Barry Lyndon, em análise

Barry Lyndon de Stanley Kubrick está de volta aos cinemas, uma honra para o filme e para as suas audiências, que agora podem observar um dos mais belos filmes de sempre no seu máximo esplendor.

Barry Lyndon

Poucos serão os cinéfilos que não admiram Stanley Kubrick ou que, pelo menos, o olham com módico respeito. Apesar dos seus filmes serem usualmente caracterizados por uma severa formalidade e estudada desumanidade por meio de estetização, ele é um dos realizadores mais respeitados da história do cinema, sendo que alguns dos seus filmes como Dr. Strangelove e 2001: Odisseia no Espaço têm lugar de primazia na maior parte das listas sobre os melhores filmes alguma vez feitos. Mesmo tendo tudo isso em conta não é de admirar, contudo, que aquela que é a sua mais impessoal e desumana obra seja também a sua mais subvalorizada. Falamos, pois claro, de Barry Lyndon, a adaptação que Kubrick fez do romance homónimo de William Makepeace Thackeray, onde se conta a história de vida de um trapaceiro irlandês que, no século XVIII, consegue escalar a hierarquia social até se tornar num nobre inglês, mas que, no final, tudo perde.

Antes de abordarmos a questão estética – indubitavelmente o aspeto central de todo este projeto – há que apontar como, apesar do que muitos críticos pronunciam, Barry Lyndon não tem falta de enredo ou inteligível narrativa. É certo que Kubrick desdobra o texto de Thackeray numa funérea sucessão de eventos que dura três horas e que o estudo da personagem central nunca é mais do que meramente superficial, mas isso não invalida a existência de uma linha narrativa. Esta é a história de Redmond Barry, um irlandês de classe média no século XVIII que após um fracassado romance terminar num duelo, foge da sua terra natal em direção a uma aventurosa vida. Na Europa, trabalhando para o exército Prussiano durante a Guerra dos Sete Anos, ele é encarregue de espiar as atividades de um vigarista de origem irlandesa, mas acaba por auxiliar o seu compatriota a se escapar e forma uma aliança com ele. Juntos, deambulam pela Europa num frenesim de jogo, duelos e fortunas ganhas e perdidas, acabando por se separarem quando Barry maneja imiscuir-se na vida de Lady Honoria Lyndon. Depois da morte do marido dela, eles casam, ele estoira a fortuna da mulher, trata-a mal, e enfurece e desonra o enteado até que este decide, de uma vez por todas, livrar-se do irlandês.

barry lyndon

Como podemos verificar, enredo é o que não falta a Barry Lyndon, mas é fácil ver como a narrativa é o que menos interessa a Kubrick cujas ambições são muito mais cinemáticas. Afinal, o cinema é um meio essencialmente visual (ou audiovisual se considerarmos a produção pós-1927) e a narrativa é apenas um elemento facultativo à sua existência, apesar do que as sensibilidades mais mainstream possam proclamar. Kubrick sabia e acreditava nisto, de tal modo que ele tudo faz para subverter o conteúdo textual do filme, subjugando-o à posição de negligenciável suporte de trabalho. Para conseguir isso, o mais genial golpe do cineasta foi mesmo a escolha do seu ator principal. O sensabor Ryan O’Neil mal consegue manter um sotaque irlandês congruente e, ao longo do filme, nunca consegue telegrafar qualquer interioridade na sua personagem, tornando o centro humano de Barry Lyndon num vácuo, uma página em branco cuja única funcionalidade é propulsionar o movimento da história e sua viagem pictórica.

