Mosaico de capas dos melhores álbuns de 2019

Os 25 Melhores Álbuns de 2019

Um ano de transição. Nos Melhores Álbuns de 2019 da MHD, culminam alguns artistas da década, por entre a estreia, longe da perfeição mas já poderosa, das bandas do futuro.

O consenso em arte nunca é fácil e menos ainda na música. Aqui o desacordo parece oscilar entre a veemência da convicção política ou futebolística e o desespero do insulto desdenhativo, com uma argumentação inútil pelo meio. E a dissensão não acontece apenas entre pessoas diferentes mas no espaço de uma mesma lista pessoal. Ordenar obras de arte é uma tarefa ingrata e até mesmo injusta, porque pressupõe que estes objectos sejam comensuráveis, quando na realidade são únicos e insubstituíveis, quer uns pelos outros, quer por qualquer explicação sua. Nem por isso deixa de ser um exercício racional e útil, se levado com a dose certa de ironia. Não é verdade que seja tudo igual (essa é precisamente a dificuldade), nem tudo bom e, por isso, merecedor de perpetuação na memória cultural. Uma lista como esta resulta tanto das idiossincrasias quanto dos pontos de contacto das listas pessoais de alguns membros da nossa equipa de música, obliterando muita divergência quanto aos álbuns de agora que deverão ser lembrados e ouvidos no futuro. Ainda assim, há entre nós um consenso de fundo quanto à realidade e o valor da arte, por oposição ao ruído comercial e mediático ou ao intuito de qualquer agenda política, pela qual convergimos na recusa de muita música pop que degrada ou empobrece a nossa humanidade e no abraço de um ideal que dê alento à vida e à história.

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Este foi um ano curioso, em grande parte por ser o último da década. Se a transformação de entretenimento rentável ou música pimba em vanguardismo iconoclasta foi menor em 2019 (como se poderá ver pelas nossas fileiras de sobrevalorizados), já as listas de final da década foram suficientes para nos irritar até ao final da próxima. Este ano, obras culminantes de alguns dos artistas mais icónicos dos 2010s conviveram com os carismáticos álbuns de estreia dos que prometem estar na vanguarda dos 2020s. Uma vizinhança ainda mais singular quando reparamos que no primeiro grupo estão sobretudo cantautores e produtores, enquanto no segundo o que temos são bandas. Esta clivagem de gerações e tendências musicais sugere uma época de transição que agrava a incomensurabilidade e dificulta, ainda mais do que é costume, a ordenação dos álbuns que, por um motivo ou outro, nos conquistaram ao longo do ano. A eleição dos Melhores Álbuns de 2019 só podia ser atribulada – renhida como foi a luta entre o que se tem por bom e aquilo que se prefere – e a lista final um corpus incoerente mas representativo do que melhor se fez este ano no rock alternativo e áreas confinantes.

No último olhar sobre o ano que passou, aqui presente nesta lista de Melhores Álbuns de 2019, é o futuro o que mais nos intriga e espicaça. A história musical desta década foi dominada pela narrativa do reinado da música urbana, pelo mito da morte do rock, já recorrente, e por um poptimismo, esse inédito. Por razões todas elas obscuras e algumas desonestas, instalou-se uma aversão escarninha à música colectiva de guitarra, particularmente nos casos em que não podia ostentar qualquer forma de diversidade (na moderna visão sociológica, onde todas as pessoas são convertidas em exemplares de uma classe qualquer, suponho que não conta como “diversidade” o facto de nenhuma pessoa ser igual a outra). Torna-se anedótico o ciclo de castigo (uhh?) com notas humilhantes e posterior reabilitação por que os críticos têm feito passar géneros como o emo, o pós-punk ou o shoegaze, mas nunca o silêncio sobre tudo o que nestas áreas se vai fazendo foi tão grande como nesta década. Sob a desculpa de que a inovação e o espírito contestatário estavam a irromper noutros lugares – como se a arte fosse apenas isto – ostracizou-se um imenso campo musical que tem vindo, nos últimos três anos, a regressar e emergir um pouco por todo o lado. No preciso momento em que a Pitchfork começou a reescrever o passado à luz da actual fortuna de que goza a música urbana (veja-se só a revisão de que foi objecto a sua lista dos melhores álbuns da década de 80), a nossa (e não só) lista dos Melhores Álbuns de 2019 sugere um futuro diferente, sempre maior e mais à frente do que qualquer narrativa.




Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Morbid Stuff
25. PUP, Morbid Stuff (Rise, 5 Abril)

Três anos após o lançamento do criticamente aclamado álbum The Dream Is Over (2016), o quarteto pop-punk canadiano PUP regressa com o seu trabalho mais completo até à data, fruto do longo período que a banda passou, em primeiro lugar, a escrever as letras das canções e, posteriormente, a gravá-las em estúdio na companhia do engenheiro de som Dave Fischmann. O resultado é um disco meticulosamente produzido que, simultaneamente, retém a catarse desencadeada pelas letras pessimistas e mordazmente sarcásticas de Stefan Babcock, frequentemente potencializadas por um estilo de canto desenfreado, e transparece o talento dos PUP para a composição de canções pop cativantes. O conjunto dá ainda a conhecer uma faceta experimental da sua música, denotada na instrumentação country de Scorpion Hill ou na integração de guitarras stoner-rock na estrutura hardcore punk de “Full Blown Meltdown”.

O terceiro álbum de estúdio do grupo de Toronto exterioriza o grave problema de ansiedade de Stefan Babcock de forma jocosa, recorrendo a uma justaposição entre as palavras neuróticas proferidas pelo vocalista e a sonoridade otimista e envolvente, repleta de guitarras harmonizadas, secções rítmicas impulsionadoras e refrães cantados a várias vozes. Mais do que a eficiente exposição de uma mente autodestrutiva, Morbid Stuff é um artefacto que privilegia a sensibilidade pop e o efeito positivo a longo prazo na comunidade ouvinte, ao mesmo tempo que celebra a música enquanto forma de vida. O processo de purificação de Stefan Babcock apoia-se, acima de tudo, neste estabelecimento de laços entre companheiros de banda e base de fãs, assim como na elaboração de uma peça de arte que resulte da interdependência dos seres-humanos envolvidos. Se as letras reflectem nada mais do que um estado de espírito momentâneo (“You shouldn’t take it so seriously/ It’s just music after all/ And half the crap I say/ It’s just things I’ve stolen from the bathroom walls”), já a influência da ética DIY da década de oitenta na mentalidade dos PUP e a valorização da componente social enquanto critério a ter em conta para o sucesso de um projeto permanecem imutáveis. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019 | Two Hands
24. Big Thief, Two Hands (4AD, 11 Outubro)

