"Las Hijas del Fuego" | © Gentil

Queer Lisboa ’19 | Las Hijas del Fuego, em análise

Las Hijas del Fuego” de Albertina Carri é uma odisseia pornográfica sobre um grupo de mulheres numa aventura poliamorosa. A obra é um dos títulos em competição no Queer Lisboa 23.

O que é um filme pornográfico? Pode a pornografia ser arte? Pode arte ser pornográfica? Estas são algumas das muitas questões que “Las Hijas del Fuego” se propõem a si próprio. O filme é um trabalho pornográfico, na medida em que mostra sexo não simulado, sobre ser um trabalho pornográfico. Trata-se de metacinema com uma forte veia académica, mais uma dissertação sobre erotismo que uma narrativa, mesmo que as passagens em voz-off se possam manifestar contra tais conclusões.

Tudo começa com um regresso a casa. Augustina, a narradora que tantas vezes se questiona para a audiência, volta à Argentina depois de uma viagem pela Antártida. Para a receber com abraços e beijos está Viole, a sua namorada. As duas celebram a reunião com uma prolongada cena de sexo, com dildos bifurcados e uma intimidade que transcende o usual espetáculo de corpos da pornografia corriqueira, sendo algo mais voyeurístico, mais pessoal. Em suma, é algo mais desconfortável para o espectador que as observa.

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Na noite argentina, as duas namoradas vão a um bar onde rebenta uma altercação violenta com sujeitos homofóbicos. É aí que se junta à parelha um terceiro elemento, completando a trindade ímpia que protagoniza “Las Hijas del Fuego”. Esta é a primeira de muitas adições ao grupo de mulheres que decide enveredar numa viagem pela paisagem do seu país. Pelo meio, outras figuras juntam-se ao grupo cujo destino é uma perpétua incerteza. Augustina parece viajar em busca de inspiração para escrever um filme pornográfico, enquanto Viole quer ir visitar a família.

A estrutura da obra é uma feita de episódios, onde há sempre mais sexo que drama. Talvez com uma duração menos excessiva ou uma abordagem mais esteticamente interessante, “Las Hijas del Fuego” conseguisse sustentar esta experiência. No entanto, tal como se apresenta agora, o filme é uma exaustiva prova de paciência para o espectador que, depois de umas quantas cenas de sexo e caracterizações anémicas, começa a perder a motivação para continuar a prestar atenção ao que ocorre em cena.

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Pelo menos, alguns momentos conseguem destacar-se por entre as duas horas de repetitivas ponderações seguidas de sexo explícito. Uma orgia numa igreja ao som de composições de Morricone é um belíssimo exemplo do tipo de sublime obscenidade de que o filme é capaz. Há algo de indecoroso em todo o aparato, mas tal conjunção de beleza fotográfica e espetacularidade musical resultam num instante de puro cinema que merece louvor pela sua audácia. Muitos serão os puristas musicais e fervorosos religiosos que olharão com desdém para estas provocações, mas, pelo menos, esta cena tem interesse enquanto parte de um objeto de arte audiovisual.

Também muito louvor há que ser dado à orgia que encerra o filme, com particular destaque para a cena de masturbação feminina em tempo real. Comparar “Las Hijas del Fuego” a Tarkovsky soa a baboseiras de um louco, admitimos. Com isso dito, há algo de reminiscente da vela e da piscina de “Nostalgia” no exercício de produzir um orgasmo com os dedos enfiados nos genitais femininos. Ambas as cenas são estudos de tempo em cinema, de repetição e esforço em busca de uma recompensa gloriosa que vem com o sucesso. Num caso, é uma glória espiritual, noutro é uma glória física.

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Não obstante estes elogios, voltamos a lembrar que o filme nunca consegue sustentar por muito tempo estes laivos de genialidade. “Las Hijas del Fuego” tem quase duas horas e não há um único aspeto da sua construção que justifique uma indulgência deste calibre e magnitude. Além disso, os limites que a narração levanta em relação à arte cinematográfica parecem mais um comentário sobre a incapacidade dos cineastas que aqui trabalham mais do que uma dissecação do engenho cinematográfico. É certo que é difícil representar o desejo no grande ecrã. Afinal, como é que se materializa algo que, por definição, é intangível?

“Las Hijas del Fuego”, com sua crua observação de sexo e frias considerações sobre o corpo enquanto objeto de cinema, far-nos-ia crer que tentar representar desejo é o lavoro de loucos que nunca alcançarão aquilo que tanto almejam. Só que essa mesma afirmação é um tanto e quanto absurda no contexto e um festival como o Queer Lisboa. Todos os anos, vemos como cineastas descobriram novos modos de visualizar os desejos eróticos e emocionais de personagens em cena, quer seja com soluções formalistas ou textuais. “Las Hijas del Fuego” é impressionante pela sua audácia e ambição, mas é também o tipo de filme que se julga mais inteligente do que realmente revela ser quando o examinamos.

Las Hijas del Fuego, em análise
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Movie title: Las Hijas del Fuego

Date published: 2019-09-28

Director(s): Albertina Carri

Actor(s): Disturbia Rocío, Ivanna Colona Olsen, Rana Rzonscinsky, Carla Morales Ríos, Erica Rivas, Sofía Gala

Genre: Drama, 2018, 115 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

“Las Hijas del Fuego” é um épico metatextual sobre sexo, pornografia e desejo. Alguns momentos isolados sugerem um grande feito cinematográfico, mas a totalidade do projeto é uma desilusão.

O MELHOR: O sexo na igreja ao som de Morricone.

O PIOR: A estrutura repetitiva deste exercício.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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