"Breve Historial del Planeta Verde" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’19 | Breve Historia del Planeta Verde, em análise

Breve Historia del Planeta Verde”, também conhecido como “Brief Story from the Green Planet” na sua versão anglófona, é uma bizarra proposta do cineasta argentino Santiago Loza. O filme integra a competição de longas-metragens do Queer Lisboa 23.

A Berlinale é uma das grandes montras para cinema queer à escala mundial e, todos os anos, muitos são os filmes com temáticas LGBT+ a estrearem nas suas festividades. Tanto isto acontece, que é raro o ano em que as ofertas queer do festival não superam os filmes mais tradicionais que aparecem na competição oficial do mesmo. Tudo isto para dizer que o Prémio Teddy, atribuído por um júri ao Melhor Filme LGBT+ da Berlinale, é uma das maiores honras para o cinema queer no atual circuito dos festivais. No passado, cineastas como Sebastián Lelio, Pedro Almodóvar, Ira Sachs, Lisa Cholodenko, John Cameron Mitchell, François Ozon, Todd Haynes e Derek Jarman ganharam o prémio e até já houve filmes galardoados a conquistarem Óscares.

Em suma, os Teddys são importantes e refletem uma celebração muito prestigiada do cinema queer. O que também refletem é um gosto mais virado para os grandes autores ou propostas mais ou menos convencionais. O Teddy costuma reconhecer grande cinema, mas raro é o filme premiado que realmente desafia um espectador já habituado a estas temáticas queer. “Breve Historia del Planeta Verde” é essa raridade, sendo uma tresloucada proposta que mistura ficção-científica, terror, romance, rave e até um toque de humor desafetado num cocktaik cinematográfico que tanto confunde como fascina.

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© Autentika Films

Esta inclassificável façanha conta a aventura de três amigos de longa data, Tania, Daniela e Pedro. A sua união foi forjada nas labaredas do bullying e do sofrimento conjunto, sendo que todos eles encontraram nos outros alguém com quem partilhar o seu sofrimento juvenil. Quando os conhecemos, fazemo-lo numa sequência em que o realizador Santiago Loza nos mostra o seu acordar, usando a montagem para sugerir uma continuidade de movimento entre os três amigos, como se eles todos fossem manifestações da mesma consciência em corpos diferentes.

Os três acordares também nos estabelecem logo a complexa tonalidade deste filme. A luz parece naturalista e há uma casualidade no trabalho de câmara, mas isso é contraposto por uma banda-sonora de melodias indefinidas, etéreas. Além disso, Tania, uma mulher transgénero que também é uma drag queen, aparece-nos a dormir toda maquilhada e perfeita, como se estivesse a dar um show num bar ao invés de a dormir em casa. Este é um artifício comum no cinema mais comercial sobre drag queens e que nada corresponde à realidade. Logo aqui, “Breve Historia del Planeta Verde” nos oferece uma série de contradições, estilísticas tonais, para ruminar.

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A fluidez cinematográfica, a irrealidade onírica e a banalidade do quotidiano, todos dançam de mãos dadas neste prólogo matinal, como que unindo os amigos entre si, mas isolando-os da nossa realidade. De facto, eles os três parecem viver insularmente, resguardados numa dimensão que é só deles e de mais ninguém. Quiçá as pressões sociais forçaram-nos a esculpir algo mais suportável, mais seguro para poderem existir em paz. Eles vivem entre nós, mas não são como nós, parecem transplantados de um filme de Jarmusch ou Lanthimos, em que ninguém mostra espanto e as palavras são ditas em monocórdio e sem inflexão dramática. Eles são aliens a viver entre terráqueos que não os compreendem.

Não demora muito, no entanto, até estes alienígenas sociais se depararem com um alienígena a sério. Acontece que a avó de Tania morreu e os três amigos regressam à terra para visitar a sua campa. Na casa da velhota, o que eles descobrem não são só memórias do passado, mas o corpo inerte de um ser estranho vindo do espaço, que emana luz azul e terá travado amizade com a avó solitária. Num desavergonhado piscar de olho para o “E.T.” de Spielberg, Tania, Pedro e Daniela decidem levar a criatura de volta ao lugar onde a avó o encontrou, de modo a que este assim consiga regressar a casa.

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© Autentika Films

A aventura que se segue é estranha e, como todo o filme, desafia as nossas capacidades descritivas. Há jantares estranhos em comunhão familiar, há visitas ao hospital que resultam em estranhas transfusões luminosas e até temos a ameaça de uma urbe de tochas na mão que rapidamente se torna num campo de terra escura e carvões fumegantes. Dizer tal coisa é um cliché no contexto da crítica cinematográfica, mas ver “Breve Historia del Planeta Verde” é mesmo como ver um sonho, completado com o tipo de lógica onírica que só parece fazer sentido quando estamos a dormir.

Apesar de tudo isto, o filme não é, de modo algum, uma experiência inescrutável. Aliás, há uma componente emocional que reverbera pela história e se faz sentir mesmo quando os acontecimentos em cena nos confundem. Este é um conto-de-fadas sobre aliens azuis e tartarugas imortais, sobre idílios de tolerância e sobre amantes brasileiros eternamente fiéis, sobre os mistérios maravilhosos do céu noturno e sobre uma fuga da realidade em direção ao conforto da fantasia. Saudamos a audácia narrativa de “Breve Historia del Planeta Verde”, um filme que merece ser sentido ao invés de ser descodificado. Esta obra não é um puzzle, é um sonho.

Breve Historia del Planeta Verde, em análise
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Movie title: Breve Historia del Planeta Verde

Date published: 25 de September de 2019

Director(s): Santiago Loza

Actor(s): Romina Escobar, Paula Grinszpan, Luis Soda

Genre: Drama, 2019, 75 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Breve Historia del Planeta Verde” é um sonho de tolerância e empatia sobre três amigos a tentar levar um alienígena azul de volta a casa. Trata-se de uma proposta tão estranha como cativante, que confunde e maravilha em igual medida. Ainda para mais, é uma pequena joia formalista, especialmente no que se refere à sua montagem e fotografia.

O MELHOR: A montagem inicial e a catarse emocional do fim. Para algo tão estranho, “Breve Historia del Planeta Verde” é surpreendentemente comovente.

O PIOR: A inexpressão deliberada dos atores consegue ser frustrante, apesar de contribuir para as qualidades oníricas do conto. Sentimos sempre que há uma barreira que nos separa das personagens e isso nem sempre funciona em benefício da história.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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