DocLisboa ’16 | Austerlitz, em análise

Austerlitz, o novo filme de Sergei Loznitsa, retrata um campo de concentração nazi tornado numa atração turística nos dias de hoje.

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“People watching” é o termo anglófono dado à atividade, quase um hobby para certas pessoas, de se ficar a observar multidões. É algo simples e quase intrínseco no ser humano, mas é também uma experiência que raramente tem espaço para existir no cinema. Habituados a cinema onde a ação e a reação guiam estruturas narrativas ou argumentativas, a maior parte das audiências não se encontra disponível para simplesmente observar o movimento de massas e encontrar algo de valor na crua e banal observação prolongada de seres humanos cuja interioridade lhes é misteriosa. Independentemente de ter uma audiência para isso, é certo que, se há um realizador que traduz a experiência de “people watching” numa linguagem cinematográfica, ele é Sergei Loznitsa.

No seu mais recente documentário, o cineasta ucraniano volta a focar a sua atenção na dinâmica de grandes grupos de pessoas e sua relação com um espaço específico. Em Maidan, ele examinou em épicos tableaux as pessoas reunidas na praça de Kiev aquando dos primeiros esforços revolucionários ucranianos em 2013, mas em Austerlitz, o seu foco é direcionado para o antigo campo de concentração e extermínio de Sachsenhausen-Oranienburg na Alemanha. Outrora uma fábrica de morte, agora este local é uma atração turística, visitada por milhares de pessoas que constituem o grande sujeito coletivo desta nova exploração cinematográfica de Loznitsa que as filma em planos estáticos e prolongados, onde o som é raramente inteligível devido à acumulação de vozes e discursos dispersos.

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Duas escolhas demarcam fortemente a diferença estilística entre Austerlitz e Maidan. Enquanto no filme anterior, era empregue uma escala épica e cores matizadas que davam a ideia de monumentais pinturas de guerra e mito, neste trabalho mais recente, o realizador escolheu aproximar mais a câmara dos seus sujeitos, mantendo-a ao nível dos olhos, e pintou as suas imagens a preto-e-branco de baixo contraste. Essa utilização do monocroma de ares clássicos num suporte digital estabelece imediatamente uma relação preciosa no âmago do filme, aquela entre o presente com os olhos postos no futuro, e um passado acutilante que ainda marca a sua presença na vida atual. Afinal, o que ainda une estas pessoas ao museu de horrores por onde eles se passeiam? Será que eles deviam mostrar-se mais simpatéticos e solenemente respeitosos? Ou será um bom sinal que tantas destas pessoas andem por este antigo campo de extermínio e se comportem como indivíduos perfeitamente alienados dos potenciais para o mal humano que o espaço em si materializa?

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Loznitsa, como é seu modus operandi, não nos oferece nenhum tipo de resposta definitiva às questões que o seu trabalho desperta, mas isso também não implica que Austerlitz seja apenas uma solene e sufocante ponderação intelectual. Na verdade, com alguns ajustes, este filme poderia ser quase uma comédia observacional de Jacques Tati, tal é o modo como se pede à audiência que explore com o seu olhar as multitudes de atividade que enchem as composições carregadas de informação. E, tal como aconteceu com esse discípulo francófono de Chaplin,  Loznitsa oferece à sua audiência uma coleção de momentos que poderão suscitar muitos risos, talvez não tanto por jubilo genuíno e despreocupado, mas por vergonha alheia ou desconfortável mortificação.

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Um bom jogo para se fazer enquanto se navega pelos tableaux de multidões em Austerlitz é tentar ler as variadas mensagens nas t-shirts dos turistas, muitos deles adolescentes ou jovens de vinte e poucos anos. Uma memorável vestimenta, que aparece várias vezes ao longo do filme, afirma que “Eu Sobrevivi ao Red Wedding” em espanhol, enquanto outra inocentemente pede “Hugs & Pugs” em contraste com o festim de profanidade que é a camisola que apresenta a mensagem “Fuck You, You Fucking Fuck”. Também de interesse poderá ser uma catalogação das selfies risonhas e fotos posadas que os visitantes tiram, incluindo uma crassa ocasião em que um turista simula a posição de um prisioneiro suspenso num poste. Ou então, um espetador pode encontrar interesse no modo como uma rapariga passeia em zigue-zague pelo corredor das celas/dormitórios, concedendo algumas frações de segundo da sua atenção a cada quarto. Em resumo, este é um filme cheio de idiossincrasia humana que está bem presente, para quem, quer que seja generoso o suficiente para se deixar levar pela exploração humilde do cineasta observador.

