"O Lado Selvagem" | © Paramount Pictures

Cannes em Casa | O Lado Selvagem (2007)

A última vez que Sean Penn esteve em Cannes com um filme por si realizado, a crítica foi devastadora. “The Last Face – A Última Fronteira” mereceu todo o vitriole, pelo que o ator tornado cineasta está em busca de redenção. “Flag Day” é o novo filme, mas, como ainda não lhe temos acesso, decidimos recordar um dos trabalhos passados deste enfant terrible de Hollywood. “O Lado Selvagem” é a nossa escolha e, de longe, o filme mais triunfal que Sean Penn já realizou, tanto ao nível da crítica como do box office. Em 2008, a obra até conquistou duas nomeações para os Óscares.

Em 1990, depois de se licenciar da Universidade de Emory, Christopher McCandless decidiu por de parte os privilégios de uma vida confortável e fez-se à estrada. Inspirado pelos escritos de Leo Tolstoi e Henry Thoreau, o jovem via a vida moderna como uma armadilha, uma asfixia. Assim acontece com muitos “meninos bem” que passam a juventude numa torre de marfim, mas poucos são aqueles que passam da conjetura à ação. Atravessando o Oeste Americano, o México e, finalmente, o Alaska, McCandless viajou sem grande preparação e ainda menos conhecimentos sobre tais projetos. Sem mapas nem astúcia, ele foi tentando sobreviver até ao dia em que a sorte acabou.

Em Abril de 1992, o jovem chegou à Trilha Stampede e lá se perdeu durante meses. Chegado o Verão, a fome tinha tomado posse do seu ser e o desespero depressa lhe veio fazer companhia. Esfaimado, ele encontrou guarida nos destroços de um autocarro urbano, um objeto tão inapropriado quanto McCandless na paisagem natural. Infelizmente, chegado o quente mês de Agosto, a condição piorou e, como não conhecia o território, o aventureiro não se apercebeu que havia ajuda nas redondezas. Na carrinha ele morreu, ora de fome ou de bagas venenosas, e seu corpo foi encontrado na alvorada de Setembro. Uma das últimas fotografias tiradas pelo moribundo mostra uma nota com a seguinte mensagem: “Eu tive uma vida feliz e dou graças a Deus. Adeus e que Deus vos abençoe”.

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© Paramount Pictures

Ao longo da grande odisseia, McCandless foi conhecendo várias pessoas e comunidades díspares, encontrando lares temporários no mesmo momento em que a sua família desesperava sem saber do seu paradeiro. Foi a partir dos testemunhos desses amigos da estrada, dos diários e notas pessoais do viajante, que o jornalista Jn Krakauer construi um artigo e mais tarde um livro. “O Lado Selvagem” provou ser enorme sucesso, encantando muitos com sua tragédia Americana. Houve quem sentisse inspiração no martírio de um jovem às crueldades e magnificências da Natureza, idolatrando sua procura por uma existência fora dos limites da civilização. Um dos leitores que se apaixonou pela história foi Sean Penn.

De forma geral, Penn traduz bem o livro das páginas para o ecrã. Sua adaptação é fiel, mesmo que retrate a família McCandless com alguma vilania indevida. Acima de tudo, o filme é uma canção de amor às paisagens do continente Americano, à sonoridade das comunidades perdidas pelos EUA e sua música também. Nesse paradigma, “O Lado Selvagem” é um filme que cumpre os objetivos. A fotografia de Eric Gautier é especialmente encantadora, transfigurando a realidade dura numa coleção de postais vivos. Mesmo quando Penn se estica um pouco nas comparações visuais entre McCandless e Jesus Cristo, a câmara é tão elegante na filmagem que o simbolismo acaba por ser mais fácil de engolir. A música é também belíssima, assim como a sonoplastia. São tudo elementos que demonstram as capacidades técnicas de Penn. Ou, pelo menos, mostram que ele sabe escolher a sua equipa.

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A montagem de Jay Cassidy, nomeada para o Óscar, trata-se de um ímpio milagre de contínua reinvenção. Por vezes, até irrita, tal é sua perpétua metamorfose, sempre em busca de novas estratégias com as quais articular a perspetiva da história, seu negociar entre a pequenez humana e a vastidão do mundo em redor. Trata-se de um equilíbrio precário, muito incerto e difícil de manter. Quando a fita consegue alcançar esse raro triunfo, é como que se a luz divina se abatesse sobre “O Lado Selvagem”. Esses momentos são poucos, confessamos, mas temos que dar graças pela sua existência, apesar de tudo. Outras passagens, como uma série de piadas à volta de uma maçã são menos bem conseguidas, mesmo que os ritmos de montagem chamem a atenção pela ousadia.

Contudo, não obstante a beleza das imagens ou a estranheza de alguns ritmos, são os atores que dão ao filme a sua raison d’être. Com muita pena afirmamos que Emile Hirsch, no papel principal, é a figura menos interessante do elenco. É entre as personagens secundárias que se descobrem os melhores e mais primorosos desempenhos. Referimo-nos, por exemplo, à melancolia romântica de Kristen Stewart num dos melhores papéis da juventude. Falamos de Catherine Keener e sua lacónica presença, cheia de tristezas passadas e um sorriso misterioso. Basta um ou dois gestos e a atriz conta-nos toda a história do seu papel, especialmente aquela que existe fora dos limites da narrativa.

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O melhor de todos é Hal Holbrook. O ator envelhecido foi indicado para um Óscar por esta canção de perda, uma pequena joia de clareza emocional que insufla o filme de vida e sentimento. Muitos atores teriam somente interpretado a sabedoria anciã deste senhor, mas Holbrook acrescenta notas inesperadas à sinfonia humana. Nomeadamente, ele dá uma pontada de dor no adeus entre este patriarca solitário e o filho emprestado que McCandless se tornou. Penn e companhia podem não estar dispostos a questionar a razão e as ações do protagonista, mas Holbrook, trabalhando nas margens da história principal, mostra o egoísmo latente à odisseia. Estes intérpretes, especialmente o nomeado da Academia, são a melhor razão para se ver “O Lado Selvagem”.

O filme mais famoso de Sean Penn enquanto realizador está disponível na Netflix. Se não tens conta nessa plataforma, o filme também pode ser alugado na MEO, Google Play, Youtube, Rakuten TV, e Apple iTunes.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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