Pormenor da Capa de Titanic Rising

As Melhores Canções de 2019

Eleger as melhores canções de 2019, nunca seria difícil. Não faltaram composições inesquecíveis, a dar voz ao que tínhamos, ou não sabíamos ter, dentro de nós.

Se a escolha dos melhores álbuns do ano comporta sempre bastante dissensão, é com a eleição das canções que esta se converte em verdadeira desavença. Para salvaguardar o bom ambiente entre nós, resolvemos apresentar o núcleo duro de acordo, apurando as 10 canções que mais ou menos constaram de todas as listas, aparecendo mais ou menos no topo delas. E dar livre expressão aos pessoalíssimos gostos de cada um, que podem ser conhecidos e ouvidos nas cinco playlists de Spotify que constituem a segunda parte deste artigo.

Ordenadas do primeiro ao quinquagésimo lugar em cada uma das listas, estas canções representam no seu todo o universo de temas que nos cativaram ao longo deste ano e quisemos destacar aqui como merecedoras da atenção do público, logo após a lista de Melhores Canções de 2019 da MHD, resultante do cruzamento das mesmas. Foi, sem dúvida, bem mais pacífico e bem mais largo o número de canções a esculpir, por meio de algum ou alguns de nós, na memória colectiva. Esperamos que este artigo vos dê horas de gloriosa audição. Horas, de certeza. Gloriosas ou não, cabe-vos descobrir.

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10. Hand Habits, “placeholder” (placeholder)

Meg Duffy cresceu como compositora e guitarrista (ocasional e de digressão), junto de nomes sonantes como Weyes Blood, William Tyler ou War on Drugs, mas sobretudo de Kevin Morby. Com Placeholder, o seu segundo álbum, Meg Duffy consolidou a sua banda, os Hand Habits. Gravado no estúdio de Justin Vernon (Bon Iver) no Wisconsin, e produzido por Brad Cook (William Tyler), Placeholder é um álbum intimista, explorando as boas e más relações, envolvidas numa sonoridade melancólica e doce. “Placeholder” é uma das melhores e mais significativas músicas do álbum, com as suas gradações e texturas relaxantes como pano de fundo às várias pistas vocais da sempre bela voz de Meg Duffy. Sobre “Placeholder” sublinhámos, na nossa Playlist de Janeiro, tratar-se de “a história do lugar que cada um é numa relação, o lugar de onde se parte e ao qual se regressa, o lugar a que cada um se agarra, o lugar que cada um ocupa, deixando-o vazio”. (RR)

Melhores Canções de 2019 | “placeholder”

9. Nick Cave & The Bad Seeds, “Bright Horses” (Ghosteen)

“Bright Horses” é talvez a mais melódica das canções de Ghosteen. É praticamente impossível não cantarolar a linha de piano ou os vocalizos de puro pedido e enlevo que alternam com os versos. Num álbum sobre uma matéria tão sombria como é a saudade de um filho desaparecido tragicamente, quase sentimos remorsos por trautear troços da melodia. Mas nesta canção lampejam os fulgores de esperança de quem olha para o acontecido e, em vez da tragédia, vê a mão de um destino misterioso. Nick Cave assume aquele lugar artístico onde fala por todos nós, para todos nós. Recorda-nos (ou, quem sabe, revela-nos) quão fartos estamos da crueldade do positivismo, cansados de reduzir cavalos a cavalos e campos a campos. Na sua dor, descobre as profundezas do ser e lembra-nos que “everyone has a heart and it’s calling for something”. Para lá deste mundo “plain to see”, a aparecer e desaparecer, existe uma miríade de caminhos-de-ferro com um único terminal, onde todos nos encontraremos um dia. (MPA)

Melhores Canções de 2019 | “Bright Horses”