Se há artista ou banda em destaque inequívoco este ano, então essa banda só pode ser os Big Thief. Depois do tremendo êxito de Capacity, lançado em 2017, a banda de Adrianne Lenker (que tinha lançado um álbum a solo em 2018, número #33 do ano para a Magazine.HD – sim, Lenker lançou três álbuns nos últimos 12 meses) colocou no mundo dois álbuns que têm sido celebrados por quase todos os compêndios de melhores álbuns de 2019 – “U.F.O.F.” e “Two Hands”. Na Magazine.HD, decidimos destacar o último, porventura um álbum mais direto, menos polido e, narrativamente, mais simples que “U.F.O.F.”, mas que se encontra recheado de canções com melodias cruas e imensamente íntimas que revelam as emoções mais intensas que ouvimos em qualquer outro álbum este ano. O single “Not” pode muito bem ser o ponto alto da carreira dos Big Thief. (DR)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Emily Alone
23. Florist, Emily Alone (Double Double Whammy, 26 Julho)

Emily Alone é o resultado do cruzamento da existência e da ideia. Nele encontram-se a dor de tempos sombrios, entristecidos pela rotura, distância e morte, e a exploração do conceito de solidão como condição inescapável de cada homem. Emily Sprague, a alma dos Florist, põe-se a si mesma e às suas interrogações no centro deste álbum de discretos mas inesquecíveis detalhes. Certos versos onde lampeja, simples e lancinante, a verdade, um arpejo que irrompe no eco suave, uma melodia de imperceptíveis sintetizadores, um piano martelado por instantes, tudo se vai gerando e evaporando numa atmosfera estranhamente duradoura para algo tão etéreo. Nas suas exalações fugidias desenrola-se, subtil mas sério, o drama de um sofrimento que procura pacificar-se na demanda por um sentido. Esta indagação existencial não se desenvolve em torno dos porquês do que acontece e que nada mudariam (“I don’t have the reasons why/ But it wouldn’t make anything right”), mas da descoberta de quem se é chamado a ser. Perguntas sobre a origem e o destino, como “Where did I come from?”, “What is my place in this world?” ou “Where do you go?”, povoam este disco onde Emily Sprague exprime suavemente o fulgor da juventude, que brota da vivacidade das únicas questões que importa colocar. Tudo no interior de um cosmos imenso cujo “glow keeps me company”, à procura de uma “heaven’s light” que ilumine a existência, aclarando o caminho, e à espera de alguém que diga “sim” à pergunta sobre se tudo acabará em bem. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | This Is Not the End
22. Spielbergs, This Is Not The End (By The Time It Gets Dark, 1 Fevereiro)

Os Spielbergs, banda norueguesa constituída pelo vocalista Mads Baklien, baixista Stian Brennskag e baterista Christian Løvhaug, têm o ethos rebelde do punk tatuado na pele. Para um género de música cujos estereótipos se alicerçam nas imagens de juventude e vida boémia, a ideia de três adultos, com empregos regulares e uma família, se reunirem numa garagem para tocar música ruidosa e visceral pode parecer uma realidade longínqua. Todavia, não há nada mais “punk” do que o próprio ato de colocar em causa a definição fabricada pela comunicação social desta cultura. Os Spielbergs executam esta tarefa de modo exímio com o seu álbum de estreia This Is Not The End. A sonoridade das faixas que integram This Is Not The End não é particularmente inovadora e um ouvido mais apurado facilmente detetará as influências do rock alternativo dos Dinosaur Jr. nas guitarras distorcidas, nas linhas de baixo propulsivas e na utilização do feedback ou mesmo dos temas irresistíveis dos Replacements nos refrães de canções como “Five On It”.

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O que distingue, no entanto, os Spielbergs do vasto leque de bandas punk desta década é a colocação da instrumentação ao serviço da exteriorização de inquietações e demónios internos que só um grupo de indivíduos com um extenso e refletido historial de vivência social e espiritual se pode dar ao luxo de exorcizar. This Is Not The End é um exercício terapêutico que prioriza a demanda por uma verdade profunda e o enfrentamento da perpétua sensação de descontentamento que tende a invadir a alma do ser-humano. O pop-punk urgente de “Distant Star” e “Bad Friend” deixa a nu as impaciências e amarguras do quotidiano, contrastando com o pós-rock de “Familiar” e “McDonald’s (Please Don’t Fuck Up My Order)”, onde as paisagens sonoras difusas abrem espaço para uma meditação sobre a função que exercemos no mundo e no dia-a-dia dos nossos entes queridos. A catarse é imprescindível para a libertação pessoal. Só depois de muito uivarmos, espernearmos, prantearmos e ruminarmos é que podemos, finalmente, aceder a um panorama desobstruído da vida, apartado de frivolidades e sempre apoiado na honestidade. “I stand alone/ Forevermore” trata-se apenas de mais um desabafo. Isto não é o fim. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Thanks for the Dance
21. Leonard Cohen, Thanks For The Dance (Sony, 22 Novembro)

Leonard Cohen, o eterno cantor, compositor, trovador, poeta e escritor, símbolo inspirador de várias gerações, morreu a 7 de novembro de 2016, ano em que editou o maravilhoso, genial You Want It Darker, aquele que parecia ser o seu derradeiro álbum, composto ainda durante a sua vida e no qual se despedia: “I’m ready, my Lord”. Meses antes afirmava em algumas entrevistas que tinha planos para terminar alguns livros, músicas e canções. Na realidade foi o filho quem se encarregou de concluir esses planos, qual acto de amor, sem falar da mestria hereditária. Com base nos esboços deixados pelo pai destinados a You Want it Darker, Adam Cohen musicou e produziu esta segunda parte, onde (justiça finalmente feita) a voz de Cohen sobressai como nunca antes, em toda a sua glória, sabedoria e singular capacidade de invadir a alma do mais incauto (“I was born like this, I had no choice/ I was born with the gift of a golden voice”, dizia o poeta em “Tower of Song”, 1988). Este soberbo instrumento vocal , interpretado por Leonard Cohen, foi gravado durante as mesmas sessões de You Want It Darker, acompanhado agora pelos notáveis convidados Daniel Lanois, Beck, Jennifer Warnes, Damien Rice e Feist. Thanks For The Dance pode não ser o melhor álbum da longa e profícua carreira de Leonard Cohen, mas é não só um dos melhores, como tem o sabor das coisa eternas, resultado acumulado da sabedoria e emoções duma vida cheia, ao serviço da arte e da procura do belo e da perfeição lírica e musical. (RR)




