"Os Tenenbaums" | © Touchstone Pictures

Cannes em Casa | Os Tenenbaums – Uma Comédia Genial (2001)

Depois de muita espera, “The French Dispatch” de Wes Anderson finalmente estreou no Festival de Cannes. Enquanto esperamos que esse novo triunfo nos chegue às salas de cinema, recordamos outros trabalhos primorosos desse autor americano. Em 2001, Anderson assinou em “Os Tenenbaums – Uma Comédia Genial” aquele que poderá ser o seu melhor trabalho. O filme foi aclamado pela crítica, passou em competição na Berlinale, ganhou um Globo de Ouro para Melhor Ator e até conquistou uma nomeação para os Óscares – Melhor Argumento Original.

Na sua juventude, os três Tenenbaum mais novos alcançaram sucessos inconcebíveis. Chas foi um prodígio matemático, tão astuto com números que conseguiu tornar-se num magnata de palmo e meio. Seus investimentos trouxeram riqueza, tão grande que o dinheiro lhe chegou para a vida adulta. Margot, filha adotiva do clã, revelou ser um prodígio dramaturgo. Aos catorze anos, uma peça escrita por si recebeu prémios e apoios normalmente concedidos a artistas consagrados. Por seu lado, Richie chegou aos píncaros da excelência tenista e também provou ser um pintor com partes iguais de sentimento e talento. De facto, foi através da arte que ele exorcizou suas ansiedades, sua paixão pela irmã adotiva.

Considerando estes filhos extraordinários, supor-se-ia que a família Tenenbaum era um lar estável, uma fonte de apoio capaz de nutrir o génio dos mais novos. Infelizmente, a realidade era contrária. Royal, o patriarca da família, roubava a Chas, pressionava Richie e negligenciava Margot. Não admira que, quando os miúdos ainda eram adolescentes, os pais anunciaram a sua separação. Tudo isso é prólogo em “Os Tenenbaums – Uma Comédia Genial”, a primeira grande obra-prima de Wes Anderson. A ação principal passa-se anos depois, mais de duas décadas, quando a disfunção juvenil maturou em loucura adulta. Depois dos sucessos precoces, os meninos Tenenbaum vivem bem fundo num poço de desapontamento.

royal tenenbaums cannes em casa
© Touchstone Pictures

Chas é um viúvo virado pai obcecado, Margot passa a vida a mentir num casamento infeliz, e Richie viaja pelo mundo depois de uma crise nervosa. A este tumultuoso paradigma, regressa o patriarca Royal Tenenbaum, desgraçado e falido, pronto a traumatizar os filhos com mais uma enchente de afeto insincero e interesseiro. De facto, tanta é a sua manha, que o homem finge estar às portas da morte para ganhar simpatia. Uma mentira de cancro estomacal desencadeia uma espiral descontrolada de reconciliação familial logo seguida de suspeitas, revelações, tanto drama quanto absurdez. Centrando-se no pai retornado, o filme tece uma vasta tapeçaria de humanidade desiludida e em crise.

Até se encontra espaço para personagens periféricas. Eli Cash, por exemplo, é um vizinho armado em cowboy que sonha ser um Tenenbaum, enquanto Etheline, esposa de Royal, se afirma como uma mulher complicada na procura de ilusória felicidade, do divórcio e do novo amor. Para cada figura, Anderson escolheu um perfeito intérprete, diretamente da sua trupe de regulares atores. De facto, mais do que o ator se adaptar à personagem, as figuras que vivem no mundo de privilégios ilusórios d’”Os Tenenbaums” parecem ter sido extrapolados a partir das características de cada performer. Veja-se esse cowboy sempre a olhar para cima na escada social, o Eli Cash de Owen Wilson, coargumentista do filme ao lado de Anderson.

Sua languidez lacónica, seu humor de marca, informam os ritmos estilizados com que a personagem se manifesta. Mais do que isso, há uma fricção interessante entre a reticência de marca do ator e a formalidade rígida da câmara. O contraste faz-nos pensar na vulnerabilidade que se esconde nas piadas, a aspiração dolorosa do texto, quanto a palhaçada é máscara para se defender do mundo. É um equilíbrio perfeito entre ator e filme, tão bem maquinizado como um relógio suíço. Mais à frente falaremos do formalismo à la Anderson, mas primeiro há mais atores a celebrar. Como a senhora Tenenbaum, Anjelica Huston é perfeição, rematando os mais preciosos dioramas cenográficos com uma pontada de secura.

