Assim Nasce Uma Estrela, em análise

Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida e emoção a um novo remake de “Assim Nasce Uma Estrela” que parece estar destinado a ser um sucesso entre audiências, críticos e até com a Academia dos Óscares.

Algures na galáxia de estrelas luminosas de Hollywood, existe uma estrela que brilha intensamente. Ele é vítima de vícios que o destroem e um dia cruza-se com uma desconhecida cheia de talento por explorar. A estrela apaixona-se pela mulher e ajuda-a a tornar-se também numa estrela ainda mais luminosa que ele. Neste ecossistema de fama, só existe lugar para um número limitado de estrelas e quando uma nova nasce, outra morre e assim o homem apaixonado entra em imparável declínio. Quando a sua trajetória trágica ameaça destruir também a sua amada, ele morre e ela faz-lhe o luto. Assim é o conto de fadas que Hollywood mais gosta de contar sobre si mesma.

Em 1937, William A. Wellman trouxe a primeira versão oficial de “Assim Nasceu Uma Estrela” ao grande ecrã, cristalizando para sempre esta peça essencial na mitologia de Hollywood. Contudo, o filme sobre atores era já em si uma reinvenção de outra obra, “What Price Hollywood?”, mostrando, desde início, como esta é uma história destinada a ser contada e recontada até ao fim dos tempos. Em 1954, George Cukor filmou Judy Garland e James Mason como os dois amantes trágicos, desta vez com mais densidade psicológica e muitas canções, sendo esta versão um musical. A história havia ainda de sofrer outra transfiguração em 1976, quando Barbra Streisand e Kris Kristofferson representaram uma versão rock n’ roll do conto intemporal.

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A química entre Lady Gaga e Bradley Cooper é incrível.

Passados 42 anos, “Assim Nasce Uma Estrela” volta ao grande ecrã, numa versão que perpetua o drama da indústria musical inventado para Streisand, mas com adaptações a uma sensibilidade moderna, suas particulares estrelas e uma busca por autenticidade emocional que faz desta versão o raro exemplo de um melodrama de traços clássicos em pleno século XXI. Trata-se também da estreia de Bradley Cooper na cadeira de realizador e, de um modo geral, podemos afirmar que se trata de um triunfal primeiro passo numa nova fase da sua carreira. Contudo, convém dizer que este novo “Assim Nasce Uma Estrela” é precisamente o tipo de filme que esperaríamos ver com um ator prestigiado atrás das câmaras.

Este é um filme do mainstream e não um indie do circuito dos festivais, mas certas passagens remetem para um estilo mais ponderoso e interessado na crueza do comportamento humano à la John Cassavetes. Note-se, por exemplo, as várias instâncias em que uma cena se estende para além do narrativamente necessário, de modo a salientar as micro-expressões na cara dos atores, sua assimilação de informação e o peso dos silêncios. Esse não é o único truque na manga deste realizador estreante, somente um dos seus mais notáveis e um bom indicador da sua preocupação em documentar autenticidade emocional no trabalho dos atores em frente à câmara, onde o próprio Cooper se inclui.

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Aqui, ele é Jackson Maine, uma estrela country com uma carreira semelhante à de Eric Church, que um dia, em busca de bebida, cambaleia por um bar gay na noite em que drag queens sobem ao palco. Quem cativa a atenção do cantor não é nenhuma das concorrentes de RuPaul’s Drag Race que aqui agraciam o ecrã, mas sim uma mulher com o cabelo pintado de preto, com sobrancelhas de plástico coladas na testa e uma voz poderosa o suficiente para cantar “La Vie en Rose” com o estilo bombástico de uma estrela pop em estado de graça. Ela é Ally, uma mulher com sonhos de um dia vingar no mundo da música.

Ela é, também, Lady Gaga no seu primeiro papel principal em cinema. Cooper muito trabalha para esculpir, em conjunto com a atriz, uma prestação simultaneamente naturalista e capaz de ancorar o melodrama da premissa narrativa. De forma geral, Cooper e Gaga são bem-sucedidos, mas isso não significa que não existam alguns instantes de direção demasiado marcada ou rasgos de amadorismo. No início do filme, essas fragilidades acabam mesmo por ser uma peculiar benesse, dando a ideia que Ally pode ser insegura a não ser quando está  no palco, onde a sua presença explode e vemos o calibre de estrela em total esplendor. O florescer dessa confiança diante de espectadores é parte do que faz a primeira rendição pública de “Shallow” o momento alto deste “Assim Nasce Uma Estrela”.