Hand Habits - Placeholder Cover
Melhores Álbuns de 2019 | Placeholder
20. Hand Habits, placeholder (Saddle Creek, 1 Março)

Acompanhada principalmente por guitarra e percussão, a voz de Meg Duffy progride calmamente ao longo de placeholder. Passeamos e perdemo-nos por entre as suas inflexões de voz e emotivas melodias. Mas quando escutamos o que diz e começamos a entrar na sua narrativa, esfuma-se a aparente tranquilidade. Em placeholder, Meg afirma contar-nos histórias reais, descrevendo-nos uma pessoa com quem esteve em tempos, chegando mesmo a interpelá-la. Mas depois de acompanhar cada faixa múltiplas vezes, apercebemo-nos de que estas “histórias reais” não são mais do que um pano de fundo, para que Meg Duffy possa pôr em causa a mutabilidade do ser humano, interrogando-se sobre se podem realmente ocorrer mudanças verdadeiras e permanentes ou se, permanecemos eternamente num estado intermediário (“placeholder”), em constante mudança para ser algo novo. Duffy interroga o “you” a quem se dirige, interroga-nos a nós e interroga-se a si mesma, compulsivamente, parecendo ansiar por encontrar aquela clareza que lhe trará a calma e o repouso. Contudo, a única certeza atingida é a de que quanto mais se interroga, maior a dúvida que nasce em si. (MS)

Charly Bliss - Young Enough
Melhores Álbuns de 2019 | Young Enough
19. Charly Bliss, Young Enough (Barsuk, 10 Maio)

Young Enough faz jus ao seu nome, tanto à energia explosiva da fase da vida indicada pelo adjectivo, quanto ao teor dubitativo do advérbio: jovem o suficiente, jovem quanto baste, jovem ainda? Em lirismo e sonoridade, este é um álbum que habita a angustiada fronteira entre a adolescência e a idade adulta. De um lado, o vigor impaciente, a ilusão inocente e o desejo desmedido de entrega amorosa, conclamados pelo bombo retumbante e pelas guitarras pós-punk ora céleres, ora distorcidas, mas sempre melódicas e eufóricas. Do outro lado, a narrativa do esboroar-se do primeiro sério amor, do desgosto incrédulo diante dos destroços e da poeira a que tudo se reduziu (“it’s gonna break my heart to see it blown to bits”), ficando só as dúvidas sobre o futuro (“I don’t know what’s coming for me after 24”).

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Tudo parece “a universe in mourning” e as melodias pop apenas tornam mais excruciante, por contraste, este retrato de devastação que culmina na pungente “Hurt Me”. No meio da mágoa, da frustração, do conflito, Eva Hendricks delineia mil e uma metáforas para tornar vívida, tão vívida quanto a sente, a intensidade da dor infligida. Só para, atravessando a turbulência do combate, em jeito de comovente pedido, a sua voz atingir como flecha o cerne do outro, até ao desejo que ele próprio esqueceu: “You don’t wanna hurt me, baby”. Neste verso lancinante é posta a nu, em carne viva, a nossa impotência diante do mal que fazemos sem querer e do bem que almejamos sem lá chegar, num álbum onde lampeja, carnal e idiossincrático, o talento poético de Eva Hendricks. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | I Am Easy to Find
18. The National, I Am Not Easy to Find (4AD, 17 Maio)

I Am Not Easy to Find é o oitavo álbum da, provavelmente, banda alternativa mais influente do nosso tempo. Brooklyn, os gémeos Dessner, os gémeos Devendorf e Matt Berninger estão por trás, ou de alguma forma relacionados, e em apoio a centenas dos melhores projetos musicais de que falamos nestas páginas há já alguns anos. Sintomático pois o nascimento deste belo álbum, em parte banda sonora da curta art-house de 25 mins realizada por Mike Mills, e que explica a melhor imagem de capa até agora dos The National, com a icónica Alicia Vikander como protagonista. Da colaboração de Matt Berninger resultou uma épica e algo caótica compilação de belas músicas, em tons intimistas e mais variados que o habitual. A abertura à comunidade artística dos The National é desta feita mais ampla ainda, e ao longo dos 64 minutos e 18 variadas faixas, temos não só a colaboração do Brooklyn Youth Chorus, como ainda Gail Ann Dorsey, Eve Owen, Diane Sorel, Mina Tindle, Lisa Hannigan, Sharon Van Etten e Kate Stables. ‘Where Is Her Head’, uma das melhores músicas até hoje da banda, celestialmente interpretada por Eve Owen, é talvez aquela que melhor representa esta partilha e abertura. Sem a solidez estilística e conceptual de Alligator, Boxer ou Trouble Will Find MeI Am Not Easy to Find é sobretudo uma festa para os sentidos e a auto-determinação da banda enquanto animadores culturais de eleição. (RR)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Purple Mountains
17. Purple Mountains, Purple Mountains (Drag City, 12 Julho)

Na nossa lista “Os 25 Melhores Álbuns de 2019”, a distinção de álbuns de estúdio que relatam experiências pessoais e a sempiterna busca por uma “força de salvação” fidedigna é um dado recorrente. Nesta veia, o disco epónimo Purple Mountains (2019) representa a última entrada no diário do músico e poeta David Berman e uma manifestação franca da ausência de motivos para viver. Todavia, se há quem considere que a vida é a “grande obra-de-arte”, há também quem opte por colocar a arte ao serviço da vida. Purple Mountains não deve ser assimilado como uma carta de despedida, mas sim como uma súplica por ajuda que terá sido vítima de interpretação leviana.

