"And Then We Danced" | © Takes Film

Queer Lisboa ’19 | And Then We Danced, em análise

And Then We Danced” é o filme que a Suécia escolheu para a representar nos Óscares de 2020. Esta obra sobre bailarinos da Geórgia é uma das longas-metragens em competição nesta 23ª edição do Queer Lisboa.

Em 2018, o Conselho da Europa divulgou os resultados de um estudo sobre crimes de ódio, discurso de ódio e discriminação na Geórgia. Segundo os dados reunidos nesse estudo, apesar da maioria dos georgianos verem a diversidade como algo positivo para o país, 36% da população era contra. As razões dadas para tal reação negativa face a diversidade social eram, principalmente, o medo que tais progressismos viessem a corroer e destruir a cultura e tradições da Geórgia. As minorias LGBT+ são as mais afetadas por tal intolerância e o registo de crimes de ódio contra essa população tem vindo a aumentar exponencialmente ao longo dos últimos anos.

Basta ver os créditos de “And Then We Danced” para nos apercebermos que tais ameaças não são um abstrato desconhecido, mas algo virulento que pesa sobre as costas de todas as pessoas que, na Geórgia, ousam fugir aos ideais de uma cultura heteronormativa. Apesar de este filme sobre bailarinos colocar uma enorme ênfase em variações coreográficas sobre danças folclóricas, a pessoa responsável por tais coreografias não aparece listada nos créditos. Isso terá sido feito a pedido dessa mesma entidade, quiçá por medo de repercussões fosse o seu nome associado com um filme que já veio a causar furor na Geórgia e a ser inclusive criticado negativamente pelo Ministério da Cultura.

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© Queer Lisboa

O filme, realizado pelo sueco Levan Akin, foca-se na história de Merav, um bailarino que, desde tenra idade, tem treinado com a Companhia Nacional de Bailado da Geórgia. A sua vida é dedicada ao aperfeiçoamento de estilos de dança tradicionais do seu país, mas ele é regularmente criticado por não personificar o ideal masculino que estas danças, muitas delas com origens militares, celebram e tipificam. Há uma fluidez nos movimentos de Merav que contradiz a agressividade máscula que se pretende. Na dança georgiana, o homem deve estar em contraste direto com uma ideia de pureza e virgindade feminina. Como o seu instrutor diz, Merav é demasiado suave, demasiado fraco.

Muito se fala, ao longo de “And Then We Danced” sobre a essência da dança tradicional da Geórgia. Segundo um dos grandes senhores da Companhia Nacional, estas danças não são sobre perfeição coreográfica. Não, estas danças são sobre o espírito da nação da Geórgia, são sobre homens másculos que são como monumentos. O que o filme efetivamente questiona é esta mesma masculinidade como algo sinónimo de agressividade, de brusquidão e de falta de emoção. Tais visões, unem nacionalismos conservadores a machismos que, para Merav, não fazem sentido. Ele talvez nem se aperceba disso, mas a sua mera existência é um poderoso contra-argumento para tais retóricas.

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O bailarino, maravilhosamente interpretado por Levan Gelbakhiani, é um espetáculo de musculatura esculpida para o ofício da dança. Ele é um homem, identifica-se como um homem, mas não é nada como o ideal georgiano de masculinidade. Ele é suave ao invés de brusco e a sua relação com Mary, sua parceira de dança de há muitos anos, é amizade platónica ao invés de um jogo de dominação sexual. Merav é um homem que deseja outros homens, mas não deixa por isso de ser um homem. Merav é um bailarino formidável da dança tradicional georgiana e a sua incapacidade de corresponder aos seus paradigmas de masculinidade não é tanto uma falha de Merav como é uma falha de uma cultura incapaz de ver além de definições arcaicas do que é ser ou não ser um homem.

Tudo isto se complica quando chega à companhia um novo bailarino. Irakli parece ser tudo o que Merav não é e rapidamente domina o tipo de dança “masculina” que o nosso protagonista tanto luta para aperfeiçoar. “And Then We Danced” olha um lado do desejo homoerótico que raramente é retratado no cinema Referimo-nos ao modo como a atração e a inveja tantas vezes andam de mãos dadas e são, até um certo ponto, indissociáveis. Merav quer ser como Irakli, mas também quer Irakli. O que se segue é uma dança romântica bem familiar a qualquer pessoa que tenha tido de se aventurar pelo labirinto da convenção social para tentar descobrir se os seus sentimentos eram recíprocos.

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© Takes Film

Uma audiência habituada às fórmulas e mecanismos do cinema queer contemporâneo também encontrará aqui muito de familiar e expectável. “And Then We Danced” não é uma proposta particularmente original no que se refere ao retrato de romance a florescer em sociedades opressivas, mas acrescenta certas notas de preciosa dissonância a uma sinfonia já muitas vezes tocada. O foco na dança traz especificidade ao exercício e as conclusões da história fogem à norma. Não há felicidade descomplicada, mas também não há tragédia. Além disso, o clímax, curiosamente, não é uma resolução da história de amor, mas uma resolução esperançosa de relações fraternais, entre irmãos de sangue e irmãos e irmãs de dança.

Ao nível de formalismos e de questões estéticas, “And Then We Danced” também representa uma bem-vinda variação construída sobre os modelos típicos do realismo do cinema europeu moderno. Há muita câmara ao ombro e muita luz natural, contudo, certos mecanismos delineiam a especificidade deste exercício. O modo como Akin e a sua diretora de fotografia, Lisabi Fridell, usam baixa profundidade focal para destacar os movimentos da dança é algo particularmente belo e incomum. Também muitos aplausos hão que ser dados ao trabalho de música e sonoplastia que, desde os primeiros instantes da obra, nos enchem o ouvido com os sons do folclore georgiano e os ruídos de corpos que se partem e abusam em nome da Arte da dança.

And Then We Danced, em análise
and then we danced critica queer lisboa

Movie title: And Then We Danced

Date published: 21 de September de 2019

Director(s): Levan Akin

Actor(s): Levan Gelbakhiani, Bachi Valishvili, Ana Javakishvili, Giorgi Tsereteli, Tamar Bukhnikashvili, Marika Gogichaishvili, Kakha Gogidze, Levan Gabrava, Ana Makharadze, Nino Gabisonia, Mate Khidasheli, Aleko Begalishvili

Genre: Drama, Romance, 2019, 105 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

“And Then We Danced” é uma crítica e uma homenagem a tradições ancestrais da Geórgia. O filme disseca uma cultura machista e propor novos paradigmas de masculinidade complicada por desejo queer e identidades fora da norma. Grandes atores e ainda melhores bailarinos dão vida ao projeto e um glorioso trabalho de câmara traz virtuosismo cinematográfico à habilidade dos corpos dançarinos.

O MELHOR: O clímax dançado do filme é um assombro. Quase dá vontade de nos levantarmos a meio do filme e aplaudir o esforço de Levan Gelbakhiani. Isso e uma sequência de casamento e corações partidos elevam o filme acima de tantos outros trabalhos com semelhantes histórias.

O PIOR: A dimensão formulaica que muito do filme demonstra a nível narrativo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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