"Carmen & Lola" | © Orange S.A.

Queer Lisboa ’19 | Carmen & Lola, em análise

Carmen & Lola” é um filme espanhol que, em 2018, passou no Festival de Cannes e foi nomeado para vários prémios Goya. Agora, a obra finalmente chega aos cinemas portuguesas pela mão do 23º Queer Lisboa, onde o filme integra a competição de Longas-Metragens de Ficção.

Um festival como o Queer Lisboa tem o poder para ser tanto uma bênção como uma maldição sobre os filmes que escolhe exibir. Por um lado, o Queer dá projeção a muitos filmes que, de outra forma, jamais seriam vistos por audiências portuguesas. Por outro, a sua apresentação de tantas obras orientadas pela mesma linha temática tende a resultar num jogo de repetição que enfatiza as fórmulas e convenções destes mesmos filmes que se dizem fugir à norma. Histórias de romances proibidos a florescer, entre jovens, no seio de comunidade opressivas são algo muito comum. Só no segundo dia do festival, já temos múltiplos exemplos da mesma premissa.

O problema não vem necessariamente aliado à semelhança de histórias. O problema nasce de uma semelhança de mecanismos e soluções narrativas e estruturais, de um uso de fórmulas comuns a quase todas estas produções. O que poderia ser incrivelmente específico num festival de cinema mais generalista, torna-se num lugar comum no contexto do Queer Lisboa. “Carmen & Lola” é o triste exemplo de um filme que é inexoravelmente prejudicado pela comparação direta com tantos outras obras semelhantes. Este projeto da realizadora Arantxa Echevarría segue os modelos típicos deste subgénero do cinema queer e não oferece muitas variações interessantes.

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O único elemento que realmente torna este romance proibido num objeto de cinema diferenciado de tantos outros é a cultura opressiva no centro de tudo. Esta é uma história sobre raparigas ciganas a viver na Madrid dos nossos dias. Efetivamente, “Carmen & Lola” é sobre uma comunidade minoritária dentro de outra comunidade minoritária. Isto poderia trazer grande originalidade ao projeto não fosse a incapacidade dos cineastas para encontrar o que quer que seja de positivo na cultura das suas personagens. É claro que, antes de examinar o modo como “Carmen & Lola” retrata o mundo em que se desenrola, convém mencionar o esqueleto básico da sua história de amor.

Lola é uma adolescente com quase 17 anos que vive com uma família fervorosamente religiosa. O seu pai, em particular, está preso a ideias muito tradicionais do lugar de uma mulher na sociedade e sente-se incapaz de entender os dilemas da filha. Para ele, desde que haja comida na mesa, tudo está bem e é impossível imaginar o que é que uma rapariga pode querer além de ajudar a família, casar-se jovem e ser mãe da próxima geração. Por seu lado, a mãe de Lola é um pouco mais compreensiva, mas também ela se sente a grande distância da filha. Lola é uma aspirante a ornitóloga que sonha em ser professora, ela gosta de se expressar artisticamente com grafitis e, sem ninguém saber, explora os seus desejos homossexuais através da internet.

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Comparada com esta maria-rapaz que adora pássaros e grafitar paredes, Carmen é uma rapariga muito mais tradicional para o resto da comunidade cigana. Quando a conhecemos, ela está prestes a ficar noiva e já se fazem os preparativos para as bodas. Ela é tradicionalmente feminina e as suas roupas revelam isso mesmo, sendo mais provocadoras que as de Lola sem, no entanto, violarem a ideia de pureza que o seu pai usa para lhe arranjar um noivo. Ao contrário da outra protagonista, Carmen nunca questionou a sua sexualidade e, quando é, pela primeira vez, confrontada com os desejos de Lola, a sua reação revela a intolerância que lhe foi incutida e ensinada desde nascença.

Contudo, como sempre ocorre nestas histórias, os sentimentos de Lola lá são retribuídos por Carmen e as duas começam um romance secreto, longe dos olhos e julgamentos do resto da sua comunidade cigana. Também o desenvolvimento de tal fio narrativo não foge muito ao esperado. A única aliada das raparigas é Paqui, uma jovem que olha criticamente para os costumes e tradições mais machistas da sua cultura, mas, ao mesmo tempo, está ciente da opressão que os próprios ciganos sofrem por parte da sociedade espanhola. É ela que apoia Carmen e Lola quando a verdade vem ao de cima e a situação explode com muita gritaria, lágrimas e crueldade intolerável por parte de pais que, num mundo justo, conseguiriam amar os seus filhos de modo incondicional.

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Esteticamente, “Carmen & Lola” é quase tão banal como é a nível de estrutura narrativa. Há aqui uma pátina de realismo europeu que quase nunca sofre variações. Só mesmo quando as duas amantes dançam numa festa, uma ilha de intimidade no meio do espaço público, é que a realizadora parece lembrar-se que a linguagem cinematográfica pode dizer tanto ou mais que o diálogo escrito. Considerando as especificidades culturais do filme, esta falta de inspiração estética é bem triste. Aliás, há um feio desprezo pela iconografia, pela cultura e pelo modo de vida cigana no modo como o filme retrata toda a comunidade. Uma maior ambivalência moral teria tornado o filme mais complexo e menos miserabilista.

O ano passado, o Queer Lisboa mostrou-nos uma premissa semelhante em “Desobediência”, mas esse filme tanto sabia evidenciar a qualidade opressiva da comunidade tradicional no seu centro, como também destacava as suas benesses e mais-valias. O que salva “Carmen & Lola” é a pureza das suas emoções e, acima de tudo, o modo como o elenco de atores amadores explora as propriedades melodramáticas do guião. Quando o clímax rebenta sobre as cabeças das personagens, é como se uma corrente elétrica passasse pelo espectador. De repente, a crueza realista paga os seus dividendos e os atores dão tudo o que têm. Nesses instantes, este filme torna-se numa experiência cáustica e urgente, um grito de fúria e desespero contra um mundo onde mesmo aqueles que são oprimidos se veem no direito de oprimir aqueles que presumem ser diferentes da norma.

Carmen & Lola, em análise
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Movie title: Carmen y Lola

Date published: 21 de September de 2019

Director(s): Arantxa Echevarría

Actor(s): Zaira Moreno, Rosy Rodríguez, Moreno Borja, Rafaela León, Carolina Yuste, Juan José Jiménez, Lucas Heredia, Jacqueline Jiménez

Genre: Drama, Romance, 2018, 103 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Começado com o desabrochar do desejo e terminado com um raio de esperança e incerteza, “Carmen & Lola” é um comovente romance lésbico que segue muitos dos modelos narrativos do cinema queer contemporâneo. Grandes prestações de um elenco de amadores e a explosão emocional do clímax salvam um filme que, no meio do Queer Lisboa, parece quase um lugar comum.

O MELHOR: O trabalho dos atores, especialmente Carolina Yuste como Paqui. A atriz ganhou o Goya para Melhor Atriz Secundária e é fácil entender essa decisão da Academia Espanhola.

O PIOR: A qualidade meio cliché da estrutura narrativa e a vilificação moralmente binária que o filme faz da comunidade cigana.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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