No seio do disco detetamos uma genuína vontade de David Berman de juntar forças para sonhar, lutar e contemplar a beleza do mundo durante mais um dia, elemento espelhado na instrumentação “Americana”. Se o timbre da harmónica reveste as letras fúnebres de tons quentes e reminiscentes de um fim de tarde a apreciar o pôr-do-sol, sentado na berma de uma estrada deserta, esta mesma preferência pela sonoridade heartland rock, género de música caracterizado por uma conotação redentora e esperançosa, denota a forte convicção de que a música rock possui uma finalidade social e comunitária e não apenas de entretenimento de uma audiência. Purple Mountains eleva este ethos a uma posição de destaque. “Nights That Won’t Happen” evidencia a débil condição psicológica de David Berman e o peso que o falecimento da mãe e o divórcio de Cassie Berman, após vinte anos de comunhão, tiveram no seu bem-estar pessoal e na visão do mundo. Conjuntamente, deixa a nu o fatal enamoramento do cantautor com a morte (“The dead know what they’re doing when they leave this world behind”) e uma tentativa de encontrar compreensão e apoio no corpo social e sobretudo no seu íntimo (“And when the dying’s finally done and the suffering subsides/ All the suffering gets done by the ones we leave behind”). Uma tentativa minuciosamente redigida, eternamente retentora do coração amargurado de David Berman e do seu “grito” final, frouxo, mas ainda assim autêntico.

Purple Mountains deve ser revisitado desta forma: um artefacto fabricado com mestria e um exemplo notável do poder da arte enquanto forma de expressão. No entanto, sempre com ponderação e maturidade, já que a decisão de David Berman de retornar ao mundo da música, mais de uma década depois do lançamento de Lookout Mountain, Lookout Sea (2009), para divulgar aquele que viria a ser o seu trabalho derradeiro, não pode ser encarada de ânimo leve por parte da comunidade ouvinte. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019 | Oh My God
16. Kevin Morby, Oh My God (Dead Oceans, 26 Abril)

Um álbum para ser escutado no silêncio acima das nuvens ou na pacificidade de um santuário. Oh My God, o quinto álbum de originais de Kevin Morby, é composto por canções espirituosas, de linguagem religiosa e sonoridades que mesclam o gospel com o rock’n’roll e que encerra com um hino Dylanesco, “O Behold”, candidata a canção mais depressiva do ano. Neste registo, Morby oferece o seu álbum mais maduro até à data, onde cada composição parece estar no lugar certo e revela fragmentos de uma jornada profundamente introspetiva que, pedagogicamente, é também capaz de guiar quem o escuta no caminho da luz, do conforto. É o álbum feel-good do ano. (DR)




Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | The Talkies
15. Girl Band, The Talkies (Rough Trade, 27 Setembro)

A faixa que abre o segundo disco dos Girl Band não é propriamente uma canção, apenas uma respiração ofegante sobre um sinal sonoro intermitente de baixo. Mas, ao documentar um ataque de pânico que o vocalista Dara Kiely teve no estúdio, “Prolix” oferece uma chave de leitura de The Talkies como um retrato universal do que acabou por ser também o drama biográfico atravessado por Kiely nos últimos anos, obrigando a banda a entrar em hiato. Os Girl Band sempre se moveram no interior de um noise-rock industrial e o novo disco não acusa em nada a pausa forçada, nem assinala uma mudança de direcção. Pelo contrário, é uma versão mais coesa e sofisticada da sonoridade com que se apresentaram ao mundo no anterior disco de estreia. A composição das canções é mais intencional e, embora sempre longe da fórmula pop, vive de uma certa repetição com variação pensada para criar tensão e expectativa que, sem chegar a qualquer tipo de resolução, nos surpreende e cativa ao longo do caminho. O resultado é um ambiente industrial fantasmagórico, onde vibra, contínuo e impassível, cheio de eco e solidão, o grito de Kiely. Projecta-se, ao nosso redor, aprisionando e isolando-nos, uma imagem da modernidade alienante como o manicómio em que todos vivemos.

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The Talkies não passaria do buraco negro da experiência traumática de Kiely, cuja força de gravidade nos engoliria vorazmente, se não fossem precisamente os acentos e torceduras da sonoridade industrial. São tão inesperados neste contexto que se tornam comicamente surreais. Malhas que prometem, sem chegar a oferecer, um ritmo dançável, fragmentos de rock’ n’ roll, notas soltas que esboçam, sem a materializar, uma melodia revelam um savoir faire musical que a banda usa para parodiar o passado e gozar com as nossas expectativas. O sentido de humor corrói a tragédia, numa ironia sobre si próprio e os outros que desconstrói o drama, lembrando-nos de que tudo não passa, afinal, de música e a doença mental é-o só, muitas vezes, por referência a certos padrões de normalidade: “That’s just mental/ What is normal?” (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | Father of the Bride
14. Vampire Weekend, Father of the Bride (Sony, 3 Maio)

Se pensarmos que já passaram seis anos desde Modern Vampires Of The City, percebemos que um espaço de tempo como este é sempre impulsionador de mudanças, nomeadamente para quem entra na casa dos trinta, como é o caso de Ezra Koenig. O novo álbum dos Vampire Weekend encontra inspiração nesta metamorfose sendo ele próprio um resultado desta transformação. Father of The Bride parece ter tudo para ser um daqueles álbuns rejeitado pela comunidade de fãs que evoca o passado da banda. As letras alegres e mais despretensiosas resvalam por vezes para o infantil ou saloio, fazendo-nos desejar trocar o espetro policromático do novo álbum pela sobriedade do preto e branco de Modern Vampires of The City. Contudo, o que as letras denotam é uma nova postura perante a vida, que revela, pelo contrário, um amadurecimento por parte do vocalista da banda, que parece ter encontrado na sua vida quotidiana as respostas, ou a forma de encarar algumas questões que o assombravam noutros álbuns. Father of The Bride encerra esta necessidade de soar mais otimista, com letras compreensíveis, acompanhadas por malhas de guitarra, cuja simplicidade abre portas a uma certa criatividade explorada pela banda nas atuações ao vivo, de forma expansiva. Neste novo registo, Ezra não abandona o olhar crítico sobre o mundo, nem embarca num otimismo desmedido, mas apercebe-se de que “a vida continua”. (MS)

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Melhores Álbuns de 2019 | All Mirrors
13. Angel Olsen, All Mirrors (Jagjaguwar, 4 de Outubro)

Se alguém tivesse dúvidas da grande personalidade musical de Angel Olsen, da sua magnética presença e sobretudo do vozeirão que manipula como quer e lhe apetece, bastariam dois minutos perante qualquer das suas atuações ao vivo, com banda ou a solo (felizmente já várias entre nós), para se render a esta grande senhora da melhor cena musical contemporânea. Partindo dum lo-fi acústico e íntimo de início de carreira, seguido de um garage rock mais selvagem no últimos álbuns, os mesmos atormentados temas permanecem em pano de fundo agora em tonalidades mais voláteis, envoltas em arranjos mais elaborados, maduros e requintados, não hesitando perante sintetizadores ou verdadeiras secções orquestrais, sempre emanando a sua química contagiante e uma mobilização rítmica altamente confiante. All Mirrors é, não só mais um prodígio da engenharia e magia de John Congleton (Bill Callahan, Anna Calvi, Sharon Van Etten, Lower Dens, Lucy Dacus, Kimbra, Decemberists, St. Vincent, The Walkmen, Wye Oak, e muitos outros do mesmo calibre), como o auge criativo de uma das melhores intérpretes do nosso tempo. (RR)

