Captain Marvel critica

Captain Marvel, em análise

Brie Larson dá vida à personagem titular de “Captain Marvel”, a primeira mulher a protagonizar um dos filmes do Marvel Cinematic Universe.

“Captain Marvel” é o 21º projeto do Marvel Cinematic Universe e um dos mais de dez filmes de super-heróis com estreia prevista para 2019. Trata-se também do primeiro projeto que a Marvel Studios centra em volta de uma protagonista feminina e com uma mulher na cadeira de realizador. Isto vem depois da DC Comics ter provado que há muito sucesso comercial a ser tirado de tal combinação com “Wonder Woman”. Representação importa, pelo que devemos justamente celebrar estas estreias progressivas no panorama de Hollywood. Contudo, não seria injusto dizer que os elementos novos e subversivos que o projeto pode trazer ao grande ecrã são muito superados pela monumental quantidade de clichés e fórmulas repetidas de outros filmes do mesmo género.

Basicamente, esta é a história de origem da heroína titular que conhecemos enquanto parte de uma equipa militar de elite da raça alienígena Kree. Ela dá pelo nome de Vers e não tem memórias do seu passado, apenas recordando-se de uma misteriosa mulher de arma em punho e a silhueta de um ameaçador alien de uma raça que dá pelo nome de Skrull. Como uma Kree, a missão de Vers e seu propósito na vida é exterminar os Skrull do universo, sendo eles uma espécie invasora que usa poderes transfiguradores para se infiltrar noutros planetas e tomar lugar da população nativa. Como seria de esperar, seu trauma e nebulosa identidade à custa da violência dos Skrull faz de Vers uma guerreira particularmente intensa, imprevisível e inconsistente. Isso e as explosões de energia colorida que ela ocasionalmente consegue conjurar com as mãos.

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Brie Larson e Samuel L. Jackson trazem necessário carisma, humor e humanidade a este exercício formulaico.

Durante uma operação em que tentava resgatar um espião Kree, Vers é raptada pelos Skrull, que, na sua procura por informações secretas, remexem tanto na mente de Vers que acabam por revelar memórias estranhas. Parece que a nossa heroína terá tido uma vida no planeta a que ela chama C-53 e nós chamamos Terra. Em busca de respostas e para impedir que os inimigos ponham as mãos numa tecnologia experimental, Vers acaba por aterrar nos EUA em plenos anos 90. Este pormenor cronológico é extremamente importante pois toda a estética de “Captain Marvel” tem como pedra basilar a nostalgia dos anos 90, desde as escolhas musicais até aos mais inócuos pormenores de cenografia. Veja-se, por exemplo, a aterragem de Vers em território terráqueo, diretamente para dentro de um videoclube da Blockbuster.

Com isso dito, nenhuma imagem mais mergulha o espectador num devaneio nostálgico que o aparecimento de Samuel L. Jackson rejuvenescido por uma cirurgia plástica digital cuja subtileza e credibilidade são tão espantosas como assustadores. Nick Fury nunca teve tanto tempo de ecrã em mais nenhum filme do MCU e Jackson faz bom proveito da expansão do papel. Ele traz humor e carisma em doses industriais à narrativa e seu contraste com a prestação surpreendentemente introspetiva de Brie Larson não resulta em fricção tonal, mas sim numa perfeita harmonia de estrelas. Testemunhar a química amistosa dos dois atores em cena quase dá vontade de ver uma comédia ligeira sobre colegas da polícia com Larson e Jackson nos papéis principais.

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É claro que, por muita ligeireza que “Captain Marvel” possa ter à boa moda do MCU, este continua a ser um filme de ação portentoso onde, como sempre, o fado de todo o mundo acaba por ser posto em causa. Esse é um dos desenvolvimentos narrativos mais trágicos da obra, assim como uma das decisões que mais acaba por banalizar o produto final. Enquanto estudo de personagem, o filme é bastante prazeroso e cheio de algumas notas graciosas. Grande parte desse mérito deve-se à performance e presença de Brie Larson que tanto transmite a vulnerabilidade de uma mulher à procura da identidade como a determinação estoica e meio enraivecida de uma guerreira perdida numa batalha confusa e frustrante.

