Michael Caine interpreta um autor recluso em "Best-Sellers" |©NOS Audiovisuais

Best-Sellers, em análise

A comédia dramática “Best-Sellers” coloca lado a lado o veterano Michael Caine (“O Cavaleiro das Trevas”, “Ana e as suas Irmãs”) e a sempre invulgar Aubrey Plaza (“Parks & Recreation”, “O Boneco Diabólico”)  numa bem intencionada mas algo comum narrativa. 

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Aos 88 anos, Michael Caine parece reter uma forma física e mental invejável nesta que é a primeira longa-metragem realizada por Lina Roessler. Alegadamente, no outono de 2021, Caine afirmava que este teria sido o seu último papel no cinema. Não obstante, e para felicidade de quem acompanha a sua carreira, já voltou a trás com a afirmação.

Best-Sellers em análise
Michael Caine em “Best-Sellers” | © NOS Audiovisuais

Quanto a “Best-Sellers”, a sua maior qualidade redentora é sem dúvida a presença de dois intérpretes sólidos. Michael Caine está já elevado ao estatuto de lenda e consegue ainda comover e criar uma relação de proximidade com quem divide o ecrã consigo, neste caso Aubrey Plaza. Plaza, por sua parte, é conhecida pela sua qualidade de humor deadpan (expressões vazias e punchlines humorísticas entregues com aparente emoção nula) e “Best Sellers” é a oportunidade perfeita para mostrar outras emoções mais reais e fugir à sua habitual preferência por dramas independentes com argumentos insólitos.

Sim, ao contrário do que acontece, por norma, na carreira de Aubrey Plaza, em histórias como “Urso Negro”, “Safety Not Guaranteed” ou “Ingrid Goes West”, Plaza assume aqui uma personagem menos caricatural e mais humana, sensível e apaixonada pelo seu meio envolvente. Por outro lado, o grande problema desta sua protagonista é que já a vimos uma e outra vez neste género de comédia-dramática. Falta a originalidade e registo arrojado que normalmente a acompanha.

Mais drama do que comédia, “Best-Sellers” conta a história de Lucky Skinner (Plaza), uma jovem ambiciosa e letrada que herda uma editora de sucesso quando o seu pai se revela incapacitado. Contudo, depois de editar vários livros muito mal-sucedidos, dedicados à camada jovem-adulta e adolescente, Lucy vê o caso mal parado e pondera vender o negócio, que cada vez mais se enterra.

Aubrey Plaza
Aubrey Plaza, “Best Sellers” © NOS Audiovisuais

Eis que descobre a luz ao fundo do túnel. Um importante autor da casa, que lançou apenas uma obra de sucesso há mais de 40 anos, Harris Shaw (Caine), recebeu um adiantamento para um segundo livro, já nos anos 80, mas nunca chegou a escrevê-lo. Contratualmente obrigado a apresentar uma nova obra, Shaw é um escritor recluso – alcoólico, impaciente e consumido pelo luto. Entorpecido pelo álcool, este autor, que inicialmente colocou a editora de Lucy no mapa, será simultaneamente a possível chave para a sua salvação.

De manuscrito na mão, Lucy publica a segunda obra de Harris, que apenas partilha as suas palavras mediante a condição de não serem submetidas a qualquer edição. Tal acaba por comprometer o potencial do livro, o qual vende mal. Também não ajuda o facto de Harris estar a sabotar a tour promocional do livro, repetindo palavras de ordem obscenas e urinando na obra – recusando-se veemente a fazer leituras.

“Best-Sellers” chegou aos cinemas pelas mãos da NOS Audiovisuais a 13 de janeiro de 2022. Entrou na segunda semana de exibição, a qual poderá eventualmente ser a última. É uma narrativa agradável e que puxa à lágrima, embora não deixe de apresentar os seus defeitos. Por um lado, apesar de ouvirmos alguns excertos, nunca compreendemos bem em que consiste exatamente a obra de Shaw, apenas somos confrontados com os seus grandes temas. Não obstante, o seu romance parece-nos oco, pois nunca é transmitido com clareza ao público do filme.

Por outro lado, a evolução narrativa é bastante expectável, passando pelo arco de intransigência de Shaw que, sem surpresa, acaba por levar a uma relação de profunda mentoria e amizade entre os dois – a qual acabará por ajudar ambos a ultrapassar os seus demónios e expectativas. Sim, este é um filme agradável, embora pouco memorável, quer falemos da sua progressão algo cliché ou da falta de ambição no que toca a uma cinematografia quase em piloto automático.