Melhores Álbuns de 2019 | House of Sugar
12. (Sandy) Alex G, House of Sugar (Domino, 13 Setembro)

House of Sugar (2019) é a mais recente e consistente manifestação da mente solipsista de Alex Giannascoli, jovem cantautor norte-americano que iniciou a sua auspiciosa carreira com quatro projetos DIY divulgados no Bandcamp e, atualmente, é tido por muitos como um dos principais rostos da música lo-fi. Se os criticamente aclamados DSU (2014), Beach Music (2015) e Rocket (2017) deram a conhecer à comunidade ouvinte a sonoridade experimental e enigmática, os motivos de guitarra contagiantes e a fascinação pelo electronic de (Sandy) Alex G, House of Sugar serviu para consolidar a estética idiossincrática do artista e da música que compõe. O disco é um “conto de fadas” contemporâneo, instrumentado por progressões de acordes cativantes, técnicas de pitch-shift pejadas de uma conotação etérea e perspicaz recurso a violino e piano, onde os seres-humanos que constituem o círculo afetivo de Alex Giannascoli assumem o papel de heróis improváveis e a vivência do autor é convertida em lições intemporais e universais. Desde os primórdios da sua carreira que o artista originário de Filadélfia sempre valorizou a produção de música no lar recôndito, distanciado do “olhar julgador” do mundo circundante. No entanto, o seu “quarto imaginário”, apinhado das dúvidas existenciais que atormentam qualquer alma em fase de maturação, finalmente “rebenta pelas costuras” em House of Sugar, expondo um retrato puro e hermético do seu residente, a partir do qual, porém, é possível estabelecer pontos de ligação com as nossas próprias vidas. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | American Football LP3
11. American Football, American Football LP3 (Polyvinyl, 22 Março)

O tempo passa e a espuma e zumbidos em torno do rock vão-se desfazendo. Numa história atribulada, mas por isso mesmo viva, mitos, imagens, excessos são peneirados e fica só a música como expressão artística de si e modo de fazer sentido do mundo e da vida. Os American Football cresceram e a sua sonoridade paciente exprime agora a paciência da maturidade. “Forever has to wait”, para que a eternidade possa ser conquistada, numa narrativa sobre as delícias e agruras do casamento e da paternidade. Colocar o dedo nas diferenças entre os dois discos significativos da carreira dos American Football é, e não é, fácil. Por um lado, a polifonia das guitarras permanece inconfundível,  mas por outro, desapareceu o travo slowcore e as melodias fundem o emo e math-rock de sempre com acentos novos de shoegaze e dream pop. As melodias vocais conservam a monotonia, mas perderam a difidência e vibram agora de intranquilo, prolongado anseio. No universo doméstico de Mike Kinsella, bem contra-corrente, o compromisso não desgasta mas aviva o desejo, talvez porque nunca se pode possuir quem já se tem: “I miss you like a past life/ I can’t remember if/ You were ever mine to miss”. Longe da absorção em si mesmo que caracteriza a adolescência, a vida enche-se de temor e tensão com a presença de um outro, tão real que olhando-o traz o eu à existência, tão indefeso que pode ser magoado, tão frágil que pode desaparecer: “Just the thought of being seen is more than I can take/ I never met a mirror that I couldn’t break”. Mas só assim a vida permanece eternamente jovem, sempre intranquila, sempre em luta, sempre em demanda: “I used to struggle in my youth/ Now I’m used to struggling for two/ I have become uncomfortably numb”. (MPA)




Melhores Álbuns de 2019 | Four of Arrows
10. Great Grandpa, Four of Arrows (Double Double Whammy, 25 Outubro)

“Say I’m young enough to change”, canta Alex Menne em “Bloom”. É esta mesma certeza que tiramos de Four of Arrows. A distância que os separou nos últimos tempos não impediu os Great Grandpa de ousar uma mudança de rumo. Se em Plastic Cough sobressaíam a energia e a distorção, agora são as cativantes melodias que suscitam, desde logo, uma certa afinidade com o álbum. Mas é com uma repetida e recompensadora audição que se descobre a complexidade melódica, a subtileza de certos dedilhados de guitarra que denotam influências country-folk ou as pequenas intrusões de math-rock. Uma riqueza de influências inspiradoras do álbum de que só não nos apercebemos porque nos deixamos primeiro levar pelos versos. Entre angústias pessoais ou reflexões sobre a fugacidade do tempo, parece transparecer uma certeza que se concretiza numa esperança no futuro. (MS)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Solipsisters
9. Katie Dey, solipsisters (Run For Cover, 31 Maio)

Um dos álbuns mais injustiçados do ano, pela ignorância e esquecimento a que foi votado, solipsisters terminou como começou: solitariamente no quarto tanto de quem o compôs como dos poucos que o ouviram. Conviver com este álbum não é só tomar conhecimento do que alguém tem para nos dizer (murmurar será talvez mais o termo) mas é abraçar e absorver todo um outro modo de conceber a música e a vida. É mudar, é repensar o que importa, o que tem valor, é escolher de que lado se quer estar. Neste disco que resiste a quaisquer tentativas de encaixe ou classificação em géneros, Katie Dey enfrenta os seus fantasmas, as falsas ideias sobre si própria que a faziam sentir-se desconfortável no corpo que habita no mundo (não será antes graças ao qual habita o mundo?). Numa massa sonora tão  indefinível como ela própria, questões de vida ou morte, identidade e relação corpo-mente são colocadas sem que se chegue a resposta alguma. Mas a vitória, cujos finos e discretamente eufóricos acentos emergem por toda a nuvem de lo-fi, está precisamente em chegar a formular as perguntas que orientam a existência em direcção ao infinito de que é procura: “Oh God, i wish to see your soul”.

