"Can You Ever Forgive Me?" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’19 | Can You Ever Forgive Me?, em análise

Can You Ever Forgive Me?”, realizado por Marielle Heller, foi nomeado para três Óscares este ano, Melhor Atriz, Melhor Ator Secundário e Melhor Argumento Adaptado. Agora, o filme é finalmente exibido em cinema português graças ao Queer Lisboa 23.

No início dos anos 90, Lee Israel estava a viver uma das fases mais negras da sua vida. A autora e biógrafa tinha conseguido alcançar algum sucesso com os seus livros sobre a atriz Tallulah Bankhead e a jornalista Dorothy Kilgallen, mas uma biografia da magnata das cosméticas Estée Lauder foi um fracasso, crítico e comercial. De facto, o projeto levou-a à ruína e, em 1991, Israel até já tinha dificuldades em pagar a renda do seu apartamento e comprar comida para sobreviver. Em desespero, ela começou a vender algumas das suas posses mais valiosas, incluindo uma carta pessoal que lhe havia sido enviada por Katharine Hepburn nos anos 60. Cartas de gente famosa depressa se tornaram no maior ganha-pão da escritora, mas as suas origens nem sempre eram fidedignas ou morais.

De facto, após ter encontrado alguma correspondência de Fanny Brice escondida entre livros da biblioteca pública de Nova Iorque, Israel acrescentou conteúdo ao texto, tornando as cartas mais apelativas e valiosas. Nos anos que se seguiram, ela concebeu toda uma operação de correspondência forjada, apoiada na ingenuidade de compradores e desejos de exclusividade de colecionadores ricos. No meio de tudo isto, a ajuda e amizade de Jack Hock, um traficante de drogas gay, revelou ser a sua maior bênção e a fonte da eventual desgraça. Lee Israel foi presa e condenada, Hock acabou por morrer devido a complicações da SIDA e, no final, a sua história foi imortalizada pela própria escritora numa autobiografia que conseguiu alcançar mais renome que qualquer uma das suas obras sobre celebridades do passado.

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© Fox Searchlight Pictures

Face a uma história tão improvável e sensacional como esta, é costume pensar-se logo em fazer um filme. Contudo, “Can You Ever Forgive Me?”, o livro, não é um objeto que sugira uma fácil adaptação ao grande ecrã. Trata-se de uma crónica de solidão e comportamentos antissociais, um retrato de alcoolismo e uma personalidade abrasiva, um conto que é mais triste que empolgante. No entanto, tais epítetos trágicos são entrecortados por um humor ácido, quase acre, e a inteligência afiada de uma grande escritora que tem tanto mal para dizer sobre si mesma como tem sobre o resto do mundo. É um trabalho ressentido e difícil, cheio de personalidade e complicadas moralidades.

Marielle Heller conseguiu traduzir tudo isso sob a forma de cinema e só por esse milagre de adaptação ela mereceria infinita admiração. Contudo, o “Can You Ever Forgive Me?” do grande ecrã não é só uma estupenda adaptação literária, sendo todo um retrato sensorial e emocional de um lugar e de um tempo, das pessoas que lá viveram e se destruíram a si mesmas no processo. Um dos aspetos do filme que salta logo à vista é a reprodução de uma Nova Iorque perdida nas marés da História. Essa cidade fumarenta de livrarias mal iluminadas, bares soturnos e apartamentos esquálidos, essa selva urbana que viverá para sempre em filmes de Woody Allen e obras como esta.

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A cenografia de Stephen H. Carter ressuscita todo esse mundo com extraordinária exatidão e atenção ao detalhe, quer sejam as pilhas de livros nos fundos de cenas ou os dejetos de gatos e comida a apodrecer debaixo de um colchão imundo. O apartamento de Israel, por exemplo, é toda uma cápsula temporal de solidão e melancolia, uma continuação arquitetónica das mágoas da sua inquilina e as facetas menos belas da sua personalidade. No entanto, num gesto de contraposição, temos a fotografia de Brandon Trost que tudo cobre numa pátina de neblina nicotizada e os matizes âmbares e cinzentos de candeeiros velhos e céus escuros. Os espaços do filme são visceralmente autênticos, mas são-nos apresentados como suspiros de um sonho triste e meio indefinido, memórias esbatidas pelo tempo.

