Como Treinares o Teu Dragão: O Mundo Secreto, em análise

Como Treinares o Teu Dragão: O Mundo Secreto” traz um esplendoroso fim à épica história de Hiccup, Desdentado e os vikings e dragões de Berg. Entre despedidas lacrimosas e assombrosas batalhas aéreas, este é um filme indispensável para qualquer cinéfilo.

A Natureza é uma maravilha cuja glória em muito transcende a compreensão humana e cuja grandeza muito supera a pequenez da nossa existência efémera. Ela é mãe e é sustento, é divindade criadora e um demónio que conjura flagelos sobre a sua própria criação. Ao longo do nosso tempo na Terra, o ser humano muito fez para dominar e subjugar as maravilhas do mundo natural, tornando-as combustível do progresso e comodidades a ser exploradas em nome das suas necessidades. A hubris inerente à nossa espécie depressa faz cair tais dinâmicas em espirais de abuso e exagero, sendo que a Humanidade tem vindo a gradualmente corroer o planeta seu berço, a envenenar o mundo e a esgotar e ficar dependente dos recursos naturais que perpetuam sua mesma vivência. Por muito que possamos proclamar o amor pela Natureza, temos de confrontar nosso papel como seu abusador supremo.

No final, muito depois do ser humano não ser mais que uma memória ancestral na cronologia do cosmos, a Natureza ainda existirá, ganhando a guerra pela eternidade que a nossa mortalidade e exagero nos condenam a perder. Não obstante tal conclusão predestinada, sonhamos com um balanço ideal entre os humanos e o mundo natural e há muitos que lutam em nome de tal equilíbrio. A perfeita harmonia é, contudo, uma utopia que, como todas as utopias, é necessariamente caracterizada pela sua impossibilidade. De facto, para preservar a Natureza e a salvar dos males que a vemos defrontar hoje em dia, a melhor opção da Humanidade seria deixar de existir. Como isso não é opção, lutamos por algo impossível e, pelo caminho, esperamos encontrar alguma opção sustentável. É imperativo que se tente chegar a tal existência idealizada ou então estaremos a atirar-nos de cabeça no oceano da nossa própria destruição.

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Em termos técnicos e formais, este é um milagre de animação elevada a níveis de sofisticação quase inéditos.

Tais ideias podem parecer estranhas e rebuscadas, desconfortáveis e deprimentes, mas, curiosamente, são também o alicerce da mais recente aventura animada da Dreamworks, “Como Treinares o Teu Dragão: O Mundo Secreto”. Trata-se do terceiro e último capítulo de uma trilogia baseada nos livros de Cressida Cowell sobre um mundo fantasioso onde vikings e dragões vivem ao lado uns dos outros. Os filmes anteriores do franchise testemunharam como os habitantes da ilha de Berg aprenderam a abandonar seus preconceitos e a admirar, respeitar e amar os dragões, construindo uma comunidade onde seres humanos e répteis alados cuspidores de fogo vivem ajudando-se uns aos outros. Para defender esse modo de vida, eles lutam contra o fanatismo de quem odeia humanos e de quem odeia dragões, de quem vê os dragões como escravos e como troféus de caça a marcar o valor de um homem enquanto guerreiro.

Os protagonistas de tal saga são Hiccup, o filho do chefe de Berg, e Desdentado, um Dragão Fúria da Noite, o mais rápido e temido de todos os dragões. Estes heróis cruzaram caminhos quando Hiccup, ainda adolescente, tentou matar o animal poderoso para se afirmar como merecedor do respeito dos seus pares, mas a sua compaixão fez florescer amizade entre os dois. Ao longo da história destes filmes, vimos seu elo fortificar-se face às adversidades e aventuras desse mundo fantástico. Vimos também como de crianças ingénuas, as personagens principais humanas cresceram, abandonando a infantilidade da meninez pelas preocupações e responsabilidades de adultos com posições de poder e influência na sua sociedade. Quem começou a ver os filmes mais ou menos com a idade de Hiccup, tem vindo a crescer ao seu lado durante a última década de cinema.

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Chegado este terceiro episódio, vemos como Hiccup e companhia são agora jovens adultos, principais defensores e líderes de Berg. A pequena ilha, por seu lado, é tão magnífica como é insustentável, parecendo uma metrópole de casebres construídos verticalmente uns sobre os outros que podem cair a qualquer momento com o peso das centenas de dragões que parecem ver Berg como seu lar e os vikings como seus amigos. Depressa nos apercebemos que nem todo o universo destes filmes vive em paz, sendo que toda uma armada de vikings hostis vê Berg como um inimigo. No desespero, alguns dos chefes antagónicos procuram a ajuda de um infame caçador cuja grande ambição é matar todos os Fúrias da Noite. Com a segurança de todos e tudo o que ama em risco, Hiccup organiza um êxodo de Berg, levando humanos e dragões numa busca por um novo lar. Sua esperança é baseada num mito antigo que diz que, na orla do mundo, existirá um paraíso secreto de onde todos os dragões vêm. Ao mesmo tempo, um misterioso dragão fêmea capta a atenção e conquista o coração de Desdentado que assim descobre que não é o último Fúria da Noite.