Também é verdade, contudo, que muitos serão os membros da audiência que se mostrarão frustrados face a um documentário supostamente sobre o Holocausto que se foca quase exclusivamente nas dinâmicas de multidões desinteressadas. Para esses espetadores, Loznitsa vai preenchendo as paredes amorfas de ruído com as vozes de guias turísticos de diversas nacionalidades. Se a construção visual ainda não tinha esclarecido quão este filme trata das barreiras e ligações entre o presente os traumas da História, então estas passagens verbais tornam o tema em algo inescapável. Se alguns guias são frios e diretos na sua estipulação de factos e números, outros puxam pela emoção de modo quase sensacionalista, na mesma medida que outros utilizam esta oportunidade para falarem das suas perspetivas pessoais sobre o Holocausto, como um guia que fala de mesquinhice política na raiz de todo esse horror, enquanto um americano usa a visita guiada como plataforma para explicar que a esperança e a humildade são emoções negativas e que apenas da abjeta falta de esperança pode nascer a revolução, aparentemente ignorando as grandes revoluções despoletadas por questões ideológicas nos últimos séculos de História.

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Ignorando tais discursos e espetáculos de idiotice coletiva, há que referir como, muito raramente, Austerlitz abandona a sua observação de multidões e se restringe a uma escala mais pessoal e individual. Uma dessas variações estilísticas ocorre perto dos crematórios, onde a câmara se encontra ao lado de uma placa informativa. Aqui, Loznitsa não nos está a retratar grupos, mas algo muito mais pequeno, o modo como cada pessoa encara e assimila a informação que lhes é dada. Vemos várias pessoas lerem, algumas na diagonal e sem prestar atenção, mas outras que ficam fixadas na placa, ilustrando com a sua expressão as informações horripilantes que estão a descobrir ou reafirmar.

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Nesses momentos, Austerlitz mostra realmente como é um filme sobretudo sobre a experiência humana. Mesmo quando o comportamento dos turistas deixa muito a desejar, Loznitsa nunca impõe qualquer tipo de julgamento jocoso, limitando-se a uma observação mais ou menos objetiva, e vai assim sempre sublinhando o valor da vida e da experiência humana, algo que os criadores destes lugares de extermínio rejeitaram. Nas sua imagens finais, este documentário recorda um dos primeiros filmes dos irmãos Lumiére, ao testemunhar a saída dos turistas pelo portão principal desta fábrica e, por muito que queiramos criticar a atitude de muitos destes visitante, há algo de profundamente libertador no tableaux. Ao contrário de milhares de outras pessoas que entraram neste campo, os indivíduos em cena podem sair livres e incólumes e volta às suas vidas, bem distantes do tipo de horrores testemunhados pelas paredes das câmaras de gás ou pelos fornos dos crematórios.

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O MELHOR: O Holocausto e suas marcas na vida atual são temas recorrentes no cinema, de tal modo que podemos quase criar um subgénero, mas é raro encontrar um autor que esteja disposto a olhar estas questões de modo original e arriscado. É isso que Loznitsa faz em Austerlitz, apresentando um filme que para muitos será difícil de apreciar, mas que merece respeito por abordar o Holocausto com cáusticas doses de ousadia e criatividade.

O PIOR: Os membros da audiência que, irritados com a inação do filme, decidem permanecer na sala, comentando audivelmente o seu desassossego e aborrecimento e assim envenenando a experiência de outros espetadores mais generosos e abertos ao tipo de exploração que Austerlitz se propor a fazer.


 

Título Original: Austerlitz
Realizador:  Sergei Loznitsa

DocLisboa | Documentário, História | 2016 | 94 min

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