‘Os Grandes Criadores’: Os Hilariantes 25 Anos da Cª de Teatro do Chapitô

‘Os Grandes Criadores’, é um documentário da autoria de Ramón de los Santos e Elisa Bogalheiro sobre a mais hilariante e talvez das companhias de teatro português, mais premiadas internacionalmente, pelos seus 25 anos de actividade. Um merecido tributo a uma espécie de Monthy Python à portuguesa. Vão vê-los…..estreia a 23 de Junho.

No cinema português contam-se pelos dedos, as obras cinematográficas que se arriscam a fazer uma abordagem concreta, das outras artes do espectáculo ou melhor das artes de palco, sejam o teatro, a dança ou a ópera. Agora duma vez são logo duas: ‘Um Corpo que Dança-Ballet Gulbenkian 1965-2005’, de Marco Martins, sobre o historial da saudosa companhia de dança e este documentário ‘Os Grandes Criadores’, realizado por Ramón de los Santos e Elisa Bogalheiro, sobre a ‘fora-da-caixa’ Companhia de Teatro do Chapitô, num filme produzido pela The Stone and The Plot, de Daniel Pereira, uma produtora que continua a arriscar nos novos e no menos conhecido, como foi o caso da estreia de O Movimento das Coisas, de Manuela Serra.

VÊ EXCERTO DA PEÇA ‘O GRANDE CRIADOR’

Este documentário ‘Os Grandes Criadores’ é também uma revelação sobretudo para o grande público, porque é um importante olhar sobre a Companhia de Teatro do Chapitô, sobre a sua história e os seus espectáculos — alguns grandes sucessos de público e menos da crítica nacional — de um grupo teatral um pouco ‘outsider’ no panorama teatral português, que em 2021, comemorou 25 anos de existência. Se muito se fala de défice de comédia na cultura portuguesa contemporânea — sendo a comédia, aliás como o escárnio e ‘mal-dizer’, um dos fundamentos da nossa cultura — em particular no cinema e no teatro, é de facto importante valorizar para esta companhia de teatro (e este documentário), quem mantêm inalterável este registo e que se tornou mais conhecida lá fora do que cá dentro. Cá dentro talvez porque os media de referência têm algumas reservas em relação aos registos da comédia, na verdade nem sempre muito exemplares ao nível da alta-cultura; ou então porque efectivamente existe um pré-conceito do público em geral (e dos media também!), em relação a esta companhia de teatro, que tem a sua sede na famosa Escola de Circo lisboeta, localizada perto do Castelo de São Jorge e dirigida há muito por Teresa (Tété) Ricou, mais conhecida por, a Mulher-Palhaço, mesmo que seja agora politicamente incorrecto dizê-lo.

‘Hamlet’ é um dos sucessos, baseado em Shakespeare e ‘Vida Moderna’ de Jacques Tati. ©Chapitô

Uma das questões resolvidas e explicadas imediatamente, neste documentário é precisamente a questão da total autonomia institucional e estética que este grupo teatral, tem em relação à Escola do Chapitô e ao circo. A Companhia do Chapitô nasceu em 1996, pela mão João Sena, — entretanto falecido — José Carlos Garcia e o músico e actor Rui Rebelo — que estão presentes no documentário, embora o primeiro através de imagens de arquivo da companhia. O grupo, desenvolveu desde o seu início — com um conjunto de actores formados na Escola de Teatro do Chapitô, entre eles e das mais conhecidas Sofia Portugal, que também dá o seu testemunho uma linguagem artística muito própria e diferenciada das restantes, assente não só no trabalho colectivo, mas também nos elementos vocais, instrumentais, gestuais, rítmicos e plásticos, colocando-os, ao mesmo nível da linguagem verbal ou do texto teatral ou dramatúrgico. E assim se têm mantido ao longo de 26 anos (agora) e mesmo o circo e as suas técnicas, a sua referência maternal, nunca esteve de todo afastada, dos seus espectáculos, feitos quase sempre à custa de escassos meios, muita improvisação e muito trabalho corporal dos actores. Porém esta companhia — curiosamente, um dos grupos de teatro português, mais premiados internacionalmente — tem trabalhado e desenvolvido um registo de comédia inteligente e reflexiva, nos espectáculos que compõe a maioria do seu largo repertório.