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Muitos odeiam o próprio corpo porque se imaginam outra coisa que não a que esse corpo lhes sugere. Mas Katie Dey resistia à carnalidade por sentir que a sua desajeitada finitude a separava do infinito e dos outros, isolando-a do universo. Pela primeira vez, intui que talvez seja precisamente esse corpo que a faz ser e existir no seio de tudo, dando-lhe um rosto: “If we abandoned our shells/ Do you think anyone could tell/ Who we were?” Da corporalidade sensível do instrumental, uma aquática nebulosa de reverberação vocal, sustentada por uma espaçosa e imponente percussão e alumiada por crescendos lancinantes de piano, violinos e violoncelos, irrompem e somem-se as palavras que carregam a vida do eu. Trazem-nos as interrogações que latejam no íntimo da alma, naquele lugar recôndito que tudo conspira por silenciar, a começar por nós próprios. Mas porquê tanto medo, se o que nos espera é a beleza do que ouvimos em solipsisters? Recusar o ruído do mundo, entrar no quarto onde estamos sozinhos connosco próprios e corajosamente escutar o que luta por brotar do profundo da alma, no interior da nossa concha, é passar para o outro lado do espelho e assumir finalmente um rosto diante desse mundo. Num lugar onde massas de gente prestam culto às Gretas ou Trumps do momento e muitos elegem o disco de Billie Eilish como o melhor do ano, será de espantar que ninguém se espante com este álbum? Claro que não. Duh. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | Norman Fucking Rockwell
8. Lana Del Rey, Norman Fucking Rockwell (Interscope, 30 Agosto)

Lana Del Rey escolheu, como via de expressão da sua experiência pessoal (e de cuja autenticidade não duvidamos) o hábito pós-moderno de reciclar o passado e antepor as ficções à vida que estaria supostamente na sua origem. A vida humana, contrariamente à dos restantes organismos, consiste na consciência de si própria por meio da linguagem, das construções com que descreve, com ou sem verdade, literal ou metaforicamente, o mundo e o seu lugar nele. Nada há de errado em assumir e expor o modo como funciona não só a arte mas a própria mente e pilhar a história recente em busca de sonhos idos, nem por isso menos amáveis. Lana Del Rey ressuscita o desejo e abandono das mulheres dos melodramas de Douglas Sirk, a angústia juvenil de que James Dean se tornou símbolo, a liberdade do rock’n’roll, a solidão do film noir e o colorido da Arte Pop para se apropriar e tomar consciência da sua existência ao mesmo tempo que cria, com Norman Fucking Rockwell, um retrato relevante da nostalgia moderna, da omnipresente sensação de termos perdido qualquer coisa de precioso e irreparável. Lana Del Rey fala sobre si mesma por meio das construções alheias, tão interiorizadas que nada mais há para lá delas, até, à maneira da Terra Devastada de T.S. Eliot, gerar um lirismo tão emprestado quão original, uma personalidade tão partilhável quão inalienável: “So I moved to California‚ but it’s just a state of mind/ It  turns out everywhere you go‚ you take yourself‚ that’s not a lie”. Absolutamente de acordo. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | MAGDALENE
7. FKA Twigs, MAGDALENE (Young Turks, 8 Novembro)

A arte de capa de MAGDALENE metamorfoseia o rosto de FKA twigs num ente estranho mas poderoso, entre o busto grego e a gárgula medieval. Um entre os inúmeros gestos de performance que acompanham o conteúdo lírico e sonoro deste álbum, o trabalho de Matthew Stone consagra indelevelmente outra das figuras que deram uma (certa) identidade à década que finda. Confortada pela imagem de Maria Madalena, ao mesmo tempo que a recria à imagem e semelhança do que pensa ser de mais conforto para si e outras mulheres em iguais circunstâncias, FKA twigs traz à existência uma das pedras preciosas, mas também um dos arquétipos mais espinhosos, que o pop/R&B desta década legará ao futuro. Sintetizando a sua sonoridade extraterrestre com a emotividade deste mundo, a rainha indiscutível do género expõe em MAGDALENE fragilidade e solidão, frustração tornada desejo de poder, feridas por curar e esperança indelével no futuro. FKA twigs permanece seráfica e discreta no seio da turbulência experimental dos seus sintetizadores, desta feita espaçosos e melódicos. Numa voz mais harmoniosa e franca, esboroado o enigma de antes, diz-nos, enquanto o repete para si própria, que a felicidade é possível: “Take a chance on all the things you can’t see/ Make a wish on all that lives within thee”. E nós acreditamos. Por tudo o que não vemos, por tudo o que vive em nós, não podemos não acreditar. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | Ghosteen
6. Nick Cave & The Bad Seeds, Ghosteen (Ghosteen, 4 Outubro)

Para quem pudesse pensar que Skeleton Tree ou mesmo o documentário de Andrew Dominick, One More Time With Feeling, poderiam ser os trabalhos artísticos de Nick Cave onde a dor não poderia, de forma alguma, ser superada, tal certeza dissipa-se logo na abertura de Ghosteen, em “Spinning Song”. Neste seu novo disco, Nick Cave fala do processo de regeneração de uma ferida exposta – o falecimento do seu filho de 15 anos, em 2015 – num álbum-catarse, tão belo e melancólico quanto doloroso e destrutivo. “Ghosteen” capta de forma magistral a angústia de um pai que perde um filho e medita de forma profunda sobre a dor que sente e como a pode superar. Um álbum absolutamente perfeito, essencial desta década e das décadas que ainda virão. (DR)




Melhores Álbuns de 2019 | Shepherd in a Sheepskin Vest
5. Bill Callahan, Shepherd in a Sheepskin Vest (Drag City, 14 Junho)

Bill Callahan diz-nos que a mudança para a Califórnia limitou a sua capacidade de escrever música, o que pode explicar o hiato que encontramos entre este álbum e o anterior Dream River. Mas ao regressar a Austin a sua caneta começou a fluir novamente e é neste momento que o acompanhamos em Sheperd In a Sheepskin Vest. “And it sure feels good to be writing again”, diz-nos Bill. Ao ouvir este álbum, a sensação é de quem se encontra presente no instante em que Bill volta a pegar na caneta e começa a escrever freneticamente, quase como se escutássemos o seu pensamento ao som de uma melodia que ele arranca da guitarra. Por entre arranjos simples de guitarra, cordas e percussão, a sua voz barítona sobressai para nos falar daquilo que o rodeia naquele momento, a mulher, a morte da mãe, o nascimento do filho, a casa e o carro novo. Neste retrato de uma vida caseira, com um certo humor que conjuga com alguns conselhos paternos, Bill Callahan afirma a vida e o encontro de uma felicidade doméstica. (MS)

