Mosaico de capas dos melhores álbuns de 2019

Os 25 Melhores Álbuns de 2019

Um ano de transição. Nos Melhores Álbuns de 2019 da MHD, culminam alguns artistas da década, por entre a estreia, longe da perfeição mas já poderosa, das bandas do futuro.

O consenso em arte nunca é fácil e menos ainda na música. Aqui o desacordo parece oscilar entre a veemência da convicção política ou futebolística e o desespero do insulto desdenhativo, com uma argumentação inútil pelo meio. E a dissensão não acontece apenas entre pessoas diferentes mas no espaço de uma mesma lista pessoal. Ordenar obras de arte é uma tarefa ingrata e até mesmo injusta, porque pressupõe que estes objectos sejam comensuráveis, quando na realidade são únicos e insubstituíveis, quer uns pelos outros, quer por qualquer explicação sua. Nem por isso deixa de ser um exercício racional e útil, se levado com a dose certa de ironia. Não é verdade que seja tudo igual (essa é precisamente a dificuldade), nem tudo bom e, por isso, merecedor de perpetuação na memória cultural. Uma lista como esta resulta tanto das idiossincrasias quanto dos pontos de contacto das listas pessoais de alguns membros da nossa equipa de música, obliterando muita divergência quanto aos álbuns de agora que deverão ser lembrados e ouvidos no futuro. Ainda assim, há entre nós um consenso de fundo quanto à realidade e o valor da arte, por oposição ao ruído comercial e mediático ou ao intuito de qualquer agenda política, pela qual convergimos na recusa de muita música pop que degrada ou empobrece a nossa humanidade e no abraço de um ideal que dê alento à vida e à história.

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Este foi um ano curioso, em grande parte por ser o último da década. Se a transformação de entretenimento rentável ou música pimba em vanguardismo iconoclasta foi menor em 2019 (como se poderá ver pelas nossas fileiras de sobrevalorizados), já as listas de final da década foram suficientes para nos irritar até ao final da próxima. Este ano, obras culminantes de alguns dos artistas mais icónicos dos 2010s conviveram com os carismáticos álbuns de estreia dos que prometem estar na vanguarda dos 2020s. Uma vizinhança ainda mais singular quando reparamos que no primeiro grupo estão sobretudo cantautores e produtores, enquanto no segundo o que temos são bandas. Esta clivagem de gerações e tendências musicais sugere uma época de transição que agrava a incomensurabilidade e dificulta, ainda mais do que é costume, a ordenação dos álbuns que, por um motivo ou outro, nos conquistaram ao longo do ano. A eleição dos Melhores Álbuns de 2019 só podia ser atribulada – renhida como foi a luta entre o que se tem por bom e aquilo que se prefere – e a lista final um corpus incoerente mas representativo do que melhor se fez este ano no rock alternativo e áreas confinantes.

No último olhar sobre o ano que passou, aqui presente nesta lista de Melhores Álbuns de 2019, é o futuro o que mais nos intriga e espicaça. A história musical desta década foi dominada pela narrativa do reinado da música urbana, pelo mito da morte do rock, já recorrente, e por um poptimismo, esse inédito. Por razões todas elas obscuras e algumas desonestas, instalou-se uma aversão escarninha à música colectiva de guitarra, particularmente nos casos em que não podia ostentar qualquer forma de diversidade (na moderna visão sociológica, onde todas as pessoas são convertidas em exemplares de uma classe qualquer, suponho que não conta como “diversidade” o facto de nenhuma pessoa ser igual a outra). Torna-se anedótico o ciclo de castigo (uhh?) com notas humilhantes e posterior reabilitação por que os críticos têm feito passar géneros como o emo, o pós-punk ou o shoegaze, mas nunca o silêncio sobre tudo o que nestas áreas se vai fazendo foi tão grande como nesta década. Sob a desculpa de que a inovação e o espírito contestatário estavam a irromper noutros lugares – como se a arte fosse apenas isto – ostracizou-se um imenso campo musical que tem vindo, nos últimos três anos, a regressar e emergir um pouco por todo o lado. No preciso momento em que a Pitchfork começou a reescrever o passado à luz da actual fortuna de que goza a música urbana (veja-se só a revisão de que foi objecto a sua lista dos melhores álbuns da década de 80), a nossa (e não só) lista dos Melhores Álbuns de 2019 sugere um futuro diferente, sempre maior e mais à frente do que qualquer narrativa.

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

2 thoughts on “Os 25 Melhores Álbuns de 2019

  • E os Tindersticks? No treasure but hope

  • Cara Maria João, embora todos nós aqui apreciemos os primeiros álbuns dos Tindersticks, o trabalho mais recente da banda – incluindo este último disco – apesar de eficiente e sempre significativo, não tem sido tão relevante que sentíssemos essencial destacar numa lista de apreciação do ano musical, onde gostamos de chamar a atenção para os artistas que criaram alguma coisa de existencialmente profundo, de perfeitamente articulado, de inovador da prática artística, de sonoramente inconfundível e insubstituível, etc. Qualquer selecção será sempre limitada e deixará muitas obras meritórias de fora (e por aqui somos nós os primeiros a sofrer com todos os álbuns que ouvimos, estimámos e não conquistaram um lugar no topo!). O importante é que cada pessoa esteja segura do seu próprio juízo de gosto, podendo oferecer razões pelas quais a sua lista pessoal é de valor e recomendável a outros 🙂 Sugerimos mesmo que cada um conteste a nossa lista com uma outra alternativa, acompanhada de alguma justificação que possa convencer os restantes leitores a ouvir os álbuns da sua preferência. Muito obrigado pela sua interpelação, que revela uma estima pela arte musical e um envolvimento pessoal com aquilo que aqui recomendamos.

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