Os Grandes Criadores
Todo o elenco actual e outros que por lá passaram, participam neste documentário-tributo à Companhia. ©Chapitô

E neste sentido estão alguns dos seus trabalhos mais emblemáticos e hilariantes, como ‘O Grande Criador’ (2008), — que remete para o titulo deste documentário — uma criação colectiva, com encenação do director inglês John Mowat, com Jorge Cruz, José Carlos Garcia e o músico/actor Rui Rebelo, baseado em vários episódios da Bíblia. Trata-se de uma comédia visual que retrata um Deus humanizado e confrontado com os inúmeros problemas relativos à criação do mundo, do Homem e da sua evolução, que faz lembrar muito — aliás a propósito da vinda recente a Portugal de John Cleese‘A Vida de Brian’(1979), dos Monty Python; em 2020, igualmente com a peça ‘Napoleão ou o Complexo de Épico’, um fabuloso espectáculo, sobre as questões de poder, as mudanças políticas e sociais, centradas na carismática e controversa figura histórica, questões que são tão pertinentes hoje como há dois séculos atrás. E estou a lembrar-me agora a este propósito de Putin. Esta peça foi encenada por Cláudia Nóvoa e José Carlos Garcia, com dramaturgia de Ramón de Los Santos, interpretada por Jorge Cruz, Susana Nunes e Tiago Viegas, que integram a maioria do actual elenco da companhia, que aparece obviamente neste documentário.

Os Grandes Criadores
©The Stone and The Plot

‘Napoleão ou o Complexo de Épico’ foi um enorme sucesso de público de 2021, mesmo que interrompida várias vezes por causa da pandemia. O documentário ‘Os Grandes Criadores’, é feito com base em várias imagens do arquivo da companhia — não são muito bons os excertos em relação ao resto e é pena — e excelentes registos de testemunhos e entrevistas com programadores de salas e festivais internacionais, actores, encenadores (como o referido John Mowat) que passaram pela companhia, ao longo desta mais de duas décadas de actividade, além da participação do actual elenco e técnicos.

Os Grandes Criadores
‘Electra’, outra peça clássica recriada com humor e ironia, pelo colectivo de actores e criadores teatrais. ©Chapitô

Trata-se ainda, de uma longa viagem (1h24’) — também pelas desgastastes itinerâncias nacionais e internacionais, com algumas situações reais também bastante hilariantes — pelo incrível repertório da companhia onde se incluem algumas singulares e divertidas adaptações de clássicos, mesmo que assentes num notável humor negro, como: ‘Electra’, ’Édipo’, ‘A Tempestade’ ou ‘Hamlet’, a sua última representação, que terminou há pouco mais de um mês, uma reposição do espectáculo que o coletivo estreou há dois anos, inspirado em Shakespeare  claro, e na comédia francesa ‘Playtime’ (‘Vida Moderna’), realizada por Jacques Tati, em 1967. Na verdade, este documentário ‘Os Grandes Criadores’ não se trata de uma homenagem, mas antes um tributo, uma forma de fazer justiça e dar a notoriedade merecida à Companhia de Teatro do Chapitô. Desde a sua fundação em 1996, produziu cerca de 35 criações originais, apresentadas tanto em Portugal, como em salas e festivais da Europa, América do Sul, Médio e Extremo Oriente e, algumas delas foram até premiadas internacionalmente. Para quem gosta de humor…. e dos Monty Python, diria sem exagerar que estamos perante um registo semelhante. Por favor vão comprová-lo, primeiro neste documentário e depois no próximo espectáculo da companhia e verão como tenho razão! O documentário ‘Os Grandes Criadores’, vale sobretudo, para valorizar o trabalho e o percurso da Companhia de Teatro do Chapitô. Estreia a 23 de Junho, em algumas salas de Lisboa, Leiria, Setúbal, Porto, entre outras cidades a confirmar. Não percam!

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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