“Cai-me a Ficha” é o novo single dos Duque Província

A poucos dias de lançar o primeiro álbum da banda, que se intitulará de 2032, os Duque Província presenteiam os ouvintes com uma faixa indie de semblante intrigante.

Tendo surgido em 2019 com o single “Tempo Sem Ti”, o conjunto composto por António Horgan, Henrique Gonçalves, Philippe Keil e Francisco Cunha apresenta-se no arsenal de música portuguesa como uma lufada de ar fresco. Com canções – já 6 disponíveis, no total – de estilos marcantes e influências variadas, os 4 jovens, oriundos das zonas de Cascais e Lisboa, têm vindo a ganhar reconhecimento por parte do público a uma velocidade exorbitante, tendo contado com uma plateia vibrante no palco das Festas do Mar, no dia 1 de setembro. Agora, 5 meses depois de apresentarem a faixa “Chuva”, surpreendem-nos com a sua mais recente obra – “Cai-me a Ficha”.

Demarcada de qualquer coisa que já tenham feito, esta canção introduz o ouvinte numa viagem instrumentalmente rica, servindo de acompanhamento a uma letra que conta a breve história de um romance tóxico e maioritariamente carnal, vivido com intensidade e repetidas crises de arrependimento.

Uma bateria propositadamente precipitada marca o começo da faixa, sendo imediatamente seguida de um dedilhado misterioso e uma instigante combinação entre teclado e segundas vozes. Com este início, entramos no espírito pretendido pelos músicos – suspense aliado a um certo determinismo interior. Uma potente linha de guitarra elétrica confere a entrada oficial à canção, o que redobra o marcamento percussivo e dá lugar à entrada da voz rouca e tão caraterística de Henrique, o vocalista.

Processa-se então o diálogo entre as duas figuras que personificam a história. Uma destas personagens aborda a outra com a sua urgente necessidade de encontro entre os dois – “há três dias úteis que não falas comigo, deves só poder falar sábado e domingo” (…) vou-te buscar a casa tipo às dez”. Em resposta a este chamamento a segunda personagem reconhece a sua falta de conexão emocional com a primeira, mas admite a inegável atração física que sente por esta – “és vinho estagiado em cimento” (…) “beijada por dois lábios quentes”. Na parte atrás citada denotamos os dois estados já referidos da segunda figura. Apesar da deselegância expressa no diálogo pelo segundo protagonista, o primeiro aceita a sua própria redução a um mero objeto atrativo, e não mostra relutância em alimentar a relação, optando por não dignificar a situação.

O refrão rebenta com o apogeu desta conversa, caindo as personagens na tentação da relação tóxica que ambas têm – “e se tu quiseres reduzir-me ao prazer, a toxicidade aceita”. Isto não acontece sem um grande sentimento de culpa expresso, adivinhamos, pela personagem que reconhece o seu interesse egoísta na relação. Isto pode-se retirar da frase que encerra o refrão – “mas quando a noite se deita, cai-me a ficha”. Segue-se um solo de guitarra impactante com um seguimento que parece desafiar a projeção metafórica musical do ouvinte – é como se o trabalho da guitarra tentasse refletir a confusão mental que surge com o arrependimento interior que o homem sente quando erra. Num clímax instrumental, o refrão repete-se com uma energia acentuada, o que é sugestivo da continuidade e impossibilidade de afastamento desta relação pecaminosa e prejudicial para os envolventes.

O videoclipe também merece destaque. Este tem início com os membros da banda a caminharem amarrados a umas cordas e a serem alvos de ataques por parte de um público julgador. Esta cena pode-se refletir na culpa, que ganha um papel marcante na faixa. Após esta encenação, cada personagem é transportada para um mundo idílico, regressando deste após a vivência de experiências positivas, longe de sentimentos negativos. No entanto, este mundo é mentira, e os atores principais do video, que são representados pelos quatro membros do conjunto, regressam à realidade.

Com uma obra de arte honesta e original como esta a abrir o lançamento de um álbum, só podemos esperar coisas boas destes 4 músicos portugueses.

A banda já antecipou um concerto de inauguração do disco, que vai ter lugar no ‘espaço espelho d’água’, em Belém, no dia 8 de outubro.

 

 

 

 

 

 

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