Olhando para os créditos anteriores da equipa de realizadores e argumentistas, Anna Boden e Ryan Fleck, é fácil ver como “Captain Marvel” tende a ser melhor quando as cenas se focam na psicologia e interação das personagens, quase como um drama independente contemporâneo. Por isso mesmo, a sequência mais empolgante e visualmente espetacular da obra nem é uma das muitas cenas de ação esquecíveis, mas sim uma viagem estrambólica pelas memórias da protagonista. Aí sim existe criatividade e a sugestão de um surrealismo transitório que nunca outrora havia marcado presença neste franchise. Quando, pelo contrário, os cineastas e sua equipa são forçados a construir vomitórios de informação expositiva e a engenhar lutas que se assemelham a quinhentas outras aventuras de super-heróis, então “Captain Marvel” descarrila, precipitando-se para as profundezas da mediocridade artística a que estes filmes nos têm vindo a habituar.

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Goose é a verdadeira estrela do filme!

Com tudo isto dito, enquanto objeto de entretenimento, há que se felicitar e celebrar “Captain Marvel”. Um dos maiores ingredientes para o sucesso do MCU tem vindo a ser a sua primorosa construção de personagens coloridas, complexas e cómicas com a qual o espectador gosta de passar tempo. O elenco de atores e personagens da obra são de primeira categoria, sendo que até os antagonistas e as personagens mais secundárias têm direito a momentos de destaque e um certo individualismo humanista. De destacar, temos Ben Mendelsohn que, apesar de estar enterrado numa maquilhagem desfiguradora e grotesca, consegue edificar uma figura que tanto trespassa a arrogância de um vilão clássico como o peso dramático que esperaríamos do protagonista de um choroso drama familiar

Tudo isso e um gato! Não podemos, de modo algum, acabar esta análise sem mencionar a maior estrela de “Captain Marvel”. Com a graciosidade predatória de um rei da selva, talentos de comédia física que dariam inveja a Buster Keaton, uma pelagem cor-de-laranja lustrosa e um olhar que tanto brilha com o típico desprezo felino pela pequenez humana como com uma sede insaciável por festinhas, Goose é uma estrela em ascensão. Os piscares de olho que o filme faz às outras obras do mesmo franchise são muito infelizes, mas Goose quase redime esta fragilidade com seu inigualável carisma e capacidade para surpreender o espectador com umas quantas reviravoltas horroríficas. Tal como Nick Fury espantamo-nos com os talentos fantasiosos deste ator de quatro patas ao mesmo tempo que o queremos mimar. Graças a Goose, diríamos mesmo que “Captain Marvel” se eleva bem acima de qualquer outro dos filmes do MCU. Afinal, mais nenhum deles tem um gatinho adorável.

Captain Marvel, em análise
Captain Marvel

Movie title: Captain Marvel

Date published: 2019-03-06

Director(s): Anna Boden, Ryan Fleck

Actor(s): Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Jude Law, Annette Bening, Lashana Lynch, Clark Gregg, Gemma Chan, Djimon Hounsou, Lee Pace, Akira Akbar, Stan Lee

Genre: Ação, Aventura, Ficção-Científica , 2019, 124 min

  • Cláudio Alves - 70
  • Rui Ribeiro - 80
  • João Fernandes - 85
  • Catarina d'Oliveira - 70
  • Marta Kong Nunes - 65
  • Luís Telles do Amaral - 75
  • Inês Serra - 55
71

CONCLUSÃO:

Como filme de ação, “Captain Marvel” é um fracasso. Aliás, como filme de super-heróis que nunca ousa trair as fórmulas muito habituais do MCU, trata-se de um desapontamento infeliz. Mesmo assim, um elenco talentoso, um argumento com boas personagens e uma equipa de realizadores capaz de negociar o equilíbrio entre drama pessoal e exercício nostálgico fazem desta proposta algo prazeroso e bem capaz de entreter. Como nota final, não há melhor resumo das mais valias e fragilidades deste projeto que a oscilante qualidade dos efeitos visuais que são maravilhosos quando se trata da manipulação facial dos atores rejuvenescidos e catastróficos quando o filme se desdobra em cenas de ação espaciais.

O MELHOR: Goose!

O PIOR: Não há suficientes cenas centradas em Goose. Verdade seja dita, também apreciaríamos mais uns quantos momentos com Annette Bening cuja presença aqui é tão estranha e incongruente como a de Tilda Swinton, Marisa Tomei e Michelle Pfeiffer noutras obras do MCU.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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