Melhores Álbuns de 2019 | Schlagenheim
4. Black Midi, Schlagenheim (Rough Trade, 21 Junho)

Se ainda restavam dúvidas de que os black midi, talentoso quarteto de instrumentistas britânicos, seriam a “banda revelação” do ano de 2019, todas se dissiparam após o lançamento do álbum de estreia Schlagenheim (2019). Para os black midi, estudantes na afamada BRIT School e aficionados por jazz livre e improvisação musical, a busca pelo “som ideal” encontra-se no centro de tudo. Paradoxalmente, os jovens reconhecem a carga absurdista deste objetivo e que a sua satisfação pessoal se prende unicamente com o incessante processo de investigação da teoria da arte e posterior desconstrução da música do passado. A sobrevivência da banda depende estritamente destes mesmos fatores: a manutenção de um caráter metamórfico e a incansável luta contra a estagnação criativa ou, por outras palavras, a sua “sentença de morte”. Dito isto, Schlagenheim é a exposição inaugural da mentalidade partilhada pelos guitarristas Geordie Greep e Matt Kelvi, baixista Cameron Picton e baterista Morgan Simpson, uma virtuosa parceria que tanto se arrisca a durar anos, resultado da preservação do “poder inventivo” dos envolvidos, como terminar sem aviso prévio, após um episódio de falta de inspiração de caráter fatal. Uma coisa é certa: gostos à parte, o visceral e ousado fruto da contribuição mútua de quatro indivíduos que, enquanto coletivo artístico, nascem aprisionados à música que compõem e, de forma idêntica, cessarão quando o último acorde for tocado, nunca poderia deixar de ser alvo de destaque por parte do departamento de música da Magazine.HD.

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Aguardamos com expectativa o que o futuro próximo nos reserva. Por agora, vemo-nos forçados a revisitar incansavelmente as melodias vocais sui generis de Geordie Greep (um meio-termo entre o spoken-word de Brian MacMahan e o jogo de gemidos e sussurros de Mark Hollis na fase experimental dos Talk Talk); crescendos que  culminam, de modo abrupto, em serenas paisagens sonoras, esquivando-se da estrutura familiar do pós-rock; a integração de elementos math-rock, como progressões de acordes dissonantes, melodias angulares, técnica do contraponto e compassos incomuns, e ainda a soturnidade do pós-punk dos anos oitenta. Se a manutenção de qualidade da música alternativa britânica da década de 2020 ficar ao encargo dos black midi e da paixão que nutrem por esta forma de arte, assim como das bandas afiliadas à Speedy Wunderground que ainda não chegaram a despontar, então encontramo-nos em boas mãos. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Remind Me Tomorrow
3. Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow (Jagjagwuar, 18 Janeiro)

Se os dois álbuns anteriores a Remind Me Tomorrow, Tramp (2012) e Are We There (2014), já faziam parte da lista de melhores discos da década, este nosso terceiro lugar dos melhores de 2019, surge não só como uma confirmação dos (vários) talentos de composição e interpretação de Sharon Van Etten, mas também como uma perfeita e agradável evolução, plena de vitalidade e amadurecimento. Um ajuste a novos tempos, deixando para trás o que não correu bem, e acordando para novos compromissos, família e também novos receios, característicos da fase adulta da vida. Tal como referimos na nossa análise ao album é possível encontrar versões de “Seventeen”, a sua canção mais significativa, tocadas em guitarra acústica, no início de 2017, e perceber o quanto esta canção cresceu juntamente com a autora. Enquanto compunha a banda sonora de Strange Weather, foi-se fartando da guitarra e entretendo-se com o órgão CX-3 e o sintetizador Jupiter 4 (exacto) do Michael Cera. Em casa, divertu-se a tocar na bateria daquele com quem quis viver o resto da vida. Ganhou-lhe o gosto e lembrou-se de que gostava de pós-punk e electrónica, de Portishead, Suicide, Nick Cave e Bruce Springsteen. Procurou um novo produtor, John Congleton (Bill Callahan, Anna Calvi, Lucy Dacus, Kimbra, Decemberists, St. Vincent, The Walkmen, Wye Oak) e o resultado foi este magnífico Remind Me Tomorrow. Uma mudança de direcção relativamente ao esmerado e enlanguescente indie folk dos registos anteriores, que abre novas possibilidades numa estrada onde não falta espaço para crescer nem talento que o prometa. (RR)

Melhores Álbuns de 2019 | Dogrel
2. Fontaines D.C., Dogrel (Partisan, 12 Abril)

Por entre as estrelas da passada década que chegaram ao zénite, acenderam-se vários luzeiros cujo brilho azulado não tardará a encher de fulgor a década que começa. Não faltam nesta lista bandas a aliar o viço e a robustez da juventude a uma exímia habilidade musical, num e outro lado do Atlântico. Mas nenhuma delas, mesmo se não lhes falta talento poético, possui a sensibilidade literata dos Fontaines D.C. Em Dogrel, estes irlandeses forjaram um retrato de Dublin que transcende a denúncia social de muito pós-punk recente, oriundo das ilhas, e eterniza uma imagem pessoal da cidade. Com uma sonoridade bem mais diversificada do que o género para o qual os atiram, em muitos aspectos tão sapiente quão incipiente, e naquela poesia rude que dá nome ao álbum, os Fontaines D.C. contam a história dos tempos de estudante numa Dublin já desaparecida, sob a lápide da gentrificação, e da sua pobreza passada entre os miseráveis e indigentes espalhados pelos esconsos da cidade. O que comove e promete neste fresco urbano, “too real” para passar na rádio ou tocar em festas, é a interrogação existencial que lateja em cada detalhe guardado na memória e fixado num verso ou numa canção. Estes rapazes não estão aqui para mudar o mundo, mas mudarem-se a si na relação com o mundo. Não farão muito dinheiro, a Dublin de agora não será deles, mas nós é que já não somos os mesmos depois de os termos ouvido. “Is it too real for ya?” Não só não é, como queremos mais. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Titanic Rising
1. Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 Abril)

