Óscares 2017 | Bradford Young

Depois de uma série de magníficos filmes independentes que a Academia ignorou, Bradford Young foi finalmente nomeado para o Óscar de Melhor Fotografia pelo seu trabalho em O Primeiro Encontro. É somente a segunda vez que um homem preto é indicado para esta honra na história da Academia.

 


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MISSISSIPI DAMNED (2008) de Tina Mabry
MISSISSIPI DAMNED (2008) de Tina Mabry

 

Antes de começarmos a celebrar o trabalho de Bradford Young, um dos nomeados deste ano para o Óscar de Melhor Fotografia, convém esclarecer uma pequena, mas importante, questão. Afinal, o que é e o que faz um diretor de fotografia? Bem, no cinema, um diretor de fotografia é a pessoa que cria, desenha e orienta a iluminação dos espaços e atores a serem filmados, é quem escolhe as lentes a serem usadas, o tipo de câmara, a exposição da imagem, a distância focal e, ocasionalmente, é quem opera a câmara também. É evidente que a independência criativa do diretor de fotografia varia consoante a abordagem do realizador – Stanley Kubrick, por exemplo, via os seus diretores de fotografia como pouco mais que executores técnicos da sua vontade. Nem todos têm essa perspetiva, como é óbvio, e há mesmo quem chame aos diretores de fotografia pintores da luz, a câmara o seu pincel.

 

bradford young pariah oscares

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PARIAH (2011) de Dee Rees

 

Inspirado nos estilos penumbrosos de fotógrafos como Roy DeCarava, Bradford Young é um diretor de fotografia cujo trabalho é fortemente marcado pela hegemonia da face humana enquanto principal elemento de destaque. Com suave iluminação difusa a traçar lateralmente os rostos dos seus atores e uma geral recusa de jogos de contraste exageradamente aguçados, Young estabeleceu um estilo pessoal que raramente entra em ásperos conflitos estéticos com os restantes elementos visuais dos seus filmes, primando pela harmonia, um soberbo uso de mínimas distâncias focais e o domínio enfático de sombras e fontes de luz diegéticas à la Roger Deakins. No que diz respeito a outros diretores de fotografia que o inspiram, algumas das outras influências específicas incluem o húngaro Vilmos Zsigmond que foi uma das escolhas de eleição dos autores do Novo Cinema de Hollywood nos anos 70, Gordon Willis que era conhecido como “O Príncipe das Trevas” devido ao seu uso abusivo de técnicas de chiarosccuro, e Harris Savides que foi um mestre da fotografia digital e famoso pelo seu estilo de iluminação naturalista.

 

middle of nowhere bradford young oscares

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MIDDLE OF NOWHERE (2012) de Ava Duvernay

 

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aint them bodies saints bradford young oscares

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AIN’T THEM BODIES SAINTS (2013) de David Lowery

 

Apesar disso, Young tem um trunfo na manga em comparação aos seus colegas. É que um dos grandes problemas de muitos diretores de fotografia é a sua incompetência no que diz respeito à filmagem de pessoas com cores de pele muito escuras. Normalmente, vemos um de dois erros, ou uma iluminação exagerada que rouba às pessoas a sua tonalidade natural, ou um esquema de luz pensado para pessoas de pele pálida que resulta em sombras inescrutáveis, sem definição ou leitura. Neste respeito, Bradford Young mostra tanta mestria como impetuosidade, ao capturar esses tons de pele com pouca luz, mas sempre mantendo a definição das caras dos atores e as diferenças tonais das suas tezes, a não ser em ocasionais rasgos de expressividade dramática mais acentuada.

