. Escrever canções é apenas um lugar onde me sinto confortável a fazê-lo. É como um mapa, onde posso perceber cada coisa.

MHD – E quando regressas a essas canções, cresce no tempo, distancias-te do que viveste…?

Frankie Cosmos – Acho que, para mim, muitas delas crescem com o tempo. Às vezes toco em palco a mesma canção vezes sem conta, durante um ano e, depois desse tempo todo, significa uma coisa completamente diferente. Ou me relaciono com ela de maneira diversa, ou, por exemplo, um sentimento que estava na canção e do qual nem me dera conta vai-se-me revelando quanto mais vezes a tocar e pensar nela de modos distintos.

MHD – Por exemplo, como mudou a relação com o Jojo [o cão de Frankie] ao longo do tempo?

Frankie Cosmos – De várias formas, suponho. Essa é interessante. Escrevi várias canções com o nome dele, em particular por volta da altura em que morreu. Era a minha maneira de comunicar com ele e de o manter como parte da minha experiência diária. Falava com ele quase como se ainda estivesse ali. Por isso, agora, sinto que tenho uma preservação desse momento da minha vida. Sinto-me diferente relativamente a isso, porque sou mais velha e passou mais tempo, mas ouvir essas canções ainda me leva a esse período da minha vida, à dor.

MHD – Foi a primeira experiência que tiveste com a morte de um ente querido. O que retiraste disso para a tua vida?

Frankie Cosmos – Foi a primeira vez que vi a morte pessoalmente, o que foi bastante perturbador e não há dúvida de que me ficou. Se tivéssemos feito esta entrevista há cinco anos atrás, estaria a chorar, por isso sinto que mudei muito por poder ter memórias felizes da sua existência e não estar ainda em sofrimento, mas compreendendo que a vida é assim.

MHD – O que distingue Vessel dos outros álbuns? Que coisa nova trouxe ao de cima, ou o que de novo aprendeste com ele?

Frankie Cosmos – Acho que a maior diferença, em termos sonoros, é dois dos membros da banda, o baterista e o teclista, serem diferentes e trazerem, por isso, os seus estilos próprios, o que muda muito o som. Mas também o estas canções terem sido escritas num momento muito tumultuoso da minha vida. Estava a colocar todas estas perguntas sobre o meu relacionamento e a passar por esta rotura. Várias das canções são, por isso, muito tensas, há muita dualidade – amor e ódio, para trás e para frente. Isto torna mais fácil estar sempre a tocá-las, porque têm tantos significados mais profundos acerca dos quais ainda estou a aprender. Toda a música que faço está muito ligada a um certo período temporal, mas também sinto que ainda posso aprender coisas novas sobre isso.

MHD – O que é ter a vida retratada ao longo de cada um dos teus álbuns?

Frankie Cosmos – É fixe, gosto disso! Sempre gostei de ter um arquivo de informação. Mantenho diários e tenho-os organizados por datas. Tenho uma péssima memória, por isso gosto mesmo de ter lembretes das coisas, por isso para mim é útil.

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MHD – Uma das coisas que mais aprecio é seres filha de celebridades e tu e a tua música serem tão discretas, nunca tendo tu tentado aproveitar a fama cinematográfica dos teus pais para te lançares.

Frankie Cosmos – Acho que são formas de arte bastante distintas. Mas sinto também que os meus pais, para pessoas famosas, são muito discretos, não são do género de tapete vermelho. Há outros miúdos que têm pais famosos e estão a crescer sob as luzes da ribalta e penso que isso pode ser bastante lixado para o miúdo, mas essa não foi a minha experiência e penso que a educação dos meus pais reflecte-se neste meu não querer ser famosa. Julgo que tenho uma relação bastante saudável com isso só porque eles são bons pais… não que os outros pais não o sejam, bom, percebe-se o que quero dizer [risos]. Não foi uma torturante infância passada na ribalta que julgo que alguns miúdos têm de enfrentar. Para mim, quando comecei a andar em digressão foi  uma grande ajuda tê-los ali, porque a minha mãe, quando tinha 16 anos estava já a viajar por sua conta, como modelo e actriz. Que ela compreendesse o quão assustador isso é e me pudesse aconselhar foi tão bom, e tantas pessoas não têm isso, que me sinto muito grata.

MHD – E o que é ter tanta gente, sobre a qual não sabes nada, saber tanto sobre ti?

Frankie Cosmos – É esquisito! O mais assustador, contudo, é saber que é só até um certo ponto que me podem conhecer, a partir da minha música. E depois sinto que há todo este turbilhão interior de “eles não sabem realmente quem eu sou! não podem saber!” Por isso é mais uma questão de “pode uma pessoa conhecer realmente outra pessoa?” Não é assim tão mau.

MHD – O que é estar aqui em Portugal, em Paredes de Coura?

Frankie Cosmos – É óptimo, adoro! É muito agradável. Estivemos no Porto estes dois últimos dias e foi muito bom. Ainda não vi realmente Paredes de Coura, mas parece óptimo. Estou entusiasmada com a possibilidade de dar uma volta pelo festival e é toda a gente muito simpática.

MHD – Planos para um próximo álbum? O que está a acontecer na tua vida que julgas poder dar um álbum?

Frankie Cosmos – Tenho uma data de canções escritas e por isso já temos um plano praticamente delineado para o novo álbum. Não sei se há um tema uniforme. Uma ou outra são ainda ruminações de ano pós-rotura e há coisas sobre estar em digressão ou novos relacionamentos. Coisas como isso. Crescer, aprender, o costume.

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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