DocLisboa’16: O Que É (Competição) Nacional É Bom!

‘Ama-­San’, de Cláudia Varejão, uma viagem por vezes debaixo de água, às mulheres-pescadoras de pérolas no Japão foi o vencedor da Competição Nacional. O palmarés do DocLisboa’16, sobretudo o nacional, demonstra o vigor do documentário português, além de uma enorme presença de mulheres a realizá-los e a serem premiadas.

Ama-San

O palmarés do Doclisboa’16, sobretudo na Competição Nacional — constituída este ano por doze filmes, indiscriminadamente de curta e longa-metragem — mostra que o bom momento do documentário português, está cada vez mais dependente da sensibilidade feminina. O vencedor escolhido pelo júri formado pela artista britânica Emily Wardill, pela cantora portuguesa Alexandra Carmo (a Xana dos Rádio Macau) e pelo programador Mads Mikkelsen, — tem o mesmo nome que o grande actor dinamarquês — foi Ama­-San, de Cláudia Varejão, um envolvente retrato de três gerações de mulheres-mergulhadoras japonesas, que diariamente pescam ouriços e vieiras, pois as pérolas escasseiam nas costas do Japão.

Vê o trailer: Ama-San

O mesmo júri da Competição Nacional atribuíu prémios transversais nas várias secções: o Prémio José Saramago foi para Correspondências de Rita Azevedo Gomes, um ensaio documental sobre as cartas entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, no tempo da ditadura salazarista e a ânsia de ambos pela liberdade; o Prémio Público de Melhor Curta-Metragem (transversal igualmente nas várias secções) foi para Downhill, do português Miguel Faro, sobre a cultura skate.

Na competição nacional foram premidos ainda a co-produção luso-brasileira A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha (Prémio Kino Sound Studio) e O Espectador Espantado (Prémio Escolas ETIC), um ensaio sobre o cinema e a imagem, de Edgar Pêra. Cruzeiro Seixas — As Cartas do Rei Artur é um filme de Cláudia Rita Oliveira sobre o artista plástico Cruzeiro Seixas e sobre a sua relação com Mário Cesariny, recebeu o Prémio do Público para Melhor Filme português.

Duas outras curtas nacionais venceram a competição de filmes de escola Verdes Anos – Pulse, de Robin Petré (Grande Prémio) e O Cabo do Mundo, de Kate Saragaço-Gomes (Prémio Especial do Júri), assegurando assim uma maioria feminina na premiação.

O Espectador Espantado

Ama-San, o vencedor da Competição Nacional é uma obra extraordinária filmada por vezes debaixo das águas e nos fundos marinhos dos mares do Japão. O filme é precisamente sobre as ‘ama’ — que em japonês significa ‘mulheres do mar’ —, uma profissão ancestral de mulheres-mergulhadoras, que se dedicam à arte de procurar tesouros no fundo do mar, e tradicionalmente passava de mães para filhas.

Cláudia Varejão segue três gerações destas mergulhadoras ao mesmo tempo que vai descrevendo as técnicas rudimentares e os aspectos culturais desta tradição, que continua a existir apesar dos avanços tecnológicos do mergulho. Ama-San apesar de registar aspectos longínquos à nossa cultura tem a particularidade de à custa de uma excelente fotografia e sensibilidade de argumento criar-nos uma sensação de proximidade e empatia com aquelas mulheres, que combinam o lento formalismo e exigência da tradição japonesa, com uma certa sensualidade.

A Cidade onde Envelheço

De Belo Horizonte também para a Competição Nacional veio um dos filmes — o vencedor do Festival de Cinema Brasileiro de Brasilia — mais estimulantes desta competição: A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha, embora em termos formais, seja mais uma ficção baseada em vidas e personagens reais, do que propriamente um documentário. No entanto, a contaminação entre o real e a ficção em muitos aspectos é uma das tendências do cinema contemporâneo.

A Cidade Onde Envelheço da brasileira Marília Rocha, é um filme que tem tanto de belo como simples, que conta a história de duas amigas portuguesas, radicadas em Belo Horizonte, perdidas entre a vontade de ficar ou regressar a Portugal. Trata-se de um retrato geracional de duas jovens mulheres na cidade, e de uma cidade que se torna aos poucos também personagem de A Cidade onde Envelheço. Francisca (Francisca Manuel) tem 30 anos e vive quase há um ano em Belo Horizonte. As suas rotinas são interrompidas de repente com a chegada de Teresa (Elizabete Francisca), uma velha amiga de Francisca, que já não via há muito tempo. Teresa transborda alegria e energia, e o seu carácter vai agradando cada vez mais a Francisca, embora esta não queira ninguém a partilhar a sua vida e a sua casa.

