Estreou na passada quinta-feira, 5 de novembro, nas salas de cinema portuguesas o novo drama de Léonor Serraille “Ari” (2025), com distribuição nacional da No Comboio, depois de ter sido igualmente exibido no IndieLisboa de 2025, na secção Rizoma.
A longa-metragem centra-se na história de um jovem professor que sofre um colapso nervoso durante uma aula. Isso vai servir de pretexto para encontrar novos significados na sua vida, a partir de amizades e acontecimentos anteriores.
Ari – Uma coleção de cenas que reflete sobre a simplicidade da vida
“Ari” é a história de um jovem professor de 27 anos (interpretado por Andranic Manet) que sofre um colapso nervoso enquanto está a servir de professor estagiário numa aula do 1.º ciclo.
A partir deste acontecimento difícil de saúde, acompanhamos o seu percurso de redescoberta com alguns dos seus amigos com quem reata contacto. Além disso, acompanhamos pequenos momentos que levaram até àquele momento de fragilidade.
Encontrar uma nova esperança após um acontecimento de choque

“Ari” é um filme que se encontra frequentemente numa sensação de sufoco, especialmente na sequência em que o protagonista sofre o seu colapso nervoso. Uma sucessão de grandes planos onde se sente o desconforto do jovem professor transmite ao espectador um suspense de algo prestes a acontecer. Até que Ari desmaia em frente às crianças… A dificuldade de análise de um poema onde Ari se centra em conceitos tremendamente avançados para crianças de 6-7 anos como a noção científica de “hipocampo” demonstra a dificuldade de pertença do professor naquele momento.
A verdade é que, a partir do acontecimento doloroso, Ari balança entre o desconforto e a aceitação, entre a incerteza e a felicidade, entre a emoção e a sensação.
Não sendo um filme cuja narrativa esteja tremendamente perfeita, é um filme que se aproxima da própria vida real, a partir de pequenos momentos que, não sendo decisivos, vão demonstrando alguns pontos de viragem do nosso protagonista. Desde a difícil relação com o seu pai (Pascal Rénéric), a insensatez do seu amigo Jonas (Théo Delezenne), passando por momentos ‘suaves’ de arte, a reunião com a sua ex-namorada Irene (Clémence Coullon) ou a nova e próxima amizade com o jardineiro (Mikael Don Giancarli), tudo vai demonstrando, suavemente, os altos e baixos de Ari.
“Ari” é, portanto, um filme de pequenas cenas, de não-momentos, que se cruzam com a tranquilidade do protagonista. Refere Léonor Serraille à imprensa: “Com o Ari, cada pequeno acontecimento abre espaço para uma ligeira mudança, para um espelho, ou para uma transformação mínima; e porque entramos numa bolha, que é a dele, podemos ver a sua febre, as suas feridas, a sua força, tudo o que é profundamente íntimo.”
Os altos e baixos de Ari

“Ari” é um filme que, por si só, tal como o seu protagonista, tem altos e baixos. Começa de uma forma íntima, com a sua mãe (Audrey Bonnet) a explicar a ligação do seu nome ao pintor francês Odilon Redon e continua num crescendo até ao colapso nervoso. Depois, nas cenas com o seu pai e as primeiras cenas com os seus amigos parece faltar alguma coisa… Pouco acontece, é a conversa de circunstância que move o ritmo da narrativa (em última instância, a acalmia forçada do protagonista é também a própria acalmia da narrativa). Até que Ari e Jonas discutem.
É o primeiro ponto de viragem do nosso protagonista. Entretanto, Ari vagueia até se encontrar com outros amigos. E é a partir deles que reata a ligação com a sua ex-namorada Irene. Este reencontro é a derradeira mudança de rumo. Afinal, Irene não abortou e Ari, afinal, tem uma filha. Sem querer, Ari ganha um novo significado na sua vida e recebe até outra compreensão por parte do seu pai…
“Ari” é claramente um filme onde a estrutura narrativa é minimalista. O cinema francês sente-se na longa-metragem de Léonor Serraile. Há qualquer coisa de Jacques Doillon, Éric Rohmer e até dos irmãos Jean-Luc e Pierre Dardenne. O uso da película, o uso relativamente recorrente do grande plano e olhar próximo sobre um protagonista reforça-nos essa sensação.
Um retrato íntimo e próximo sobre a juventude
Um filme que acompanha de perto as incertezas e dificuldades da juventude contemporânea com um olhar próximo e íntimo. Por vezes, exagera no uso de grandes planos que nem sempre fazem sentido nas circunstâncias. Por exemplo, a cena inicial com a mãe, íntima, ou a cena da escola antes do colapso só funcionam bem com os grandes planos. Já algumas cenas com os amigos nem sempre precisavam destes grandes planos. Isto porque não transmitem quaisquer emoções particulares e só dão ao espectador ‘binóculos’, se assim se poder estabelecer o paralelismo.
Por fim, o uso de ‘flash-backs’ ao longo da narrativa estabelece um cruzamento suave entre causas e consequências. E destaco igualmente a cena poética de Ari a nadar num oceanário. Em suma, é a sua libertação, a sua redenção.
Ari
Conclusão
- Não sendo um filme perfeito, “Ari” é um retrato íntimo sobre a juventude contemporânea, a partir do protagonista homónimo.
- Os pequenos momentos da vida, após um problema de saúde repentino, pontuam a narrativa que balança ainda suavemente entre o passado e o presente.
- O filme ganha um novo fôlego a partir do momento em que Ari descobre que é pai, já perto do final da obra.


