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Antevisão | A Voz Humana: A Mulher de Fogo

Antes de adaptar ‘A Voz Humana’, com Tilda Swinton, Pedro Almodóvar inspirou-se na obra de Jean Cocteau para dois dos filmes-chave na sua carreira e na sua tumultuosa relação com a sua ex-actriz-fetiche Carmen Maura. Estreia a 17 de dezembro.

Em ‘A Voz Humana’ começa logo por ser absolutamente surpreendente a colaboração entre Tilda Swinton e Pedro Almodóvar, no seu primeiro filme falado em inglês, que apesar de inusitado não apresenta qualquer estranheza. Trata-se de uma curta-metragem, um formato que o realizador cada vez mais tem vontade de experimentar porque acha mesmo, que as boas histórias não devem ter um tempo de duração exacto. O cineasta com a inigualável Tilda Swinton, retomaram um texto que exploram o prazer de ambos na relação entre cinema e teatro. Este filme estreado no último Festival de Veneza é sem dúvida um filme crucial na obra do realizador,— e da actriz também já que há a promessa de uma nova colaboração em novos projectos juntos — até porque ajuda a explicar muitas coisas na carreira do Pedro, e tanto mais como o seu último e brilhante filme ‘Dor e Glória’. Actrizes como Anna Magnani, Simone Signoret e Ingrid Bergman, já tinham interpretado esta obra tanto no teatro como no cinema. Mas na verdade tendo em conta a significação da obra de Almodóvar há de facto muitas conexões com o universo e sobretudo com este drama de Jean Cocteau.

Pedro Almodóvar
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Vagamente e assumidamente inspirado no monólogo homónimo escrito por Jean Cocteau em 1928, ‘A Voz Humana’ de Almodóvar, nasce da natureza trágica e excêntrica que caracteriza a obra e as suas protagonistas-mulheres. Além de retomar os seus excessos, os tons contrastantes representados pela grande mancha vermelha pintada numa imagem cuidadosamente enquadrada; e ainda num cenário de estúdio semelhante às casas e apartamentos ‘almodovarianos’. A premissa de ‘A Voz Humana’, de Pedro Almodóvar é tão simples de contar como difícil de encenar, mesmo agarrando o espectador, até um final diferente do original e inesperado: Tilda Swinton vive a protagonista do drama que retrata a história de uma mulher frustrada e solitária que vê o tempo a passar ao lado das malas do seu amante e de um cão inquieto que não entende que o seu dono o abandonou. Os dois seres enfrentam agora o vazio e a sensação de abandono. A esbelta mulher fala pelos seus auriculares ao telemóvel com um amante (que nunca vimos) e que a abandonou para ficar com outra.

VÊ TRAILER DE ‘A VOZ HUMANA’

A ligação desta obra de Cocteau, com Almodóvar acentua-se, para o bem e para o mal, na figura da actriz Carmen Maura, com quem partilhou artisticamente uma parte do seu percurso como cineasta. Por volta de 1987, vimos Tina — a actriz-transexual interpretada por Maura, em a ‘Lei do Desejo’ — protagonizando a obra numa encenação dirigida pela personagem de Pablo Quintero (Eusebio Poncela), uma espécie de alter-ego de Almodóvar. Um ano depois o cineasta recorreu de novo a Cocteau, desta vez na comédia ‘Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos’, filme que foi um sucesso de público e lhe deu a primeira nomeação para um Óscar. ‘Mulheres….’ também foi o filme em que se deu o conhecido rompimento entre Maura e Almodóvar. Embora o cineastas tivesse tentado fazer as pazes com a sua antiga companheira nos Goya 1990, — ofereceu-lhe um bocado do Muro de Berlim — a relação entre ambos não voltou a ser a mesma.

Pedro Almodóvar
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Dezoito anos mais tarde em nova tentativa de esquecer o passado, realizador e actriz encontraram-se em ‘Volver’(2006), mas isso não foi suficiente para reatarem uma boa relação: ‘Quando foi a promoção de ‘Volver’, não me senti muito feliz, porque não me deixaram’, sentenciou ela na altura. Daí para cá o mais conhecido cineasta espanhol da actualidade e a protagonista de alguns dos seus melhores filmes mantêm-se tão distanciados como a aparentemente desesperada protagonista de ‘A Voz Humana’, do seu amante. Falta saber agora qual deles vai tomar a iniciativa de pegar nos auriculares e qual é que fica em silêncio fora da cena. Esta curta-metragem, em língua inglesa, e filmada em plena pandemia, tem cerca de 30 minutos e ainda mais 36 minutos de uma excelente entrevista on-line Pedro Almodóvar e Tilda Swinton, como mandam as regras do distanciamento físico. Absolutamente notável! Estreia a 17 de Dezembro.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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