Vê o trailer: A Cidade onde Envelheço

A relação entre estas duas mulheres de personalidades opostas, vai evoluindo ao mesmo tempo que ambas partilham um dilema existencial: qual será a cidade e o sítio ideal para envelhecer? Francisca e Teresa tem uma visão algo romântica da vida, ao nivel das imagens, sensações e sentimentos, algo que é partilhado com os espectadores graças ao realismo extremo dos diálogos e situações. E depois há a cidade de Belo Horizonte, uma das cidades menos turísticas, com a sua cultura local bem representada nos detalhes, cores, costumes, tradições, música e energia, tudo filmado com um extremo bom gosto, quase numa pintura viva, num excelente retrato do Brasil de hoje, que acaba por ter influência nas personagens. É evidente, que este registo realista segue naturalmente um percurso de Marília Rocha como documentarista, para além do talento de um elenco notável — sobretudo das duas protagonistas — constituído por actores não-profissionais, muito bem dirigidos, pela realizadora.

Vê também: Cinema Futures, em análise

Por sua vez O Espectador Espantado, de Edgar Pêra, manteve nesta Competição Nacional as preocupações dos últimos tempos do seu realizador (Cinesapiens, 2012). Pêra questiona novamente as experiências cinematográficas de ser espectador de cinema, quando os modos e lugares de ver se estão a alterar radicalmente. O documentário é estruturado em torno de depoimentos filmados em salas de cinema, e depois tratados com sobreposições visuais e sonoras. O Espectador Espantado, de Edgar Pêra, — tal como Cinema Futures, de Michael Palm — questiona, procura dar respostas e sobretudo reflectir de uma forma mordaz e crítica o perfil do espectador contemporâneo de cinema: Olaf Möller, um dos críticos que dá um depoimento — entre outros, como Augusto M. Seabra ou Laura Mulvey — preconiza uma espécie de inferno, como o lugar dos espectadores que mexem no telemóvel durante as projecções de cinema.

Cruzeiro Seixas

Cruzeiro Seixas — As Cartas do Rei Artur de Cláudia Rita Oliveira é retrato de um sobrevivente, um filme sobre a figura do pintor e poeta, da geração dos surrealistas portugueses e dos seus companheiro, entretanto praticamente desaparecidos.

Vê o trailer: Cruzeiro Seixas — As Cartas do Rei Artur

A estrutura do documentário também a concurso na Competição Nacional é bastante convencional, mas a presença de Cruzeiro Seixas, ainda vivo e lúcido — e carregado de humor —  confere-lhe uma importante densidade dramática e uma ilustrada ponte entre o presente e as memória do passado — sobretudo da relação com Mário Cesariny —, muito bem documentada: cartas, desenhos, poemas. Cruzeiro Seixas — As Cartas do Rei Artur é uma espécie de retrato na primeira pessoa, um ‘filme-arquivo’, que outras grandes figuras da cultura portuguesa mereciam que se lhe tivesse feito e que outras ainda vivas urge o tempo para registá-las.

Downhill

Entre as curtas-metragens premiadas há a destacar o belíssimo Downhill, de Miguel Faro, um filme-ensaio uma espécie de ‘velocidade furiosa’ sobre os skaters, numa obra cheia de movimento, que regista o bailado, a rapidez e a técnica de andar às voltas e aos saltos em cima de um patim, por Lisboa e sobretudo a descer a Avenida da Liberdade.

PALMARÉS NACIONAL DO DOCLISBOA 2016

Competição Nacional

Grande Prémio: Ama­-San, de Cláudia Varejão
Prémio Kino Sound Studio: A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha

Prémio Escolas: O Espectador Espantado, de Edgar Pêra

Prémio Verdes Anos (curtas de escola)
Grande Prémio: Pulse, de Robin Petré
Prémio especial do júri: O Cabo do Mundo de Kate Saragaço-Gomes

Prémios transversais

Prémio José Saramago: Correspondências, de Rita Azevedo Gomes

Primeira obra: 300 Miles, de Orwa el Mokdad

Prémio PÚBLICO de curta-metragem: Downhill de Miguel Faro

Prémio do Público: Cruzeiro Seixas, as Cartas do Rei Artur de Cláudia Rita Oliveira

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