 

mother of george bradford young oscares

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MOTHER OF GEORGE (2013) de Andrew Dosunmu

 

Foi precisamente essa habilidade, conjugada com os outros aspetos, já referidos do seu virtuoso estilo pessoal, que o tornaram num dos favoritos da crítica quando, em 2011, Young apareceu com duas belíssimas obras assinadas por realizadores afro-americanos. Podemos argumentar que Mississippi Damned de 2008 já tinha deixado uma marca considerável no circuito dos festivais americanos com a sua fotografia soberba, mas foi Pariah de Dee Rees e Restless City de Andrew Dosunmu que realmente puseram o nome de Bradford Young no mapa. Pelo menos, da perspetiva de críticos de cinema e cinéfilos assíduos dos festivais de cinema independente. Em 2012 assinalou mais um sucesso crítico pouco divulgado com Middle of Nowhere de Ava Duvernay e 2013 foi marcado por dois dos maiores triunfos de Young. Primeiro, tivemos Mother of George, outro filme de Andrew Dosunmu que parece uma pintura viva tal é a mestria pitoresca das suas imagens. E depois veio Ain’t Them Bodies Saints, uma homenagem a Terrence Malick do realizador David Lowery, onde Young se mostrou capaz de emular o trabalho de uma das lendas vivas da sua área, o triplamente Oscarizado Emmanuel Lubezki.

 

um ano muito violento bradford young oscares

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UM ANO MUITO VIOLENTO (2014) de J.C. Chandor

 

Este sucesso crítico deu alguma exposição a Young, suficiente para ele ser convidado a filmar um vistoso drama na Índia, mas o circuito e apreciação do mainstream americano ainda o iludiam. Fãs do seu trabalho pensavam que seria em 2014 que o seu perfil seria finalmente elevado e que Young alcançaria a sua primeira nomeação para o Óscar. É fácil entender tal atitude pois nesse ano, este diretor de fotografia viu estrear dois dos seus mais publicitados filmes até então. Selma de Ava Duvernay é um soberbo drama histórico que evita a maioria dos corrosivos clichés do filme biográfico, em parte devido à sofisticação estética conferida pela câmara de Bradford Young. Ainda num registo de filme de época, Um Ano Muito Violento de J.C. Chandor é uma deslumbrante homenagem ao cinema americano dos anos 70 e seus dramas realistas pintados em tons de âmbar e densas sombras. Se Mother of George é o filme mais belo da filmografia de Bradford Young, Um Ano Muito Violento é certamente o seu esforço mais sofisticado e maturo.

 

selma bradford young oscares

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SELMA (2012) de Ava Duvernay

 

Consulta Ainda: Guia das Estreias de Cinema | Março 2017

 

o primeiro encontro bradford young oscares arrival

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O PRIMEIRO ENCONTRO (2016) de Denis Villeneuve

 

Tudo isto para dizer que foi somente este ano que Bradford Young recebeu a sua muito merecida primeira indicação para o Óscar de Melhor Fotografia. O filme de ficção-científica de Denis Villeneuve não é dos trabalhos mais vistosos ou brilhantes de Bradford Young mas o seu virtuosismo está bem evidente na sua construção visual. Quer seja nas cenas de escuro minimalismo do quotidiano da sua protagonista, os interiores meio claustrofóbicos de uma tenda militar ou a fantasia extraterrestre de uma nave alienígena mergulhada nas trevas, Bradford Young nunca dá um passo em falso. Na verdade, a sua contribuição para a construção geral do filme ajuda a sustentar o discurso concetual entre o cósmico e o pessoal que unifica toda a experiência de O Primeiro Encontro, onde as memórias meio desfocadas de uma filha misteriosa têm um impacto inesperado na conclusão elíptica da narrativa.

 

o primeiro encontro bradford young oscares arrival
O PRIMEIRO ENCONTRO (2016) de Denis Villeneuve

 


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Os projetos seguintes de Bradford Young incluem o novo filme de Andrew Dosunmu, Where is Kyra?, que já estreou no festival de Sundance e recebeu críticas positivas, e o novo spin-off da saga Star Wars centrado em Han Solo. Na próxima página, poderás explorar a carreira de outro grande diretor de fotografia da atualidade que, no seu currículo, também já conta com um spin-off da saga Star Wars, Rogue One. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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