A Balada de Adam Henry critica

A Balada de Adam Henry, em análise

Em “A Balada de Adam Henry”, Emma Thompson é uma juíza no precipício de uma crise matrimonial que tem de decidir se as crenças religiosas de um jovem Testemunha de Jeová são razão suficiente para que o hospital não lhe administre tratamento.

Para um escritor ateu que, em diversas ocasiões e contextos, demonstrou uma certa repulsa pela ideia de Deus enquanto conceito, construção social e criador do centro moral da Humanidade, Ian McEwan tem uma obra estranhamente dominada por questões de fé e do divino. Em “A Balada de Adam Henry”, McEwan, que escreveu a adaptação cinematográfica do seu próprio livro, apresenta-nos uma divindade terrena. Ela é a Juíza Fiona Maye, uma figura de poder e responsabilidade divina na Terra graças ao ato da decisão.

Enquanto juíza da Alta Corte da Justiça, Fiona faz a vida a formular decisões, muitas das quais envolvem a vida de crianças. Quando a encontramos, ela está a encerrar um caso referente a dois gémeos siameses recém-nascidos, um dos quais é muito mais saudável que o outro. Se a vontade dos pais se mantiver, os dois bebés provavelmente morrerão, mas se ela decidir a favor do hospital queixoso, os gémeos serão separados e o saudável irá muito provavelmente sobreviver enquanto o seu irmão irá certamente perecer.

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McEwan usa o drama humano para examinar moralidade e a construção do divino.

Seguindo a letra da lei, Fiona decide a favor do hospital, contabilizando a vida de um bebé saudável acima de dois mortos. Efetivamente, ela está a exercer um poder que muitas pessoas julgariam exclusivo de Deus. Ela decide quem vive e quem morre e a sua palavra é final, a sua vontade faz-se no mundo e há pouco que os meros mortais podem fazer para alterar o seu resultado. Tal é a complexidade das ramificações morais subjacentes a este caso introdutório que o espectador entende de imediato como é que Fiona se pode deixar consumir pelas responsabilidades do seu trabalho. Apesar de algumas relações de amizade e colaboração artística enquanto pianista, a vida social de Fiona é limitada e a sua relação com o marido está no precipício da separação.

Não há aviso que a prepare para o cataclisma doméstico que é o ultimato de Jack Maye, marido de Fiona. Depois de meses em que praticamente o casal nunca tem qualquer tipo de contacto íntimo, ele já não aguenta e diz à mulher que vai ter um caso extraconjugal. Noutras histórias, este drama matrimonial seria um epíteto de melodrama garantido. Em contraste, aqui a audiência não tem permissão para tomar conclusões morais definitivas. Esta é uma situação intelectual e emocionalmente densa, complicada, sem vítimas ou vilões fixos, onde uma dinâmica de poder sofre reviravoltas inesperadas e a ordem do mundo parece dar uma cambalhota na cabeça de Fiona.

Ela, autoridade que decide, é catapultada para uma situação onde o seu marido lhe retirou qualquer tipo de autonomia. A decisão está feita, não há nada que ela possa fazer, a não ser confrontar o estado em que a sua vida pessoal está e talvez até refletir sobre o seu papel na rutura do seu relacionamento. O desafio ao poder da juíza no panorama doméstico é como uma infeção que se alastra pela sua vida, mesmo a nível profissional. Certamente os seus colegas habituadas à rotina ritualista do tribunal britânico estranham o comportamento de Fiona, especialmente no que se refere ao caso cuja principal figura dá nome ao filme.

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Adam Henry é um rapaz de 17 anos com leucemia, cujos tratamentos requerem uma transfusão de sangue ou ele irá rapidamente sofrer uma morte grotescamente dolorosa. Devido às crenças religiosas que lhe foram incutidas pelos pais e sua comunidade, Adam recusa o tratamento, citando os dogmas das Testemunhas de Jeová. Cabe a Fiona decidir se o hospital pode forçar o tratamento ou não e, num gesto sem precedentes, ela decide visitar o rapaz no hospital. O encontro muda a vida de Adam, que começa a questionar as figuras de autoridade na sua vida e fica obcecado com a juíza cuja decisão acaba por lhe salvar a vida.

Mais detalhes seriam spoilers a mais, pelo que resta dizer que o quarto de hospital não é o único ponto de encontro de Fiona e Adam e que o casamento dela não simplesmente terminou no dia do ultimato. Em “A Balada de Adam Henry” nada é assim tão simples ou de fácil e limpa conclusão. De facto, é a complexidade ideológica que se sente a brotar do texto que nunca deixa o espectador esquecer-se do facto que esta história já existe nas páginas de uma grande obra literária, mesmo que comparar cinema e literatura seja um exercício de pura futilidade. São artes inexoravelmente diferentes com modos de expressão, ferramentas e consumos incompatíveis.

