Pormenor da Capa de Titanic Rising

As Melhores Canções de 2019

5. FKA twigs, “sad day” (MAGDALENE)

“sad day” é o ponto alto do último álbum de FKA TwigsMAGDALENE. Nesta faixa não acompanhamos a artista numa posição de exuberância ou superioridade, nem a canção ganha relevância pela sua intensidade ou pujança, mas é exatamente na sua tranquila prostração que esta faixa revela o génio da sua compositora. Sobressai uma FKA twigs envolta numa melancolia oriunda de um amor não correspondido, que nos é apresentado sob a forma de uma irresistível melodia de pop experimental. Acompanhada por um frágil sintetizador, a voz da cantautora destaca-se desde o momento inicial, divagando por entre súplicas aéreas que mais não revelam do que um estado de serenidade angustiada. Quando as palavras adquirem um peso mais significativo e quase inflamado, surge um sintetizador pesado que, associado mais tarde às notas explosivas do baixo, acaba por contrastar com aquela voz suave que se mantém praticamente inalterada. Há rumores de que será ainda lançado um videoclipe para acompanhar esta faixa, dirigido por Hiro Murai. No videoclipe, Twigs estará a praticar um estilo de wushu que envolve o uso de espadas, o que realçará com certeza o confronto entre o aparente estado de vulnerabilidade espelhado nos versos e o poder que esta canção revela ter. (MS)

Melhores Canções de 2019 | “sad day”

4. Vampire Weekend, “Harmony Hall” (Father of the Bride)

Numa competição aguerrida que evoca um exercício de treino, duas guitarras acústicas concorrem entre si em volteios barrocos. De seguida, soando clara e isoladamente na mistura, a voz de Ezra Koenig entoa a estrofe à qual se junta, na ponte, um percussivo e infeccioso piano. É assim que começa “Harmony Hall”, que se vai desenrolando até atingir o clímax instrumental, regressando depois, calmamente, ao seu elementar exercício inicial. Volvidos seis anos, os versos “I don’t wanna live like this but I don’t wanna die” regressam como uma velha memória envolta numa atmosfera distinta. Em “Finger Back” de Modern Vampires of the City, o verso surge no final da canção, encerrando a história do romance entre uma rapariga judia e um rapaz árabe. Em “Harmony Hall”, Ezra dá-lhe o destaque merecido. Este dístico, onde se fundem o desespero e a esperança, destaca-se agora numa canção onde as referências e as críticas políticas sobejam. Se a reprovação do contexto político em que vivemos, regido por ilusões de poder e riqueza, são o assunto que Ezra pretende abordar, isto não o impede de canalizar estes sentimentos controversos para a própria música (“Anger wants a voice, voices wanna sing/Singers harmonize ’til they can’t hear anything”), reavivando e reabrindo a esperança do que ainda está para vir. (MS)

Melhores Canções de 2019 | “Harmony Hall”

3. Lana Del Rey, “The Greatest” (Norman Fucking Rockwell)

O regresso de Lana del Rey não foi tão célere quanto desejaríamos. As canções foram sendo lançadas por entre espaços de tempo tão longuínquos que o trabalho discográfico que um dia as havia de juntar nunca pareceu vir a ser tão compacto e coeso como mais tarde se viria a confirmar. Um dos últimos singles de Norman Fucking Rockwell é este “The Greatest”, a melhor canção do álbum para a Magazine.HD e com direito ao pódio na lista de melhores canções de 2019. Num poema inteiramente dedicado àquilo que na língua portuguesa definiríamos como “saudade”, Lana expressa a sua nostalgia por um passado que, irremediavelmente, jamais voltará. Uma canção para ouvir no Dia do Julgamento (“Hawaii just missed that fireball / L.A. is in flames‚ it’s getting hot / Kanye West is blond and gone / “Life on Mars” ain’t just a song”), enquanto recordamos as relações, as pessoas, os lugares, os sentimentos. Só podia ser uma das canções do ano. (DR)

Melhores Canções de 2019 | “The Greatest”

2. Sharon Van Etten, “Seventeen” (Remind Me Tomorrow)

Quando Sharon Van Etten divulgou “Seventeen”, a 8 de janeiro de 2019, ainda nos debruçávamos sobre o melhor que a música nos havia oferecido em 2018 e, no entanto, já tínhamos consolidada a certeza de que esta (tremenda) canção não escaparia ao nosso anuário do ano corrente. Em “Seventeen”, Sharon Van Etten reflete sobre o passado de forma impiedosa: segurando os olhos de uma jovem de 17 anos que já não existe, e mostra-lhe como vai ser o seu futuro. Nesta canção auto-refletiva sobre a forma como a adolescente Sharon e a sua paisagem envolvente (as ruas de Nova Iorque) se transmutaram com o passar dos anos (“Downtown hotspot halfway up the street I used to be free /  I used to be seventeen”), Sharon Van Etten atinge um notável balanço entre o saudosismo e a admiração pelos sonhos de adolescente e o cinismo de olhar para o passado através da sensatez e sabedoria do presente. O clímax desta canção é um murro no estômago. Tão bem dado que hoje, mais de um ano depois, ainda estamos a sentir as dores. (DR)

Melhores Canções de 2019 | “Seventeen”

1. Weyes Blood, “Movies” (Titanic Rising)

Lembram-se da primeira vez que alguma vez ouviram a “Movies”? Lembram-se de ouvir o lento e interminável crescendo, paciente até ao limite da enervação? Lembram-se como, chegados aos três minutos e meio, foram surpreendidos por aquele violino vindo de outro mundo, com os seus acentos de música clássica contemporânea? Lembram-se como, pouco depois, de novo vos foi tirado o tapete de baixo dos pés quando as agressivas, retumbantes notas de baixo sintetizado entraram violentamente? É a surreal aproximação de universos tão distantes numa única, coerente e deliberada composição que torna este tema de Weyes Blood inesquecível. “Movies” é, sem dúvida, a mais inteligente canção pop do ano. Mas também uma das mais profundas e sobrenaturalmente emotivas. Lembram-se do êxtase sentido quando o infinito crescendo culminou no grito por uma história de carne e osso que seja só nossa? Nós lembramo-nos. Todas as vezes que a ouvimos e somos devolvidos à vida com a certeza de que não há nada como “the real things”, onde brilha o sentido da existência. (MPA)

Melhores Canções de 2019 | “Movies”

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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