Retrospetiva Jane Campion | Bright Star – Estrela Cintilante (2009)

Bright Star é um luxuriante poema cinematográfico em que Jane Campion pinta com delicadas pinceladas o romance entre o poeta John Keats e Fanny Brawne.

 


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bright star jane campion

Depois da reação catastroficamente negativa que se precipitou sobre a estreia de In the Cut, Jane Campion demorou seis anos até completar a sua longa-metragem seguinte. Para contextualizar, desde 1986 que a realizadora nunca demorava mais de quatro anos entre longas-metragens. Durante esta pausa, a cineasta produziu um documentário e voltou a realizar curtas-metragens, algo que já não fazia desde os seus anos na escola de cinema durante os anos 80. O filme que eventualmente a traria de volta ao mundo das longas-metragens foi o seu primeiro filme de época desde a desastrosa receção de Retrato de Uma Senhora em 1996 e foi somente o seu segundo filme a basear-se em factos reais, sendo, tal como a primeira dessas narrativas verídicas, a história de um escritor. Mais especificamente, o objeto de estudo de Bright Star é John Keats (Ben Wishaw), o célebre poeta inglês que morreu com apenas 25 anos em 1821 mas que já nessa altura se tinha afirmado como uma das mais importantes vozes literárias do movimento romântico. Não que o filme seja uma biografia convencional, temos de esclarecer. Afinal, desde quando é que Jane Campion fez alguma coisa minimamente convencional ou tentou dar às audiências o que seria espectável. Não, Bright Star não é um biopic de John Keats, sendo que ele nem é o protagonista, mas sim uma reflexão poética sobre o tema do amor romântico.

Numa das suas cenas mais apoiadas em texto, Bright Star mostra-nos Keats a tentar explicar o ato de apreciar um poema à sua amada, Fanny Brawne (Abbie Cornish). Ele diz-lhe que um poema deve ser entendido através dos sentidos, dando-lhe o exemplo de um mergulho nas águas de um lago. Uma pessoa não mergulha com o propósito de explicar o lago ou de imediatamente nadar até à margem. Na verdade, quer simplesmente estar no lago, luxuriar-se na sensação da água envolvente. Em suma, uma experiência que transcende o pensamento racional. Tais palavras são uma casual explicação da ideia literária que Keats inventou de capacidade negativa, mas também são uma espécie de manual de instruções para o espetador experienciar Bright Star.

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E que experiência! Visto de um ponto de vista exclusivamente sensorial, Bright Star é o mais belo filme no cânone da realizadora, mais ainda que O Piano, Um Anjo à Minha Mesa ou In the Cut, onde a beleza estética vinha sempre de mãos dadas com a tentativa de desconcertar ou mesmo aterrorizar o espetador. Em Bright Star, não existe nenhuma dessa deliberada abrasão estética mas sim um convite que apela o espetador a deixar-se inebriar pela pura beleza visual de imagens que parecem pinturas vivas. O uso extensivo de cenários naturais e elementos como luz solar, borboletas, flores e brisas estivais apenas exacerba quão o filme é um poema romântico capturado em celuloide por Greig Fraser, um diretor de fotografia com uma filmografia rica em festins para os olhos mas que continua a deter este filme como seu inquestionável píncaro.

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Mas não é só Fraser que merece elogios. Um momento tão sublime como aquele que sucede ao primeiro beijo dos amantes, em que Fanny se fecha no seu quarto, deita-se na cama e suspira suavemente enquanto é embalada pela doçura da memória recente assim como pelo beijo de uma brisa quente que é apenas visível graças ao delicado movimento das cortinas diáfanas que lhe decoram o quarto. O tempo exato deste momento é definido pela montagem de Alexandre de Franceschi, que passa o filme a ignorar noções clássicas de coerência temporal em nome de ritmos ditados pelo fluir de emoções e não por lógicas narrativas. O conteúdo da imagem montada e fotografada é da responsabilidade da cenógrafa e figurinista Janet Patterson, que evoca as texturas e linhas da época sem sacrificar a criação de um forte discurso visual principalmente apoiado no uso de cor para conjurar reações emocionais no espetador. Por fim, temos a sonoplastia supervisionada por John Dennison e a música de Mark Bradshaw (que conheceu Ben Wishaw nas filmagens deste filme, tendo-se casado três anos mais tarde) a completar a cena com uma apaixonante mistura de sons naturais e delicadas modernizações de melodias históricas.

