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Casa Gucci, em análise

Após a estreia de “O Último Duelo”, Ridley Scott está de regresso ao grande ecrã com “Casa Gucci”, protagonizado por Lady Gaga e Adam Driver. Será que o novo filme mantem a qualidade elevada a que o cineasta nos habituou?

DO GLAMOUR E DA GANÂNCIA

No espaço de algumas semanas, muito por causa da pandemia de COVID-19, que atrasou a estreia de muitos filmes produzidos antes dos confinamentos que entretanto foram impostos, os distribuidores de cinema deram a ver dois filmes de Ridley Scott. Uma incursão pelos jogos de poder e defesa da honra na idade-média francesa, consubstanciado num muito competente THE LAST DUEL (O ÚLTIMO DUELO), baseado no livro de Eric Jager THE LAST DUEL: A TRUE STORY OF TRIAL BY COMBAT IN MEDIEVAL FRANCE, e o mais recente HOUSE OF GUCCI (CASA GUCCI), igualmente baseado numa obra literária, THE HOUSE OF GUCCI: A SENSATIONAL STORY OF MURDER, MADNESS, GLAMOUR AND GREED, escrita por Sara Gay Forden. Na “versão” cinematográfica, estamos no domínio daquilo que, logo de início, uma legenda inserida no filme indica ser a história verdadeira dos acontecimentos que serão referidos, ou seja, a suposta verdade onde os argumentistas foram buscar a matéria para escrever o argumento. Partimos assim do princípio, que o que vamos ver foi baseado no que realmente aconteceu, ou seja, inspirado na história real e não numa história real, o que faz muita diferença. Seja como for, aqueles que analisarem a estrutura do filme nunca devem esquecer que, qualquer que seja a verdade dos factos, o que estamos a analisar não passa de uma obra de ficção, e será sempre como obra de ficção que este filme deve ser visionado.

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E que factos são esses que o filme nos revela, mesmo que essa revelação nunca saia do plano ficcional? Primeiro, há que dizer uma coisa. Se os espectadores forem ver este filme na esperança de assistirem a mais um biopic fútil sobre a futilidade do mundo da moda e dos homens que manipulam os cordelinhos das autênticas marionetas que servem de artistas e modelos nos fastidiosos desfiles da feira de vaidades, desenganem-se. Felizmente, nada disso faz parte essencial da estrutura narrativa. Polvilhados aqui e além, sim, estão lá os desfiles e os bastidores dos mesmos, mas apenas na medida justa para darem o enquadramento histórico e gerarem a atmosfera necessária e suficiente para contextualizar o que importa mesmo, o retrato impiedoso e, por vezes, cruel dos diversos ramos e das múltiplas contradições da família Gucci. Pairando sobre as personagens deste clã que reivindica pergaminhos que na hipótese mais provável nunca foram seus, iremos encontrar uma outra personagem, com menos lastro aristocrático, melhor será dizer, pseudo-aristocrático, mas que aqui funciona como a “outsider” lúcida e perspicaz na sua imensa ambição, sentimento capaz de dar um impulso ao negócio familiar que outros não sabem materializar ou capitalizar, ou ainda que alguns querem assumir apenas para seu único e exclusivo benefício.

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Esta figura, interpretada por Lady Gaga, não é outra senão a gold-digger Patricia Reggiani que, numa festa para a qual fora convidada por rotina, encontra Maurizio Gucci, um dos membros mais discretos da família Gucci, personagem interpretada por Adam Driver. Nas sequências que se seguem, Ridley Scott desfaz qualquer dúvida que ainda pudéssemos manter sobre a personalidade ambiciosa e manipuladora de Patricia que, pouco a pouco, se insinua no círculo mais íntimo dos Gucci. O realizador faz o retrato desta sedutora apresentando-a como aquilo que ela é, a filha de um empresário da camionagem que, manifestamente, não consegue esconder as suas origens modestas, sobretudo a sua frágil cultura, em pleno contraste com a requintada educação e o estilo de vida dos Gucci, para quem o pai de Patricia não passa de um simples, leia-se, desprezível, novo rico com prováveis ligações aos meandros da Mafia. Depois o argumento irá prosseguir no retrato da construção da rede urdida por esta jovem de modo a alcançar um patamar de confiança, quer do noivo quer do seu pai, umas vezes em voz alta e outras em surdina, gerando o primeiro grande conflito dramático. Porque o pai, Rudolfo Gucci, não vai na conversa de Patricia, o filho decide abandonar o conforto palaciano da casa paterna para viver uma vida de operário na empresa rodoviária do pai da sua namorada: Patricia, a mulher com quem irá casar-se, de certa forma comprometendo um futuro promissor como advogado, na esfera de influências da burguesia italiana, mais concretamente de Milão. Mas a vida simples não parece entrar na equação desta jovem de vontade indómita, decidida a vender a alma ao diabo para alcançar os seus fins. Neste contexto, o casamento vai ser o primeiro passo para Patricia avançar para uma estratégia com algum perigo, muitos sinais conspirativos e comportamentos pouco leais. Por detrás, está a sua ambição de poder, aquele que se conquista através do dinheiro, mas igualmente de um outro poder, digamos, ainda mais “erótico”, o da ascensão social, que faz dela uma peça decisiva no xadrez socioeconómico de uma família incapaz de gerir as suas mais-valias, a marca que os diferencia das outras que, no mercado supercompetitivo da alta-costura, não dão espaço para os mais fracos sobreviverem. Por isso, ela não olha a meios para de algum modo seduzir o irmão do pai de Maurizio, personagem interpretada por Al Pacino, que de Nova Iorque para o mundo vai gerindo, como quer e lhe apetece, o império que diz ser a sua criação, o império Gucci. Numa sequência exemplar, vemos Patricia a dar conta da fragilidade destes impérios quando encontra, numa qualquer rua de Manhattan, uma série de malas Gucci, as que se vendem a pouco mais de 30 dólares. Para ela, aqueles objectos são a prova de que, por um lado, o mercado e, por outro, os Gucci não conseguem evitar ou combater o falso. Mas Aldo Gucci contradiz Patricia ao afirmar, por outras palavras, que o mercado não é falso ou verdadeiro. É simplesmente aquilo que ele quiser que seja. Esta lógica acaba por ser a mais violenta crítica, voluntária ou involuntária, da ilusória estratégia de Patricia, que pode ser vista como fruto de uma outra forma de imitação, que passa por querer enquadrar-se na estratégia do capitalismo dominante sem conhecer os seus mais finos meandros. No fundo, o património da Casa Gucci não passaria de um jogo de cartas, viciado por membros que aceitam as suas regras, na medida em que possam jogar com um naipe previamente marcado. Um mundo que nem ela nem Maurizio dominam por completo e que, mais para a frente, irá precisar de capitais estrangeiros para sobreviver. Mesmo que nenhum membro da família Gucci faça parte dessa solução.

