Carol | O estilo de Abby Gerhard

 

Diferente da delicadeza e feminilidade de Carol, Abby Gerhard, a sua melhor amiga, demonstra um visual mais masculino e distante dos ideais conservadores da década de 50.

 

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Apesar das suas diminutas cenas, a personagem de Sarah Paulson, a melhor amiga de Carol, Abby Gerhard, teve direito a uma pesquisa visual e construção estilística tão cuidada como as protagonistas, Infelizmente, segundo a figurinista, muita dessa construção visual eventualmente perdeu-se devido às poucas cenas com a personagem que acabaram por ser incluídas no filme. Mesmo assim, o estilo de Abby é memorável e brilhantemente indicativo das suas peculiaridades enquanto personagem.

Carol

Abby, ao contrário de Carol, é uma mulher que vive abertamente como uma lésbica, não tendo sequer cuidado de baixar a sua voz em restaurantes quando discute com Carol o seu interesse numa talhante ruiva, por exemplo. Essa abertura pessoal reflete-se na sua roupa, apresentando um estilo bastante distinto do da sua melhor amiga.

Carol

Tal como Carol, há uma certa riqueza e privilégio na sua aparência, mas ao contrário de Carol não é uma visão de feminilidade abastada que Abby transmite. Os seus fatos foram inspirados pela moda de regiões mais campestres dos EUA, com conjuntos mais práticos para uma vida ligeiramente mais ativa e atlética que a de uma socialite urbana. Dessas mesmas referências de época vieram os tecidos em tons quentes e cheios de padrões geométricos que caracterizam as suas roupas que, em termos de silhueta, apresentam um corte muito próximo dos anos 40, com traços masculinos, ombros acentuados e uma severidade contrária aos estilos mais suaves e conservadores celebrados nas revistas de moda da época.

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Esta leve masculinidade aplicada a peças femininas não é exclusiva dos fatos de Abby. Quando Therese está a comprar um disco para oferecer a Carol, ela vislumbra um casal de mulheres vestido de modo andrógino, cujas roupas foram criadas por Sandy Powell a partir de fotografias de casais lésbicos da época, assim como de imagens da comunidade homossexual da Nova Iorque de então. Nesse vislumbre, há uma identificação no olhar de Therese, uma proximidade talvez incompreendida pela própria protagonista, mas que, quando esta é confrontada com Abby, já se tornou perfeitamente clara.

Carol

Outros interessantes detalhes dos figurinos de Abby, inspirados em fotografias de mulheres abertamente lésbicas da época foram, por exemplo, o seu anel sinete e uso de pequenos lenços atados à volta do pescoço em padrões que contrastam com os seus blazers.

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Nem mesmo nas personagens secundárias, Sandy Powell descurou na sua atenção ao detalhe. Depois de todos estes exemplos de estilo feminino, vem ver o estilo dos homens de Carol.

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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