Considerando os temas que já levantámos e esta premissa narrativa, é fácil entender para que conclusão todo o enredo se dirige. “Como Treinares o teu Dragão: O Mundo Secreto” não é um filme valorizado pela sua imprevisibilidade. Diríamos mesmo que o impacto da sua história devém do facto do espectador rapidamente entender qual será o fim da aventura, experienciando o filme não como uma caixinha de surpresas, mas como um estudo de personagens a confrontarem e aceitarem os sacrifícios que terão de fazer para salvar aquilo que mais amam. Mesmo o vilão acaba por ser um fator relativamente inconsequente, sendo que são as questões que ele levanta que interessam e não tanto a sua loucura homicida. Ele dá forma à narrativa de ação, mas, num gesto que recorda as obras-primas de Hayao Miyazaki, o que realmente afeta o espectador e as personagens são as realidades tristes do mundo e do universo e não o mal de indivíduos.

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Uma despedida lacrimosa a uma das melhores trilogias do cinema do século XXI.

É difícil crer que um filme de animação feito putativamente para crianças lide com tais temas e histórias. Há quem até tenha visto aqui uma desastrada e inadvertida defesa de segregação, pois é mais habitual vermos histórias para miúdos tentarem refletir sobre moralidade social do que sobre a relação entre o Homem e a Natureza. Contudo, considerando quanto os animadores fazem para sublinhar a qualidade animalesca dos dragões que mais parecem gatos gigantes com proclividades pirotécnicas, diríamos que equiparar os dragões a comunidades humanas do nosso mundo é um erro. Uma comparação mais legítima seria à dinâmica entre pessoas que adoram tanto animais selvagens que tentam criá-los em cativeiro quase como animais domésticos, acabando por obliterar a capacidade desses seres para viver no seu habitat natural ou por conjurar uma tragédia violenta. Visto nesses parâmetros, o filme torna-se numa magnífica, mas dolorosa história de dever e sacrifício, de Homem e Natureza a entenderem os limites da sua comunhão utópica.

Para não afugentar o leitor com todas estas considerações portentosas, há que dizer ainda que este é um fabuloso objeto de entretenimento. As imagens, por si só, são um milagre de tecnologia topo de gama e ambição artística, mostrando algum do melhor trabalho de iluminação e movimento de câmara em toda a História do Cinema de Animação. O design e animação das personagens é, como sempre, exemplar, especialmente no que diz respeito aos dragões mais adoráveis. Além de tudo isso, a montagem, a música e os efeitos especiais fazem desta aventura uma joia de cinema de ação, tão tecnicamente impressionante como arrebatadora para os sentidos e os sentimentos. Em suma, “Como Treinares o Teu Dragão: O Mundo Secreto” é uma bombástica conclusão para uma das melhores trilogias do cinema do século XXI, assim como a suprassuma joia da coroa da Dreamworks Animation.

Como Treinares o Teu Dragão: O Mundo Secreto, em análise
Como Treinares o Teu Dragão: O Mundo Secreto

Movie title: How to Train Your Dragon: The Hidden World

Date published: 2019-03-06

Director(s): Dean DeBlois

Actor(s): Jay Baruchel, America Ferrera, F. Murray Abraham, Cate Blanchett, Gerard Butler, Craig Ferguson, Jonah Hill, Kristen Wiig, Christopher Mintz-Plasse, Kit Harington, Justin Rupple

Genre: Animação, Ação, Aventura, 2019, 104 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Filipa Machado - 85
  • Daniel Rodrigues - 65
80

CONCLUSÃO:

De batalhas no nevoeiro iluminado por espadas em chamas até à glória irreal de uma caverna paradisíaca, “Como Treinares o Teu Dragão: O Mundo Secreto” é um festim para os sentidos, especialmente o olhar. Ainda mais valioso que sua construção formal e esplendor é, contudo, o impacto emocional de uma narrativa surpreendentemente matura que não descura no humor ou na ação. Como capítulo final de uma trilogia fantasiosa, este é um triunfo do mais alto gabarito.

O MELHOR: O final feliz, mas doloroso, sua maturidade, beleza e o uso preciso de alguns leitmotivs musicais que funcionam como pequenas facadas no coração. Além disso, a cenografia e fotografia digital deste projeto é de cortar a respiração para quem entenda um pouco de animação e seu desenvolvimento tecnológico.

O PIOR: A desidratação resultante do derramar de lágrimas para espectadores mais suscetíveis a tais reações.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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