Berlinale 2019 Prémios | ‘Synonyms’ de Nadav Lapid Ganhou o Urso de Ouro

O júri presidido por Juliette Binoche atribuí o Urso de Ouro ao filme israelita ‘Synonyms’, de Nadav Lapid, num palmarés que foi tão desconcertante como  decepcionante. A competição desta Berlinale 2019 foi praticamente toda dedicada à despedida do director Dieter Kosselick.

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O realizador Nadav Lapid agradece o Urso de Ouro 2019.

A edição deste ano do Festival de Cinema de Berlim chegou ao fim, e ‘Synonyms’ de Nadav Lapid leva para Israel, talvez com surpresa, um dos prémios mais prestigiados do mundo do cinema: o Urso de Ouro de Melhor Filme da Berlinale 2019 e ainda, à falta de melhor, o Prémio Fipresci da crítica internacional, que não deixa de ser inusitado. O Grande Prémio do Júri, o segundo mais importante da hierarquia foi para ‘Grâce à Dieu’, do cineasta francês François Ozon, que recebeu um Urso de Prata, para uma crónica de abusos sexuais sobre jovens escuteiros e revelados pelos próprios em França (Lyon), não há muito tempo. ‘I Was at Home, But’, um filme pretensiosamente sobre o tema da família e a escola, da alemã Angela Schanelec foi premiada com um Urso de Prata de Melhor Realização pelo júri presidido por Juliette Binoche que deu ambos os prémios de interpretação aos protagonistas do filme chinês, ‘Di Jui tian chang’ (“So Long, My Son”), de Wang Xiaoshuai, respectivamente a Yong Mei (Melhor Actriz) e Wang Jingchun (Melhor Actor). Talvez uma forma indirecta de premiar o cinema chinês, que há última da hora criou um caso, com o cancelamento de ‘One Second’, de Zhang Yimou e que a actriz fez questão de sublinhar no início da entrega dos prémios da competição principal. Efectivamente os prémios deste ano, foram algo de desconcertantes numa competição oficial, a última do director artístico Dieter Kosselick, que foi uma das mais fracas e decepcionantes das últimas décadas da Berlinale. Isto é, não trouxe rigorosamente nada de novo ao cinema e foi umas das mais aborrecidas e difíceis de fazer uma cobertura crítica positiva, nos últimos 20 anos. 

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Os prémios de interpretação foram para os actores de ‘So Long, My Son’.

Foi assim que partindo da premissa de um ‘israelita em Paris’, o realizador Nadav Lapid construiu uma história quase indescritível e estranha. Se as grandes surpresas do Festival de Berlim têm estado geralmente guardadas para o final, isso aconteceu com o biopic ‘Marighella’, do realizador-actor brasileiro Wagner Moura, que não podia ganhar nada pois foi apresentado fora da competição, e que aliás marcou o festival pelo protesto contra o novo governo brasileiro.

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‘Marighella’, de Wagner Moura, que não podia ganhar pois foi apresentado fora da competição

‘Synonyms’ de Nadav Lapid, é um filme estranho, por vezes exuberante, mas bastante difícil de descrever e entender, a começar logo pelo seu personagem principal: Yoav (Tom Mercier), um jovem israelita que chega a Paris com pouco vocabulário de francês (compra um pequeno dicionário para se fazer entender), e desgostoso com o seu país, que vive um permanente clima de guerra. Yoav quer à viva força tornar-se francês e ser enterrado no cemitério Père Lachaise, talvez a sua única referência local. Paris, é projetada no filme pelo interior de vários apartamentos, que vão do mais chique ao mais degradado, até às ruas e ao metro. De repente, Yoav aparece nu e sozinho num quarto vazio de um apartamento luxuoso, porque alguém lhe roubou os seus pouco haveres. De seguida vai pedir ajuda ao apartamento do lado onde vive um casal muito ‘cool’: Émile (Quentin Dolmaire, o protagonista de ‘Três Lembranças da Minha Juventude’, de Arnaud Desplechin) e Caroline (Louise Chevillotte, de ‘Amante Por um Dia’, de Philippe Garrel). Contudo, só na manhã seguinte é que elas vão dar com Yoav, inerte deitado numa banheira quase a morrer de frio. Acabam por se tornar amigos e protectores de Yoav, e sobretudo ouvintes das suas estranhas histórias que se vão desenrolando ao longo do filme. Deste encontro, nascem cenas e diálogos completamente deslocados, citações literárias e outras perfeitamente indescritíveis, independentes umas das outras e sem grande sentido. No entanto, o conjunto do filme é construído em torno de um eixo: a presença física de Yoav preso ao seu corpo de escultura greco-latina e às suas cenas hilariantes de nudez — a sua circuncisão, provoca algum embaraço aos protagonistas e espectadores — que compõem uma boa parte do absurdo da história.

