Top 10 cinema italiano | 8. A Aventura

No seu minimalista A Aventura, Michellangelo Antonioni concebeu um ousado retrato de um mundo obsoleto e povoado por zombies apáticos que não conseguem comunicar entre si, alienados de tudo o que os rodeia e de si próprios.

 

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Título Original: L’Avventura
Realizador:  Michelangelo Antonioni
Elenco:  Monica Vitti, Lea Massari, Gabriele Ferzetti 
1960 | 143 min


 

A Aventura, a grande obra-prima de Michelangelo Antonioni, propõe-se como uma narrativa sobre o misterioso desaparecimento de uma mulher durante um cruzeiro na costa siciliana. A partir dessa inexplicável ocorrência, o filme segue uma das amigas da desaparecida, enquanto esta vai procurando a companheira e desenvolve uma relação amorosa com o amante da mulher que inicialmente busca. Para frustração de muito público, o filme depressa ignora qualquer tipo de resolução, tornando-se, ao invés, numa prolongada ponderação sobre uma sociedade de seres humanos vazios e letárgicos. Qualquer estruturação dramática é monstruosamente violada, com eventos a sucederem sem qualquer causa ou razão e os acontecimentos narrativos indo-se assim precipitando. Simplesmente acontecem numa teia de acaso e inconsequência.

A Aventura

Ao invés de construir retratos psicológicos em que o estilo do filme complementa e exterioriza o pensamento e emoção das suas personagens, Antonioni filma os seus atores como elementos visuais no espaço. A sua mise-en-scène é comandada pelo modo como o realizador encara o vazio e a isolamento humano, nunca se preocupando com a perspetiva dos seus sujeitos, e, consequentemente, criando uma enorme distância entre a audiência e os atores em cena. As pessoas são secundários ao espaço em que se inserem e, mesmo depois da presença humana desaparecer, Antonioni prolonga os seus planos, simplesmente olhando salões vazios, escarpas rochosas e paredes brancas, como que permitindo que a opressiva existência do espaço tenha o poder de extinguir a presença humana como uma chama privada de oxigénio. As próprias ações das personagens, longe de serem consequências da sua psicologia, são apenas elementos formais, abstrações de tempo e movimento que tomam uma forma superficialmente humana, tão incompreensíveis para os seus observadores e para as pessoas que as vivem.

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Depois de uma carreira cheia de documentários e filmes narrativos que receberam pouco reconhecimento, Antonioni estreou esta obra no festival de Cannes de 1960, exibindo o primeiro capítulo da sua imprescindível trilogia da alienação. Inicialmente recebido com uma manifesta hostilidade por parte das audiências que nunca tinham sido confrontadas com o tipo de frieza estilística de Antonioni, A Aventura depressa foi defendido por cineastas e críticos como um dos mais importantes filmes feitos até então na história do meio. Hipnótico, difícil e apresentado sem compromissos estilísticos, é fácil perceber o fascínio que A Aventura tem despertado nos amantes de cinema de todo o mundo desde a sua estreia.

Antonioni rejeitou o realismo psicológico com alienação e distância, o autor do filme que se segue na nossa lista, pelo contrário, foge ao realismo a partir de uma enlouquecida explosão de estilo tão alucinatório como absolutamente aterrador.

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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