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Todos os nomes referidos neste elogio à concretização formal de Bright Star eram já veteranos do cinema de Campion aquando das filmagens deste projeto. Bradshaw e Fraser começaram a colaborar com a cineasta nas suas curtas depois de In the Cut, que já tinha sido editado por Franceschi, Patterson tinha sido uma colaboradora fiel desde O Piano e Dennison remonta aos anos 80 e Sweetie. Chamamos a atenção a esta curiosidade pois Bright Star é um filme tão harmonioso e simbiótico em termos formais, que a unidade da sua equipa criativa e técnica se torna em algo importante de referir. Mesmo no elenco, a realizadora usou várias caras conhecidas da sua filmografia, tendendo a empregar atores novos somente nos papéis que requeriam juventude, como é o caso de John, o seu companheiro escocês Mr. Brown (Paul Schneider), Fanny e seus irmãos mais novos (Thomas Brodie-Sangster e Edie Martin). Pela sua parte ninguém dá uma má prestação, sendo que Schneider, Cornish e Wishaw são especialmente brilhantes.

Agora que referimos os atores, talvez seja uma boa altura para refletir sobre as personagens da narrativa, por muito amorfa que a narrativa seja. Para começar e relembrando algo que já referimos anteriormente, John Keats não é o protagonista do filme. Na verdade, se não fosse a sua poesia e as cartas trocadas entre ele e Fanny, muitas das quais ainda existem e são estudadas academicamente como parte essencial da sua obra, a personagem podia muito bem ser fictícia. Wishaw certamente nunca tenta recriar qualquer tipo de retrato histórico do artista, estando mais focado na tradução de estados emocionais e na personificação de uma figura simultaneamente ligada de forma espiritual ao mundo que o rodeia como perplexamente fragilizado e distante desse mundo. Nesse contexto, Keats assemelha-se a muitas das heroínas de Campion, especialmente Janet Frame, mas Bright Star não está ligado à sua perspetiva pessoal, mas sim à de Fanny. Interpretada por Cornish com poderosa claridade emocional e uma chocante desafetação moderna, Fanny representa os olhos da audiência e são as suas emoções que ditam a construção formal do filme. Mesmo o modo como Keats é filmado depende da perspetiva subjetiva da mulher que viria a ser imortalizada pelas palavras apaixonadas e reverentes do autor.

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Na verdade, poderíamos mesmo dizer que Campion dividiu as características principais da sua protagonista típica nestas duas entidades de observador e observado, sendo a sua união um ato de orgânica simbiose cinematográfica. Até o desenvolvimento do seu romance é típico do cânone Campion, sendo principalmente caracterizado pela colossal quantidade de informação, que engloba até a cronologia e a motivação do amor entre os dois, que a cineasta nos impede de perscrutar. Até o constante tema de identidade pessoal marca a sua presença no desenvolvimento de Fanny, alguém que se define a si mesma pelas suas reações ao ato criativo, quer seja a sua costura ou a poesia de Keats, e na figura de Brown. O escocês é particularmente fascinante pois, em termos vagamente estruturais, a sua função em Bright Star torna-o num eco de Flora em O Piano, ambos figuras que se definiram a si mesmas pela sua relação co dependente com alguém que consideram superiores a si mesmos e que reagem com agressividade a um romance que os distancia dessa mesma pessoa.

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É interessante considerar que, de todos os filmes da realizadora, este é o seu único que se poderia honestamente caracterizar como um romance, a nível tonal se não narrativo. Mesmo no panorama do cinema contemporâneo geral, Bright Star é uma maravilhosa anomalia que subjuga todos os seus aspetos integrantes à construção de puros estados emocionais e suas muitas permutações, sendo que mesmo nas suas melancólicas passagens finais, as chamas do amor romântico ardem intensas e são elas que iluminam a dor da perda. Para uma realizadora que tantas vezes alienou, sufocou ou desorientou o seu público com obstinadas experiências formais e abrasivos estudos de personagem, este tipo de inocente e deliberada intensidade emocional parece algo revelador. É claro que, mesmo nas suas obras mais alienantes, Jane Campion nunca deixou de fazer filmes que apenas ganham poder no ato de entrarem em contacto com uma audiência forçada a os encarar, a os rejeitar ou neles se deixar imergir. Através da beleza apaixonada da poesia de Bright Star, Jane Campion está-nos a dizer: o meu cinema é como um poema. Não o tentem descodificar enquanto o veem. Não se percam em raciocínios supérfluos. Deixem-se simplesmente luxuriar na sua experiência.

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Por enquanto, Bright Star é a última longa-metragem realizada por Jane Campion mas, cá pela Magazine HD, estamos a fazer figas para que a cineasta ainda tenha mais umas quantas obras-primas na manga. Isso quer também dizer que, por agora, este é o fim da nossa análise da sua obra. Esperamos que tenham encontrado algum prazer na retrospetiva Jane Campion e que, pelo menos, vos tenhamos despertado o interesse em explorar ou redescobrir a obra desta singular cineasta.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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