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Por muito artificial que o texto possa soar, Huston sabe sempre como de lá extrair um estranho híbrido de falsidade realista. Como o apaixonado de Huston, Danny Glover acrescenta uma nota de delicadeza a esta sinfonia de crueldades casuais e melancolias profundas. Bill Murray adocica o argumento com sua sonoridade cabisbaixa, enquanto Ben Stiller eletrifica o ecrã com o nervosismo deprimido de Chas. Por falar em sentimentos negativos, Luke Wilson nunca foi melhor do que no papel de Richie Tenenbaum. Interpretando tristeza como um bobo da corte com falcão no braço, ele traz uma forte componente humana à mais emocional história do filme. Suas infelicidades românticas são um tesouro agridoce, perfeito contraste para o pico de desespero a que o pobre tenista chega na cena mais devastadora da fita.

Com tudo isso dito, há duas grandes estrelas no elenco d’”Os Tenenbaums” e eles são Gwyneth Paltrow como Margot e Gene Hackman como Royal. No papel da escritora adotada, a atriz alcança o ponto médio entre humanidade e caricatura. Com casacos de pele grandalhões, um penteado reto e uma máscara de sombra dos olhos, Margot quase parece uma boneca viva, mas o visual é contradito pela pose displicente da intérprete, sua expressão vazia. Esse vácuo é bem calibrado pois, quando a narrativa assim o pede, Paltrow sabe como o repudiar, desvendando quem Margot poderia ser numa existência feliz. Numa comédia tão divertida como esta, tão ridícula e absurda, quem diria que a imagem de um sorriso podia ser tão cortante?

Melhor ainda do que Paltrow está Hackman, esse titã do cinema da Nova Hollywood. Em “Os Tenenbaums”, ele interpreta o seu último grande papel, fazendo de Royal um estranho miasma de deficiências parentais e genuíno remorso, ganância manipuladora com um resvalo súbito para o amor sofrido. Ao contrário dos outros membros deste elenco volumoso, Hackman nunca foi particularmente primoroso no registo teatral em que Anderson tanto gosta de trabalhar. Ele vai sempre mais pelo naturalismo que pelo deslumbramento estilístico. Royal Tenenbaum é assim um considerável desafio, um problema que o ator resolve com assombroso talento. Não é que Hackman contradiga o intuito do seu realizador, mas atribui-lhe qualidades contrastantes. A sombra faz com que a luz pareça ainda mais brilhante.

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© Touchstone Pictures

Atores aparte, texto para o lado e melancolias esquecidas, o cinema de Wes Anderson é, acima de tudo, uma expressão de formalismo puro e duro. Com composições simétricas e um design tirado do livro infantil, o universo deste cineasta rege-se por uma regra de ornamentação rígida e absoluta. As cores, longe de fugirem à vista, são um festim para os olhos, vivas e capazes de sugerir um mundo paralelo dentro do Outono Nova-Iorquino. Longe de ser estilo acima de conteúdo, neste paradigma, o estilo é conteúdo. Tanto como o resto do edifício cinematográfico, a fotografia híper-simétrica de Robert Yeoman, os cenários de David Wasco e os figurinos de Karen Patch contam uma história de crescimento abortado, pessoas tão presas às expetativas traçadas pelo passado que se esquecem de seguir em frente.

Se todos os interiores palacianos parecem quartos de crianças explodidos, é porque este é o conto de uma família entravada, despedaçada e a tentar reconstruir-se. Há que aceitar o trauma da meninice e seguir em frente. Há que aprender a viver, mesmo que o custo de tal gesto seja muito penoso. Os Tenenbaums têm que aprender a sair do quarto das crianças e enfrentar o mundo. Neste épico cómico de aristocracia Americana, o espaço que cada um ocupa é uma extensão do seu ser, seus transtornos, suas perdas e desejos incumpridos. Talvez por isso, alguns dos instantes de epifania aconteçam quando o cenário é abandonado – quando um falcão voa ou um gelado se saboreia no Central Park. Nessas cenas, “Os Tenenbaums” prova ser a obra-prima máxima deste realizador inconfundível.

“Os Tenenbaums – Uma Comédia Genial” de Wes Anderson pode ser alugado no Google Play e Youtube. Outros filmes do cineasta podem ser encontrados nessas e noutras plataformas. Graças à sua popularidade, a filmografia de Anderson é facilmente acessível.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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