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Para que esta ficção do real apresente sinais de grande eficácia no plano cinematográfico, não podemos deixar de referir a excelência do casting. Primeiro, a opção por Lady Gaga. Na verdade, ela possui aquele lado desajustado dos ambientes burgueses. Ela e os seus progenitores situam-se, sem qualquer sombra de dúvida, naquilo que podemos apelidar de perfeitos representantes da pequena e média burguesia italiana, formada na Itália dos anos 70, no seio de um país dominado por conflitos e contradições entre um lado e o outro da barricada política e social. E ela faz muito bem o papel de uma mulher ambiciosa, gananciosa e, finalmente, vulnerável ao ciúme. Passa a maior parte do filme deslumbrada com os sinais exteriores de riqueza e o bem-estar provenientes de uma existência alicerçada numa espécie de conto de fadas para adultos ociosos. Quando vê que esse mundo não passa de uma ilusão, desesperada por recuperar a sua mais-valia, ou seja, Maurizio, acaba por cometer um erro de consequências funestas. Perde assim o controlo que sempre desejou alcançar e coloca-se, literalmente, nas mãos de outra mulher oriunda da mais pura fancaria audiovisual, uma espécie de bruxa do pequeno ecrã, interpretada por Salma Hayek.

Depois temos Adam Driver. Já o vimos melhor noutros filmes, mas aqui consegue credibilizar a sua personagem investindo numa representação sóbria, low-profile, uma máscara onde podemos ler mais do que ver as contradições da alma de Maurizio Gucci, em pleno contraste com a exuberância facial de Lady Gaga, e o relativamente frágil domínio que esta demonstra das nuances do sotaque Made in Italy. Finalmente, Al Pacino. Para compor a sua personagem, uma figura complexa que esconde as cartas do baralho viciado com que joga contra ou a favor dos que o rodeiam, incluindo o seu filho, apresenta-se aqui como o grande actor que sempre foi, na pele de um homem a quem a idade não favoreceu, como sucede com o irmão, interpretado por Jeremy Irons. Está com peso a mais, e no rosto inventa um sorriso falso e sarcástico, como o de um anjo negro prestes a dar a mão a um anjo exterminador, Patricia Reggiani, aliás, Patricia Gucci, como ela insiste em ser chamada.

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Destaque ainda para os valores de produção visíveis na direcção artística, onde o guarda-roupa cumpre a sua função sem impor artificialmente qualquer exposição gratuita do mundo da moda, que seria redundante e desviaria a atenção do fundamental. Destaque também para a fotografia e a banda sonora musical. Nesta última estão presentes uma série de referentes das sonoridades musicais dos anos que viram a ascensão e queda da família Gucci, nome e marca que hoje perdura sem a presença de um único dos membros que deram corpo e alma a uma instituição emblemática, a Casa Gucci.

João Garção Borges

Casa Gucci, em análise
House Casa Gucci Poster

Movie title: Casa Gucci

Date published: 25 de November de 2021

Director(s): Ridley Scott

Actor(s): Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jeremy Irons, Jared Leto, Salma Hayek e Jack Huston

Genre: Drama, Crime, 2021, 157 min

  • João Garção Borges - 70
70

Conclusão:

PRÓS: Escolha exemplar de um elenco, onde se destaca a interpretação de Lady Gaga. Já sabíamos que ela não era apenas uma figura do mundo da música, mas aqui ela demonstra querer dar o salto seguro para uma carreira cinematográfica de maior fôlego. 

Felizmente, não é uma biografia da família Gucci e das suas contradições, nem sequer um filme sobre os meandros do mundo da moda. De facto, antes pelo contrário, estamos no domínio do cinema que gosta das histórias bem contadas e dos actores para lhe darem a força e o espírito que os grandes casos de loucura, glamour e ganância precisam. Seja com Gucci ou sem Gucci. 

CONTRA: Nada que comprometa o fio narrativo e os seus 157 minutos que, ao contrário do que alguns andam para aí a dizer, possui a duração justa e adequada. 

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