Margarida Moreira na pele de Maluda © RTP

Maluda | Margarida Moreira fala-nos sobre dar vida à pintora portuguesa

Margarida Moreira esteve à conversa com a MHD para falar-nos sobre um dos seus melhores desempenhos no filme “Maluda”. 

Maluda (1934-1999), a artista que revolucionou a pintura com as suas formas geométricas e retratos célebres de personalidades nacionais voltou à vida através de um telefilme biográfico produzido pela RTP. Com Jorge Paixão da Costa na cadeira de realizador, o filme “Maluda” faz-nos descobrir a Maluda ou Maria de Lourdes, além do dom artístico através da soberba interpretação de Margarida Moreira.

Com o lançamento do filme na RTP2 no passado dia 15 de novembro, chegou-nos a possibilidade de conversar com a atriz que dá vida a Maluda. Com caloroso sorriso, Margarida Moreira recebeu-nos via Zoom e revelou-nos como foi interpretar esta mulher, alguém com reputado estatuto social durante o Estado Novo, que sempre viveu livremente os seus amores. A longa-metragem transporta-nos até um período complexo da nossa história, onde as demonstrações de amor não se faziam em público, muito menos quando se tratavam de carícias entre pessoas do mesmo sexo.

Margarida Moreira é Maluda em telefilme da RTP

Margarida Moreira tinha noção do desafio. Em cena vêmo-la com uma mulher que apesar de aceitar o conservadorismo da sociedade em que vivia, esquecia o mundo ao seu redor quando estava com a sua Zaninhas, essa atriz 20 anos mais nova por quem Maluda se apaixonou. Margarida, que continua o seu extraordinário percurso depois do sucesso de “Diamantino“,  descobriu muito mais além da estaticidade das formas imprimidas nos quadros de Maluda. Percebeu uma pessoa com infinitas camadas e para captar os seus jeitos de ser e estar, era preciso muito tempo. Assim o fez, e foram tantas as entrevistas que viu numa só semana e que ajudaram na sua preparação. Nota-se o esforço, assim como de toda a equipa que arriscou contar, mais ou menos em 70 minutos e numa rodagem que demorou somente 13 dias, uma das histórias de amor vividas pela artista. Juntos ofereceram inclusive um quadro (falso) de Maluda à atriz, autografado pelos principais membros da equipa e que nos foi dado a ver entusiasmadamente durante a nossa chamada.

Além deste projeto, falámos também com Margarida sobre “O Último Banho“, drama onde contracenou com a sua irmã Anabela. Esse papel valeu-lhe agora o Prémio Augusta, entregue pelo Braga Cine’21 e o filme realizado por David Bonneville esteve mesmo na lista portuguesa para ser representante de Portugal para os Óscares 2021 na categoria de Melhor Filme Internacional. Apesar de não ter sido o escolhido pela Academia Portuguesa de Cinema, continua a encher salas em vários pontos da Europa.

MHD: Em que consistiu o seu trabalho de preparação para Maluda e quais foram os grandes desafios encontrados?

Margarida Moreira: A Maluda foi acima de tudo um trabalho apaixonante. Eu fui contactada porque o realizador, o Jorge Paixão da Costa queria ver-me em casting. A partir do momento em que recebi a chamada da minha agência, tentei compreender quem era. Conhecia-a ligeiramente, como acho que todos nós a conhecemos como pintora, e então comecei a ver tudo o que havia sobre ela. Durante a semana que tive até ao casting, foi um trabalho insano e dormia pouco. Existe bastante material da Maluda e sentia que era quase uma missão impossível fazer aquela mulher. Vi e revi tudo para captar a sua maneira específica de falar, com uma musicalidade própria e outros tiques que fui detetando.

Margarida Moreira

Ao início, sentia-me tão distante da personagem e até tinha o cabelo mais comprido. Para o casting decidi comprar uma peruca e ainda arranjei roupa dos anos 80. Um dia ou dois depois, o meu agente ligou-me a dizer que quando viram o casting disseram ‘temos Maluda‘. A partir disso, foi tentar ter o guião o mais rápido possível. Foi um mergulhar a fundo naquela personagem. Mesmo durante as filmagens, à noite ou de manhã, ia ouvindo algumas entrevistas da Maluda. Era uma mulher com muitas camadas e muito interessante e posso dizer que fiquei completamente apaixonada por ela.

MHD: Nota-se esse trabalho de investigação da Margarida porque falamos de um telefilme com apenas 70 minutos. Foi uma performance impressionante. 