Contudo, muitos são os cineastas que tentam levar grandes livros ao grande ecrã e “A Balada de Adam Henry” nem é a primeira obra de McEwan a receber o tratamento. “Expiação” é a melhor delas em parte porque aborda o livro de uma perspetiva crítica, que reformula o esqueleto ideológico da narrativa e, mais do que traduzir a prosa em termos audiovisuais, oferece uma leitura pessoal sobre alguns dos temas levantados pelo autor enquanto descarta outros. O grande problema de “A Balada de Adam Henry” é que McEwan, como autor original, nunca oferece essa leitura pessoal, limitando-se a transferir passivamente a narrativa base das páginas para o ecrã.

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O elenco é a arma secreta do filme, especialmente a sublime Emma Thompson.

O estilo de Richard Eyre enquanto realizador também não oferece nenhum tipo de discurso formal para complementar as ideias levantadas pelo argumento e o resultado é uma obra que é mais um anúncio para a qualidade do livro do que um filme que consiga viver por si mesmo. As indagações de McEwan sobre a construção moral que o ser humano impõe no mundo moderno e a criação de figuras proto divinas como rodas na engrenagem social são mais interessantemente articuladas em texto que em cinema. O único elemento em cena que justifica a existência deste exercício fílmico é o modo como o seu elenco dá vida às figuras da história e lhes concede uma vitalidade e nuance que nem mesmo o autor original conseguiu.

Stanley Tucci, por exemplo, transborda claridade psicológica e emocional num papel de monumental risco, pois o espectador está sempre predisposto a tomar opiniões extremas acerca das suas ações face a Fiona. Como Adam Henry, Fionn Whitehead transcende o papel da sua personagem enquanto megafone pelo qual McEwan pode confrontar o espectador com sua retórica complicada, suas dúvidas e desafios à ordem social e ao artificio do dogma religioso, judicial e social. Até a sua misteriosa obsessão com Fiona se torna em algo entendível e comovente, tal é o turbilhão de imaturidade mesclada de terror existencial que o ator consegue conjurar num olhar inseguro.

Com isso dito, o filme pertence a Emma Thompson que aqui oferece um dos seus retratos mais complexos dos últimos anos. Fiona é uma pessoa abrasiva, insuflada de poder, mas ciente de obrigações, dever e moralidade. É grandiosidade divina e pequenez humana. Ela é vítima e vilã no seio matrimonial e é objeto de desejo, salvação e renúncia aos olhos de Adam. Ela é tudo isso e Thompson toca todas as notas da sua personagem com a destreza da melhor pianista do mundo, capaz de conjurar toda uma sinfonia de verdade humana num gesto. Quando ela se vai abaixo, é como se o peso do universo nos esmagasse enquanto espectadores do seu suplicio. Quando ela exerce o seu poder, somos amedrontados pela autoridade que irradia da sua postura e expressão decidida. “A Balada de Adam Henry” não um grande filme, mas Thompson faz deste um evento cinematográfico de visionamento mais que obrigatório.

A Balada de Adam Henry, em análise
A Balada de Adam Henry

Movie title: The Children Act

Date published: 2018-09-20

Director(s): Richard Eyre

Actor(s): Emma Thompson, Stanley Tucci, Fionn Whitehead, Ben Chaplin, Jason Watkins, Rosie Cavaliero, Anthony Calf, Nikki Amuka-Bird, Eileen Walsh

Genre: Drama, 2017, 105 min

  • Cláudio Alves - 68
  • Filipa Machado - 65
67

CONCLUSÃO

Muito graças às suas raízes literárias, “A Balada de Adam Henry” é um filme concetualmente denso que tem tanto a dizer sobre a construção moral da sociedade como sobre as dinâmicas matrimoniais que essa mesma construção influencia. Umas quantas metáforas musicais e indagações teológicas também marcam presença. Infelizmente, a abordagem formal é tão banal que é quase anónima e fragiliza o projeto. Ainda bem que o elenco está à mão para revitalizar a obra e dar-lhe razão para existir no grande ecrã.

O MELHOR:
A divinal Emma Thompson!

O PIOR: Richard Eyre, cuja abordagem faz do filme indistinguível de uma coleção infindável de dramas jurídicos da televisão britânica.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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