Não se pode atribuir a alguém como Weyes Blood o título de artista revelação de 2019, quando ela mesma já havia editado o imenso Front Row Seat to Earth em 2016. Contudo, não haja dúvida também que este ano, onde uma década finda e outra se inicia, é também o ano de consolidação de Natalie Mering como uma das mais proeminentes cantautoras americanas. Titanic Rising é o álbum dos álbuns para a Magazine.HD, um trabalho que sintetiza “a arte pop da década de 70 com uma força contemporânea toda sua”, recheado de canções sobre desejos desfeitos, sonhos que se adaptam, ilusões que se desmoronam. A esperança, essa, nunca se evapora: “Love is calling/ it’s time to let it through/ find a love that will make you/ I dare you to try”. (DR)




Melhores Álbuns de 2019 | Preferências (e irritações)

Weyes Blood - Melhores Álbuns de 2019
Weyes Blood (foto de Kathryn Vetter Miller)

Daniel Rodrigues

3 Melhores Álbuns de 2019

1. Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 de Abril)

2. Nick Cave & The Bad Seeds, Ghosteen (Ghosteen, 4 de Outubro)

3. Lana Del Rey, Norman Fucking Rockwell (Interscope, 30 de Agosto)

Álbuns mais sobrevalorizados de 2019

1. Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (Interscope, 29 de Março)

2. Ariana Grande, thank u, next (Republic, 8 de Fevereiro)

3. Tyler, The Creator, IGOR (Columbia, 17 de Maio)

Álbuns mais subvalorizados de 2019

1. MorMor, Some Place Else EP (Don’t Guess, 3 de Maio)

2. Beirut, Gallipoli (4AD, 1 de Fevereiro)

3. Angelo De Augustine, Tomb (Asthmatic Kitty, 11 de Janeiro)

Black Midi - Melhores Álbuns de 2019
Black Midi (foto de Dan Kendall)

Diogo Álvares Pereira

3 Melhores Álbuns de 2019

1. Black Midi, Schlagenheim (Rough Trade, 21 de Junho)

2. Fontaines D.C., Dogrel (Partisan, 12 de Abril)

3. Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 de Abril)

Álbuns mais sobrevalorizados de 2019

1. Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (Interscope, 29 de Março)

2. Angel Olsen, All Mirrors (Jagjaguwar, 4 de Outubro)

3. Big Thief, U.F.O.F. (4AD, 3 de Maio)

Álbuns mais subvalorizados de 2019

1. Katie Dey, Solipsisters (Run For Cover, 31 de Maio)

2. Xiu Xiu, Girl with Basket of Fruit (Polyvinyl, 8 de Fevereiro)

3. 55 Deltic, You Could Own an American Home (Kingfisher Bluez, 4 de Fevereiro)

Weyes Blood - Melhores Álbuns de 2019
Weyes Blood (pormenor da capa de Titanic Rising)

Margarida Seabra

3 Melhores Álbuns de 2019

1. Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 de Abril)

2. FKA Twigs, MAGDALENE (Young Turks, 8 de Novembro)

3. Black Midi, Schlagenheim (Rough Trade, 21 de Junho)

Álbuns mais sobrevalorizados de 2019

1. Ariana Grande, thank u, next (Republic, 8 de Fevereiro)

2. Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (Interscope, 29 de Março)

3. Angel Olsen, All Mirrors (Jagjaguwar, 4 de Outubro)

Álbuns mais subvalorizados de 2019

1. Hand Habits, placeholder (Saddle Creek, 1 de Março)

2. Black Midi, Schlagenheim (Rough Trade, 21 de Junho)

3. Katie Dey, solipsisters (Run For Cover, 31 de Maio)

Fontaines D.C. - Melhores Álbuns de 2019
Fontaines D.C. (foto de Daniel Topete)

Maria Pacheco de Amorim

3 Melhores Álbuns de 2019

1. Fontaines D.C., Dogrel (Partisan, 12 de Abril)

2. Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 de Abril)

3. Katie Dey, Solipsisters (Run For Cover, 31 de Maio)

Álbuns mais sobrevalorizados de 2019

1. Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (Interscope, 29 de Março)

2. Big Thief, U.F.O.F. (4AD, 3 de Maio)

3. Angel Olsen, All Mirrors (Jagjaguwar, 4 de Outubro)

Álbuns mais subvalorizados de 2019

1. Katie Dey, Solipsisters (Run For Cover, 31 de Maio)

2. Great Grandpa, Four of Arrows (Double Double Whammy, 25 de Outubro)

3. Haelos, Any Random Kindness (Infectious, 10 de Maio)

Sharon Van Etten - Playlist de Janeiro 2019
Sharon Van Etten (foto de Ryan Pfluger)

Rui Ribeiro

3 Melhores Álbuns de 2019

1. Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow (JagJagwuar, 18 Janeiro)

2. Bill Callahan, Shepherd in a Sheepskin Vest (Drag City, 14 de Junho)

3. Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 de Abril)

Álbuns mais sobrevalorizados de 2019

1. Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (Interscope, 29 de Março)

2. Tyler, The Creator, IGOR (Columbia, 17 de Maio)

3. Ariana Grande, thank u, next (Republic, 8 de Fevereiro)

Álbuns mais subvalorizados de 2019

1. Robert Forster, Inferno (Tapete, 1 de Março)

2. Tallies, Tallies (Fear of Missing Out, 11 de Janeiro)

3. Lower Dens, The Competition (Ribbon Music, 6 de Setembro)

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2 thoughts on “Os 25 Melhores Álbuns de 2019

  • E os Tindersticks? No treasure but hope

  • Cara Maria João, embora todos nós aqui apreciemos os primeiros álbuns dos Tindersticks, o trabalho mais recente da banda – incluindo este último disco – apesar de eficiente e sempre significativo, não tem sido tão relevante que sentíssemos essencial destacar numa lista de apreciação do ano musical, onde gostamos de chamar a atenção para os artistas que criaram alguma coisa de existencialmente profundo, de perfeitamente articulado, de inovador da prática artística, de sonoramente inconfundível e insubstituível, etc. Qualquer selecção será sempre limitada e deixará muitas obras meritórias de fora (e por aqui somos nós os primeiros a sofrer com todos os álbuns que ouvimos, estimámos e não conquistaram um lugar no topo!). O importante é que cada pessoa esteja segura do seu próprio juízo de gosto, podendo oferecer razões pelas quais a sua lista pessoal é de valor e recomendável a outros 🙂 Sugerimos mesmo que cada um conteste a nossa lista com uma outra alternativa, acompanhada de alguma justificação que possa convencer os restantes leitores a ouvir os álbuns da sua preferência. Muito obrigado pela sua interpelação, que revela uma estima pela arte musical e um envolvimento pessoal com aquilo que aqui recomendamos.

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