Margarida Moreira: É impossível mostrar em apenas 70 minutos a vida e obra desta mulher. Ela nasceu na Índia, depois foi para Moçambique e foi lá que se começou a interessar por pintura. Posteriormente ganhou uma bolsa da Gulbenkian e foi estudar para Paris. Todo um percurso incrível. Era extremamente competitiva e até adorava desporto. A vida da Maluda dava uma série com várias temporadas e, quem sabe, se não temos essa possibilidade. Fica em aberto.

Margarida Moreira
margarida Moreira e Filipa Louceiro em “Maluda” © RTP

MHD: Acha que o filme pode ser visto apenas como uma história de amor no período do Estado Novo que todos se identificarão, muito mais do que um filme biográfico?

Margarida Moreira: Sem dúvida. De qualquer forma temos que nos enquadrar numa determinada época. Falamos do período antes do 25 de abril, de pessoas que eram internadas pela sua homossexualidade. Houve uma história que me tocou particularmente de um homem travesti, que acabou por ser internado numa instituição psiquiátrica e acabou por morrer lá. É muito duro ouvir estas histórias. Estávamos numa época em que a homossexualidade era encarada como doença, além de ser crime. Se já era difícil encontrarmos casais heterossexuais com demonstrações de amor na rua, pois não se viam pessoas a darem beijos, imaginemos os casais homossexuais. Não podiam viver os seus relacionamentos.

Acho que a Maluda como mulher inteligente que era, sabia que isso a poderia prejudicar. Apesar de tudo viveu as suas histórias de amor. Vemos no filme apenas uma história de amor, entre ela e a Ana Zanatti, que durou três anos. Ela teve outros relacionamentos e não teve medo de os viver. Não acho que tinha de assumir a sua sexualidade, pois cada um é livre de fazer aquilo que quer.

Maluda
Margarida Moreira e Filipa Louceiro em “Maluda” © RTP

O certo é que temos a Maluda, uma mulher mais velha, que poderia perder muito se assumisse a sua sexualidade e uma rapariga mais nova que é uma atriz na flor da idade, que quer arriscar e ir contra as ideias impostas na altura pela sociedade. Há um embate de gerações de uma mulher que quer assumir e dar carinhos públicos e outra que percebe que a sociedade não é assim, não o irá permitir. Ainda hoje em dia, infelizmente, deparamo-nos com comentários muito desagradáveis sobre a sexualidade das pessoas.

Houve mesmo pessoas ligadas ao filme que receberam mensagens quase em tom de ameaça, como se falar da homossexualidade em cinema e televisão estivesse errado. A Maluda não assumiu na altura, mas tenho a certeza que não teria problemas nenhuns em o fazê-lo no nosso presente. Ela não tinha nada a provar a ninguém e deixou uma obra surpreendente.

MHD: Chegou a conversar com a Ana Zanatti sobre Maluda? Como foi estar lado a lado com um dos intervenientes da história?

Margarida Moreira: Uma boa pergunta. A Ana Zanatti é outra mulher maravilhosa, muito à frente do seu tempo e com grande legado. No mesmo dia em que fui cortar e pintar o cabelo, consegui fazer-lhe algumas perguntas, ou seja, pude beber diretamente da fonte.

Confesso que durante as filmagens, estando já em Maluda tive muita dificuldade em olhar para ela fora da cena. Os olhos da Ana Zanatti estavam a olhar para mim e viam a Maluda, ela conheceu-a… ela abraçou a Maluda. Então, eu precisava de me concentrar e não ficar com receios de um suposto olhar potencialmente julgador. A determinada altura, nós atores temos que tomar decisões, temos que seguir em frente com o nosso trabalho. Não fiquei nervosa, mas foi de uma responsabilidade enorme. Posteriormente, recebi um bom feedback por parte da Ana…

Ana Zanatti

Há até uma história que arrepiou toda a equipa e que tem a ver com o gato do filme, um gato contratado que representa o animal oferecido pela Ana Zanatti à Maluda no final da sua vida. O gato, em plena filmagem, aproxima-se da Ana e começa a ronronar… Depois subiu por ela acima, contornou-a e fez-lhe carinhos. Nunca vi uma coisa assim e nem consigo explicar o que ali aconteceu. Só sei que a equipa ficou arrepiada… Foi um momento forte e tivemos a sorte de registá-lo e mostrá-lo no filme.

MHD: Qual espera ser a reação do público ao conhecer mais sobre a Maluda?