Best Sellers Aubrey Plaza Michael Caine
Uma dupla improvável em “Best-Sellers” |©NOS Audiovisuais

Não obstante, existe uma beleza e uma melancolia gigantes que nos aquecem o coração quando chegamos ao fim da história. Inadvertidamente, é-nos impossível não torcer pelas personagens centrais e desejar o melhor para o seu desfecho. “Best-Sellers” não consegue provar que a palavra escrita não está condenada, não tem a vitalidade de outras histórias que brincam com o conceito da editora literária. Não é sequer bem uma comédia, há demasiada nostalgia para considerar o filme dessa forma. Tudo bem espremido, as relações humanas são vencedoras nesta história com ambições ligeiras.

A esperança, a luz ao fundo do túnel, a necessidade de nos desprendermos de um passado que tudo promete consumir. A imposição de dizer adeus a “legados” e expectativas, estes são os valores basilares de “Best-Sellers”, um filme que acaba por ter “O Grande Gatsby” como grande livro-guia. Não fossem algumas das frases finais da obra literária citadas mais que uma vez:

“Gatsby believed in the green light, the orgastic future that year by year recedes before us. It eluded us then, but that’s no matter – tomorrow we will run faster, stretch out our arms farther….And one fine morning —

So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.”

Gatsby acreditava na luz verde, o futuro orgástico que ano após ano recua perante nós. Escapou-nos então, mas isso não importa – amanhã vamos correr mais depressa, esticar os braços mais longe…. E uma bela manhã –

Por isso, prosseguimos, barcos contra a corrente, trazidos de volta incessantemente para o passado.

Esta é uma citação importantíssima, retirada do final do livro, tida como um dos grandes finais literários do século passado. Porquê? Devido à sua capacidade de resumir o livro, os seus sentimentos e ideais, sem ter de os transmitir com todas as letras. Por transmitir imagens e ideias em igual medida, e por se aplicar tão bem a tantas situações da vida de qualquer um de nós, comuns mortais. Talvez até seja esse o trunfo de “Best-Sellers”, um simpático casamento com os ensinamentos de F.Scott Fitzgerald.

TRAILER | BEST-SELLERS ESTREOU NOS CINEMAS EM JANEIRO DE 2022

“Best-Sellers” estreou nas salas de cinema nacionais a 13 de janeiro e encontra-se na sua segunda e possivelmente última semana de exibição. É possível ver ainda o filme em várias salas espalhadas pelo território nacional, dos UCI ao Cinema City, passando por ecrãs Cineplace. 

Best-Sellers, em análise
Poster Cinema Best Sellers

Movie title: Best Sellers

Movie description: Lucy Skinner herda do pai uma seleta editora, mas a ambiciosa aspirante a diretora quase afunda a empresa com uma série de péssimos livros que recebem críticas negativas. Quando descobre que Harris Shaw, um escritor recluso, rabugento e entorpecido pelo álcool, que inicialmente pôs a editora no mapa, lhe deve um livro, vê nele a tábua de salvação, tanto comercial como crítica. E o momento não podia ser mais perfeito. Harris deve dinheiro e tem um novo livro que ele próprio odeia. Lucy fica eufórica, até descobrir que o antigo contrato de Harris estipula que ninguém pode rever o seu trabalho. Porém, em troca, tem de fazer uma digressão para promover o livro.

Date published: 26 de January de 2022

Country: EUA

Duration: 102 min

Director(s): Lina Roessler

Actor(s): Michael Caine, Aubrey Plaza

Genre: Comédia, Drama

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  • Maggie Silva - 71
71

CONCLUSÃO

“Best-Sellers” não é a comédia dramática mais original de 2021, longe disso, mas é um filme capaz de resolver o seu enredo com carinho e (muita) melancolia.

Pros

  • As interpretações centrais de Caine (maravilhoso como um autor incorrigível) e Plaza;
  • A interpelação das palavras imortais de “Gatsby”.
  • O final emotivo e envolvente.

Cons

  • A natureza previsível e cliché da narrativa;
  • A idiotice excessiva de alguns dos atos mais anárquicos da personagem Harris;
  • A falta de profundidade na abordagem temática e literária;
  • Ausência de uma banda-sonora e fotografia capazes de elevar o filme;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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