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Esse vácuo humano é uma constante na obra de Kubrick e é uma ferramenta que o realizador nunca usou melhor que aqui. Afinal, sem conseguirmos ter empatia para com o protagonista, a crueldade do texto de Thackery salta à vista e Kubrick consegue daí destilar da complicada narrativa as estruturas sociais do século XVIII em que a história se desenrola, o verdadeiro sujeito do filme. Entenda-se que Barry Lyndon não é, como é usual neste tipo de adaptações literárias, um filme sobre História ou sobre o indivíduo, mas é mais um estudo de fachadas que pouco se interessa pelo que está escondido atrás delas. A superfície do mundo de Lyndon é mais importante que a sua essência, e a ritualização da vida humana em torno de rígidas normas de conduta ditadas por uma sociedade ancestral é a força motriz que propulsiona as escolhas rítmicas de Kubrick, assim como as suas célebres façanhas técnicas e estéticas.

barry lyndon

Ver Barry Lyndon é algo semelhante à experiência de ver a coleção de pintura setecentista de um grande museu. Só que aqui os tableaux movem-se, não parecem ter muita vida mas têm movimento e os humanos estão presentes como bonecos articulados, sem personalidade ou psique individual, que se vão posicionando numa série de situações e gestos predeterminados ora pela sociedade ou pela simples beleza da sua apresentação formal. Há quem diga que ver este filme é como ver tinta secar, o que não está propriamente errado. Mas, para uma audiência com uma predisposição generosa ou um espetador que encare o filme como espetáculo estético essa experiência estará longe de ser negativa.

Afirmamos isto porque Barry Lyndon é um dos mais belos filmes da história e a sua fotografia é algo tão revolucionário como maravilhoso. Para capturar o tipo de profundidade, cor e luz próprias da pintura do século XVIII, Kubrick e o seu diretor de fotografia, John Alcott, desenvolveram lentes especiais com aberturas imensas e baseadas na tecnologia usada para telescópios de satélites. Isto permitiu que se filmassem cenas apenas com auxílio de luz de velas, sem um único toque de artificialismo moderno. O resultado deste trabalho, especialmente quando apreciado em conjunto com a cenografia, os figurinos e a caracterização, tem o efeito de recriar, como nenhum outro filme voltou a fazer, a imagem de uma época do passado.

Barry Lyndon

Essa magnificência formal, há que entender, nunca se traduz em nenhuma visceralidade. O uso de zooms, lentes telescópicas e a ausência de qualquer noção de profundidade espalmam a imagem, esvaziando-a de fisicalidade e transmutando-a naquilo que ela é neste contexto, essa já referida pintura animada. A música, baseada e adaptada de Händel e outros compositores da época, ajuda a definir ainda mais essa distância e qualidade pictórica, enfatizando os ritmos repetitivos e quase hipnotizando a audiência pelo caminho. O passado, parafraseando L.P. Hartley, é outro mundo e Kubrick nunca tenta criar qualquer espécie de entendimento com essa diferente realidade, preferindo cristalizar as suas superfícies e o seu imaginário visual, musical e gestual.

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Ver três horas de pessoas embalsamadas a encenarem pinturas que se movem sob a direção de um inveterado misantropo não será o tipo de filme que vai deliciar muita gente, mas existe na frieza desumana e sensibilidade esteta de Barry Lyndon, uma espetacularidade que merece admiração. Muitos são os filmes que almejam captar uma época passada, mas quase todos caiem no erro de pensar que entendem essa realidade. Kubrick insiste que não entende, reduz-se à sua insignificância e, a partir dos limites impostos pela sua distância, concebeu um dos melhores filmes de época alguma vez feitos, a perfeita recriação desse mundo de beleza sem igual, fria elegância e rigidez que, se calhar, nunca existiu fora das pinturas, da literatura, ou das sinfonias dos grandes génios musicais do passado.

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O MELHOR: Para quem admire o cinema como um espetáculo visual, este filme é positivamente orgástico. Logo o primeiro plano do filme já merecia estar em exibição nas paredes do Louvre. Nem se fala das três horas de êxtase estético que se seguem.

O PIOR: A abordagem de Kubrick ao texto e ao trabalho de ator acabou por atenuar muita da ironia e humor de Thackeray o que é um pouco triste. Aliás, apenas Marisa Berenson consegue criar uma prestação merecedora de admiração, mesmo fora do peculiar contexto deste filme e suas estilizações interpretativas.


 

Título Original: Barry Lyndon
Realizador:  Stanley Kubrick
Elenco: Ryan O’Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Leon Vitali
Park Circus | Drama, Histórico, Romance, Aventura | 1975 | 184 min

Barry Lyndon

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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