Margarida Moreira: Eu tenho recebido centenas de mensagens de pessoas que adoraram o filme e outras que gostavam que fosse uma série. Há muita coisa a contar sobre a Maluda. Tive respostas de pessoas que a conheciam e que admitiram ter visto exatamente a Maluda no filme, seja pela maneira como me sentava, nos meus gestos ou outras expressões. Foi importante porque trabalhei imenso para tentar honrar essa mulher. Fiquei muito satisfeita.

Margarida Moreira
Ana Zanatti e Margarida Moreira em “Maluda” © RTP

De não esquecer também que a estreia na RTP2 teve uma excelente audiência e as pessoas que sintonizaram ficaram a ver o filme até ao fim – foram 92 mil espectadores. A equipa técnica esmerou-se e o Jorge Paixão da Costa foi incansável, desde as rodagens no Alentejo à filmagens no bairro da Lapa. Até o sobrinho da Maluda deixou-nos utilizar objetos pessoais dela no filme como um simples isqueiro à guitarra.

MHD: Parabéns pelo prémio Augusta entregue pelo BragaCine ’21 pelo filme “O Último Banho”, como foi o trabalho para este filme?

Margarida Moreira: Eu tenho um papel secundário neste filme, sendo a minha irmã a atriz principal. Não quero revelar muito, mas trata-se de um drama familiar e a minha personagem abandona o filho, deixando-o ao cuidado do avô. A certa altura, a personagem da minha irmã é confrontada com o miúdo. Já a minha personagem é uma mulher ausente, incapaz de lidar com os afetos, uma pessoa instável e desajustada. Gosto muito do David Bonneville e esta foi a sua primeira longa-metragem, após um conjunto de curtas. Foi espectacular ter participado nesse projeto.

Já estivemos no Transilvania International Film Festival, na Roménia, onde o filme teve sala cheia e com pessoas a fazer-nos perguntas. Estarmos no estrangeiro e ver um filme nosso com tamanha recepção foi muito bom. Agora vamos estar os dois em Braga e ele também vai receber o prémio. Os prémios são sempre um carinho que se dá alguém pelo trabalho feito, como um aplauso no final de um espectáculo. Sinto muito isso e já o disse antes volto a fazê-lo.

MHD: A Margarida e a sua irmã Anabela são tantas vezes confundidas com uma só pessoa. Normalmente quando vemos gémeos na televisão ou cinema estes são sempre interpretados por um só ator. Acredita que precisa de ser feito um trabalho mais profundo em termos de casting para serem criadas as nuances e traços próprios a tantos irmãos e irmãs gémeos?

Margarida Moreira: Sinceramente não sei responder. Recebi mensagens de pessoas a congratular-me por “Maluda” e que me disseram que gostaram de outros projetos meus, mas que curiosamente já pertenciam ao currículo da minha irmã…. Fico extremamente orgulhosa quando as pessoas me dão os parabéns pelo trabalho da minha irmã e ela por mim. Acho, no entanto, a questão dos gémeos muito particular na sociedade e que começa logo com o mito de que os gémeos têm pensamentos iguais, que um sente o mesmo do outro. Há gémeos que continuam a propagar esses mitos (risos).

Margarida Moreira
Quem é quem? Anabela e Margarida Moreira em “Diamantino” © NOS Audiovisuais

Aquilo que acontece com dois gémeos é o que acontece com duas pessoas que já se conhecem bem. É normal num olhar, num suspiro e noutras pequenas expressões conseguirmos perceber se a pessoa está bem ou não. Isso tem a ver com a empatia que se desenvolve ao longo do tempo e que podemos ter com pais, namorados ou amigos. Passa daí a confusão…

Lembro-me em criança, da minha irmã ser repreendida por uma professora e eu disse “eu não sou a Anabela”, ao que a professora respondeu “é a mesma coisa”. As pessoas têm dificuldade em perceber que dois atores gémeos são totalmente distintos. Eu emocionalmente sou diferente da Anabela e somos atrizes que não têm nada a ver uma com a outra. Com o tempo, o público começa a perceber que somos duas e depois quando nos conhecem acabam por perceber as diferenças.

Também queria dizer que nós gémeos nascemos acompanhados. Estamos no ventre da nossa mãe com alguém. O maior desafio que tive enquanto gémea foi aprender a estar sozinha. Se calhar nas outras pessoas que não têm gémeos, o percurso delas passa de estarem sozinhas, estarem numa constante procura pelo outro. Eu tive que fazer o trabalho no sentido oposto. Aprendi a ser sozinha.

MHD: Muito obrigado Margarida por estar conversa!

Margarida Moreira: Obrigado de coração! Foi uma excelente entrevista.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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