Esta dinâmica de tons contrastantes também se repete nos outros aspetos do filme. A narrativa vive da especificidade do facto histórico, mas brilha mais quando nos mostra a intimidade emocional das personagens. Este é um drama criminal, mas os seus melhores momentos são pequenos toques humanos ao invés de enredos excitantes. São a humilhação de alguém que rouba papel higiénico de uma festa ou a dor nos olhos de um homem que teme ser lembrado como um monstro ridículo. O ofício de forjar cartas é detalhado, mas o que nos fica mais na memória são as tentativas abortadas de um romance entre uma escritora e uma livreira, entre alguém que foge da intimidade e se sabota a si mesma e alguém que ainda tem esperança no espírito.

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© Fox Searchlight Pictures

Todas estas descrições podem sugerir algo pesado e insuportavelmente doloroso. Nada podia estar mais longe da verdade, contudo. “Can You Ever Forgive Me?” tem sempre uma risada sardónica a oferecer no seguimento de alguma facada no coração. Parte desta flexibilidade tonal deriva dos atores e do modo como Heller os realizou e dirigiu, como lhes deu espaço para deixaram a tragédia prolongar-se até ao ponto em que se torna comédia e vice-versa. Melissa McCarthy, uma atriz famosa pela sua participação em paródias sem estribeiras, é quem dá vida a Israel e a sua prestação é uma tempestade complicada de ódio próprio e a necessidade desesperada por afeto e companhia. As suas cenas com Dolly Wells, como a dona de uma livraria defraudada por Israel, são tão comoventes como as cenas partilhadas com Jane Curtin, a editora rabugenta, são hilariantes.

Com tudo isso dito, o melhor parceiro de cena de McCarthy e, verdade seja dita, a estrela do filme é Richard E. Grant como Jack Hock. Tudo o que até agora dissemos sobre flexibilidade tonal e uma mistura de comédia e tragédia, especificidade histórica e abstração da memória, tudo isso é personificado pelo ator. Ele é uma fonte infindável de humor, mas lentamente mostra-nos como esse mesmo humor é uma armadura que Hock enverga para se proteger do mundo. Ele é meio absurdo, mas há algo de carismático mesmo nos seus momentos mais ridículos. Mais importante ainda é o elo que ele forja com a Israel de Melissa McCarthy, uma amizade entre dois indivíduos homossexuais e solitários, duas almas errantes num mundo decidido a esquecê-los e os enterrar. Ver os dois atores contracenar é um prazer que desafia as nossas capacidades descritivas. Por isso mesmo, não diremos mais nada. Ou melhor, deixamos-vos com uma recomendação – vejam “Can You Ever Forgive Me?”. Acreditem que vale a pena.

Can You Ever Forgive Me?, em análise
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Movie title: Can You Ever Forgive Me?

Date published: 28 de September de 2019

Director(s): Marielle Heller

Actor(s): Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells, Ben Falcone, Jane Curtin, Christian Navarro, Anna Deavere Smith

Genre: Biografia, Crime, Comédia, 2018, 106 min

  • Cláudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 75
  • Catarina d'Oliveira - 75
80

CONCLUSÃO:

Com prestações extraordinárias e a mão segura de uma grande realizadora, “Can You Ever Forgive Me?” é um belíssimo retrato de Nova Iorque nos anos 90, de uma amizade, de um esquema criminal e de solidão urbana.

O MELHOR: A química platónica, fraternal e abrasiva, de McCarthy e Grant.

O PIOR: A estrutura do filme é um pouco convencional demais para o seu próprio bem, mas não podemos negar que resulta como um esqueleto sólido para as várias observações humanas do guião.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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