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O realizador Nadav Lapid constrói uma história quase indescritível e estranha.

Yoav lança-se pois de corpo e alma numa forçada metamorfose para se tornar um verdadeiro francês — apesar de trabalhar para uma empresa de segurança israelita — à custa de uma verbalidade pateta, de expressões puramente físicas, e de repetições incessantes de palavras e vocabulário, achando que essa é a melhor forma de adquirir uma nova identidade nacional. Para isso Yoav estabelece um rigoroso regime de vida dir-se-ia quase militar — como a sua formação no exército israelita —, mas por vezes é traído pelas suas explosões de desejo, raiva e desespero luta, corre ou dança — herdadas de onde vem, e que parecem incompatíveis no mundo onde quer pertencer. Yoav procura rejeitar uma identidade em favor da outra, através das ideias radicais e preconcebidas das identidade de ambos os países, sendo que seja ele francês ou israelita é sinónimo de ser estrangeiro. A aula em que Yoav aprende a ser francês, — que é registada no trailer do filme — parece ironicamente um jogo de verdadeiro ou falso. Em relação à realização, Nadav Lapid é muito prático, económico e convencional, na linguagem cinematográfica: planos americanos, planos próximos, ângulos diversos, brancos imaculados, noites e cores pálidas, imagens agitadas ou fixas tanto dos interiores dos apartamentos ou exteriores de Paris. ‘Synonyms’ é um filme cerebral é certo, sem muito para dizer no plano artístico já que escapa, pelo menos para quem vos escreve a qualquer definição narrativa, de género, ou de linguagem experimental que traga algo de novo para o cinema, e que justifique um dos prémios mais importantes do cinema mundial.

Prémios Berlinale 2019

Urso de Ouro/Melhor Filme: “Synonyms,” de Nadav Lapid

Urso de Prata/Grande Prémio do Júri: “Grâce à Dieu” (“By the Grace of God”), de François Ozon

Urso de Prata/Prémio Alfred Bauer Prize: “Systemsprenger” (“System Crasher”), de Nora Fingscheidt

Urso de Prata/Melhor Realizador: Angela Schanelec, “Ich war zuhause, aber” “(I Was at Home, But)”

Urso de Prata/Melhor Actriz: Yong Mei, “Di jui tian chang” (“So Long, My Son”)

Urso de Prata/Melhor Actor: Wang Jingchun, “Di jui tian chang” (“So Long, My Son”)

Urso de Prata/Melhor Argumento: Maurizio Braucci, Claudio Giovanessi, and Robert Saviano, “La paranza dei bambini” (“Piranhas”)

Urso de Prata de Melhor Contribuição Artística: Rasmus Videbæk, direcção de fotografia de “Out Stealing Horses”

Melhor Primeira Obra: “Oray,” de Mehmet Akif Büyükatalay

Berlinale Glashütte Original — Prémio Documentário: “Talking About Trees,” de Suhaib Gasmelbari

Urso de Ouro para Melhor Curta-Metragem: “Umbra,” de Florian Fischer e Johannes Krell

Urso de Prata para Melhor Curta-Metragem/Prémio do Júri: “Blue Boy,” de Manuel Abramovich

Prémio Audi para Curta-Metragem: “Rise,” de Bárbara Wagner and Benjamin de Burca

José Vieira Mendes (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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