8. Black Midi, “953” (Schlagenheim)

Qualquer uma das canções que constituem Schlagenheim (2019) podia ter sido integrada na nossa lista das Melhores Canções de 2019. Afinal de contas, uma das características que reiteradamente enaltecemos no álbum de estreia dos black midi e no próprio ethos da banda é o seu ecletismo musical e sonoridade multifacetada, mas sempre consistente. Todavia, decidimos optar pela faixa de abertura: “953”. A peça introdutória de Schlagenheim dá-nos a conhecer um Geordie Greep possuído pela alma de Mark E. Smith, a propensão da banda para a dissonância e uma composição assentada na rivalidade entre as guitarras eléctricas de Greep e Matt Kwasniewski-Kelvin e a batida de Morgan Simpson, incontestavelmente pujante nos tempos fortes. A principal progressão de acordes, em 6/4, é acelerada e abrandada ao longo de “953”, evidenciando a vocação do grupo para a desconstrução do seu próprio produto musical. Com “953”, percebemos que os black midi não se contentam unicamente com a nossa audição deste disco: o quarteto de instrumentistas exige que o sintamos na pele. (DAP)

Melhores Canções de 2019 | “953” ao vivo

7. (Sandy) Alex G, “Gretel” (House of Sugar)

Em “Gretel”, o single inaugural de House of Sugar (2019), (Sandy) Alex G converte a sua experiência de vida num conto de fadas, sendo que o título da canção alude à célebre narrativa dos Irmãos Grimm, publicada no século XIX. Recorrendo à sua aptidão inata para a idealização de canções com uma melodia contagiante, simultaneamente audaciosas do ponto de vista experimental e caracterizadas por texturas musicais camaleónicas, o cantautor originário de Filadélfia enaltece a procura pelo bem comum, o poder da redenção e a virtude dos heróis improváveis, ao mesmo tempo que nos alerta para os perigos da gula. A guitarra acústica é destacada na mistura da canção e faz-se acompanhar de uma linha de baixo retumbante e do som metálico do piano. Estas opções criativas, em conjunto com o recurso à técnica do pitch-shift, levam-nos a recuar à sonoridade dos primeiros álbuns de estúdio de (Sandy) Alex G. O universo hipnótico de “Gretel”, que balanceia entre o “bizarro” e o “nostálgico”, conserva a essência peculiar dos tempos do Bandcamp. Todavia, Alex Giannascoli já não é o jovem ingénuo de outrora e a sua música ganha com o savoir-faire que foi adquirindo ao longo dos anos, “expandido-se” para lá das paredes do seu quarto e explorando novas tecnologias e procedimentos. (DAP)

Melhores Canções de 2019 | “Gretel”

6. American Football, “Uncomfortably Numb” (LP3)

Conheceram-se na Universidade de Illinois em 1997 e fundaram os American Football. Após um incompreendido primeiro álbum LP1, para muitos hoje o melhor álbum da banda e um ícone do emo, é com o seu regresso em 2014 (LP2) que alguma justiça se começa a fazer e sobretudo em 2019, com o fantástico LP3 (em 11º lugar na nossa lista de Melhores Álbuns de 2019), que o justo reconhecimento surge. Uma mão cheia de belas canções, de um ecletismo musical invulgar, com um arrojado e algo jazístico leque de instrumentos adicionais, como o vibrafone, sinos, teclados e coros, que adornam inteligentemente a sua base de baixo, bateria e guitarra, e acompanhados por uma conjunto de convidados de eleição (Rachel Goswell, Elizabeth Powell, entre outros), mostrando que o emo está bem vivo, e para durar. “Uncomfortably Numb” é disso uma das melhores provas e o ponto mais alto do riquíssimo LP3. Mais uma vez uma sonoridade limpa, ampla e melódica, refinada, a tela de fundo ideal para o belo dueto entre Mike Kinsella e Hayley Williams (dos Paramore), a convidada desta faixa. Confortavelmente melancólica e bela, “Uncomfortably Numb” é, apesar do seu nome, a faixa feel-good de 2019. (RR)

Melhores Canções de 2019 | “Uncomfortably Numb”

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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