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Este é um melodrama de linhas clássicas, com muita sinceridade emocional e muitas lágrimas.

Depois dessa cena, onde Jackson e Ally partilham o palco pela primeira vez, a estrutura narrativa torna-se um pouco desleixada, sendo que noções de continuidade espaço-temporal são atiradas borda-fora. O que fica é a intensidade emocional que Cooper e companhia trazem ao projeto, fazendo da trajetória trágica de Jackson o foco principal em detrimento da interioridade de Ally e a história de como ela passa de uma desconhecida a uma superestrela pop. Felizmente, Cooper, o ator, é glorioso e, não só é perfeitamente credível como um músico, mas ainda é mais impressionante enquanto um viciado cujas cicatrizes mentais são palpáveis.

No início do filme, Cooper é brilhante ao telegrafar o amor que Jackson tem por Ally em olhares carregados de adoração e dolorosa vulnerabilidade- Enquanto espectadores, acreditamos piamente no romance intoxicante destas duas pessoas com extraordinária química, mas nem o espectador nem Ally tem qualquer ilusão acerca do caco humano que serve de interesse romântico para a estrela em ascensão. Esta é principalmente a história de Jackson, mas não há temor ou vaidade no retrato que Cooper faz deste homem, sua feiura e mesmo a sua crueldade para com Ally quando insulta a música pop dela ou esfrega sal nas inseguranças que ela tem em relação à sua aparência.

“Assim Nasce Uma Estrela” nunca foi uma história feliz, mas esta é a sua variação mais cáustica. Tanto Cooper, como Gaga estão no seu melhor quando nos mostram a devoção que estes dois têm um pelo outro, mesmo em cenas onde a união dos amantes é claramente um detrimento para a sua sanidade mútua e sucesso profissional. A figura de Sam Elliott enquanto irmão mais velho de Jackson é o símbolo máximo desta natureza mais lacrimosa de “Assim Nasceu Uma Estrela”, personificando em si toda uma conglomeração de amor familial, ressentimento artístico e histórias do passado que ainda causam sofrimento no presente. Verdade seja dita, Elliott dá o desempenho do filme e é a grande prova em como Bradley Cooper é, acima de tudo, um excelente realizador de atores.

O filme não é isento de problemas, sendo que, a nível formal, quase todas as fraquezas do realizador estreante são disfarçadas pela fotografia exímia de Matthew Libatique. Em termos narrativos, não há grande escapadela aos problemas inerentes a algumas decisões dramatúrgicas, mas “Assim Nasce Uma Estrela” consegue elevar-se acima desses aspetos negativos. Com um final em que Gaga parece estar a homenagear as baladas de Whitney Huston e o legado de Barbra Streisand, este melodrama derradeiramente assume-se como uma experiência em sentimentalismo sem vergonha, cheio de sinceridade e muito amor, mesmo quando este produz mais dor que felicidade.

Assim Nasce Uma Estrela, em análise
Assim Nasce Uma Estrela

Movie title: A Star Is Born

Date published: 2018-10-11

Director(s): Bradley Cooper

Actor(s): Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, D.J. 'Shangela' Pierce, Willam Belli, Alec Baldwin, Barry Shabaka Henley, Michael D. Roberts, Michael Harney

Genre: Drama, Música, Romance, 2018, 136 min

  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 85
  • Rui Ribeiro - 90
  • Maria João Bilro - 88
  • Catarina d'Oliveira - 90
  • Catarina Novais - 90
87

CONCLUSÃO

“Assim Nasceu Uma Estrela” é um melodrama lacrimoso à moda antiga, com sensibilidades modernas e uma banda-sonora pronta a fazer as delícias de muitos. Enquanto atriz, Lady Gaga não é nenhuma revelação, mas suporta bem o drama emocional do filme, enquanto Bradley Cooper e Sam Elliott dão as prestações das suas respetivas carreiras. Não é um filme sem problemas, mas os seus aspetos mais gloriosos ofuscam as falhas.

O MELHOR: Quando Ally se junta a Jackson em palco para cantar “Shallow” e a expressão na cara de Sam Elliott quando está a fazer marcha-atrás.

O PIOR: As inconsistências geográficas e temporais da segunda metade, a relação complicada do filme com a importância e valor do artifício pop e a falta de interioridade psicológica de Ally são aspetos de possível defesa, mas a caricatura de um pérfido agente inglês como figura antagónica principal da narrativa é imperdoável.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho, assim como um cinéfilo devoto.

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