Capitão Fausto

Capitão Fausto, A Invenção do Dia Claro | em análise

Haverá maneira profunda e poética de falar de uma bebedeira? Os Capitão Fausto fazem isto e muito mais no seu novo álbum.

O quarto disco dos Capitão Fausto comprova a maturidade que se esperava da banda logo a partir do seu álbum de estreia, Gazela. Lançado em 2011, nele já podemos ouvir músicas muito enérgicas, fáceis e divertidas de acompanhar, com a construção típica pop de estrofe e refrão. Ao mesmo tempo, nesta aparente simplicidade (que talvez se torna mais complexa pelas letras), encontramos uma banda com uma identidade que já começa a ser definida, muito promissora, mas ainda sem arriscar muito.

Ao chegar-nos Pesar o Sol em 2014, conseguimos identificar uma maior experimentação, ao mesmo tempo que continuamos a ouvir e identificar automaticamente que se trata de Capitão Fausto. Esta experimentação pode-se ver facilmente, por exemplo, no início da “Flores do Mal” e mesmo na “Pesar o Sol”. No fundo, este segundo álbum parece ser ainda uma procura de um caminho para a banda e distancia-se um pouco do álbum anterior e dos que lhe seguiram. No entanto, é talvez a partir desta altura que a banda se consegue afirmar mais, começando a tornar-se mais conhecida.

Capitão Fausto
Capitão Fausto

Dois anos depois a banda lança Os Capitão Fausto têm os Dias Contados, no qual já se consegue encontrar mais semelhanças com o, na altura, ainda vindouro álbum. É com este disco que Capitão Fausto mostra os planos que têm em mente e que estão realmente dispostos (e ainda bem) a procurar, experimentar, diversificar. Tal como Domingos Coimbra nos disse na entrevista, é mesmo isso que acontece com muitas bandas: falhar 95% das vezes e ficar contente com os 5% em que se acertou. As letras parecem falar pela sua geração, apesar de a banda já ter afirmado várias vezes que não o faz propositadamente. Falam das suas vivências, que estão, obviamente, inseridas numa geração. Isso, em conjunto com um dos grandes objetivos do pop, trabalhar temas com os quais os ouvintes facilmente se identifiquem, contribuem para que a banda se afirme como uma das mais importantes dos tempos que correm. Porque arriscam ser genuínos, trazendo-nos “o que quiserem cantar”. Neste álbum nasce também o formato que encontramos em A Invenção do Dia Claro, das oito canções que passam a correr.

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Finalmente, chegamos a 2019, ao álbum que partilha o nome com uma obra de Almada Negreiros. E é inegável o quanto a banda cresceu e continua a produzir músicas aparentemente simples mas que têm muito que se lhes diga, provando a sua capacidade de se reinventar, mesmo que, tal como dito acima, saibamos logo identificar de que banda se trata ao ouvir a primeira música. É um álbum realmente mais crescido: composto tanto por baladas como “Amor, a Nossa Vida” e por músicas mais ritmadas e alegres, com o toque do órgão que se assume como se fosse algo cósmico, tem a novidade, talvez influência da viagem da banda ao Brasil, de tratar temas tristes e melancólicos com uma parte instrumental muito alegre e aparentemente contraditória. Apresenta firmemente uma construção narrativa com início e fim (a música “Final” não o esconde em nada), traz-nos letras com as quais todos nos identificamos (a genialidade do pop, não é verdade?), que no fundo explora a nossa relação humana com a realidade e os sentimentos, dos quais nunca podemos fugir. Em certos casos, fala-se de situações e acontecimentos por vezes muito banais mas que, com o toque único do Tomás Wallenstein, tornam-se algo poéticas. “Boa Memória” é uma ótima ilustração disto mesmo: haverá maneira mais profunda de falar de uma bebedeira?

CAPITÃO FAUSTO | “BOA MEMÓRIA”

Os próprios Capitão Fausto foram os responsáveis pela mistura do álbum (tendo ficado o passo final da masterização a cargo de Brian Lucy – Magic Garden Mastering, Los Angeles), o que nos prova, mais uma vez, a capacidade e interesse da banda em experimentar novos processos e confiar neles próprios. É impossível não sublinharmos os arranjos em músicas como “Faço as Vontades”, que fazem qualquer ouvinte cantar a linha vocal dos “ah-ah ah-ah ah-ahaaaa”, bem como em “Lentamente”, com o verso “Meu amor, só tu me podes mudar”.

CAPITÃO FAUSTO | “AMOR, A NOSSA VIDA”

Em suma, este é um álbum que nos prova já a maturidade que a banda atingiu e que, simultaneamente, nos mostra que os Capitão Fausto ainda têm muito para nos dar, pois vontade não lhes falta, certamente. Os ritmos inspirados no funk brasileiro que este álbum transpira combinam na perfeição com os dias de Verão que se avizinham, enquanto as baladas são perfeitas para aqueles dias chuvosos que ainda vêm espreitando – ou então ao contrário, porque se é obviamente possível falar de coisas tristes enquanto se sorri instrumentalmente, também poderá fazer sentido ouvir a “Final” a caminho da praia!

Capitão Fausto, A Invenção do Dia Claro | em análise

Name: A Invenção do Dia Claro

Author: Capitão Fausto

Genre: Pop progressivo,

Date published: 2019-05-01

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  • Maria João Sá - 87
87

Um resumo

"A Invenção do Dia Claro" é um álbum que prova que os Capitão Fausto vieram para ficar. Com uma enorme capacidade e perseverança para pesquisar e procurar fazer coisas diferentes, este álbum é uma mistura de poderosas baladas sobre as banalidades dos nossos sentimentos - aos quais estamos sempre todos presos - a músicas ritmadas, com várias influências da música brasileira, levadas a um novo nível com os arranjos musicais finais e com o poder cósmico das teclas.

Incontornáveis: "Boa Memória", "Amor, a Nossa Vida" e "Faço as Vontades"

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