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O Último Duelo, em análise

Matt Damon e Ben Affleck (e Adam Driver) voltam a trabalhar juntos em ‘O Último Duelo’, de Ridley Scott, um filme baseado, em parte, numa história verídica e sobre um duelo mortal entre dois homens por causa de uma bela mulher, na França da Era Medieval.

O Último Duelo de Ridley Scott é na verdade uma adaptação do best-seller homónimo da autoria de Eric Jager, embora seja efectivamente baseado em factos reais ou pelo menos contados na tradição histórica francesa: o último duelo mortal oficialmente autorizado no país pelo ‘bem amado’ (ou o Louco), Carlos VI, travado em 1386 entre o conde Jean de Carrouges (Matt Damon) e Jacques Le Gris (Adam Driver); também eles dois bons amigos e parceiros da guerra, que se tornam rivais, devido ao drama vivido por Marguerite (Jodie Comer), numa época em que as mulheres não tinham quaisquer direitos, podiam contar com as leis para as defender ou os media para confessarem que foram sujeitas a abusos sexuais.

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Marguerite (Jodie Comer) era casada com Jean de Carrouges e acusou Le Gris de violação, o que na época representava o risco de ser facilmente desacreditada, hostilizada e condenada à morte. Enquanto Matt Damon interpreta o sofrido cavaleiro normando Jean de Carrouges, que antes de se casar com Marguerite já tinha perdido a mulher e filho, e que vive acumulando ferimentos e arriscando a vida nas batalhas do conturbado período da Guerra dos Cem Anos, Ben Affleck interpreta o cínico e hedonista Conde Pierre d’Alençon. Vassalo de Jean Carrouges vê-se prejudicado em prol de Le Gris (Adam Driver). Este por sua vez um sedutor e bem parecido cavaleiro de origens familiares simples, que começou a sua ascensão, através da via eclesiástica, talvez o único meio possível para se salvar das agruras e destino de um plebeu nessa época.

O Último Duelo
Matt Damon e Jodie Comer ©Nos Audiovisuais

O Último Duelo é na sua essência a história de um acto de coragem de uma mulher, que acaba consumado na tragédia entre os dois homens. O filme é dividido em três actos, cada um deles partindo da perspectiva de cada uma das personagens do triângulo de protagonistas. Contudo, é um filme que anda muito perto da estrutura narrativa do clássico japonês ‘Rashomon-Às Portas do Inferno’ (1950), de Akira Kurosawa, um filme que tem inspirado muitos ensaios académicos sobre cinema, mas também sobre a complexidade das leis, a verdade e a justiça. Interessante é também ver esta história e a realidade medieval contada pela perspectiva de uma mulher, além do ponto de vista dos dois contendores, bem como o julgamento num tribunal eclesiástico. Mostrando obviamente a força da Igreja nestes tempos conturbados. Apesar da excelente construção narrativa, o trio criativo (Damon, Affleck e Scott) acabou por abandonar a questão da ambiguidade, algo que torna o filme de Akira Kurosawa, uma obra-prima várias vezes tomada como referência académica e cinematográfica. Facilmente chegamos a uma verdade! Este filme é menos complexo e mais objectivo e sem grandes pretensões, senão chegar ao grande público, como uma combinação de um filme de aventuras com o drama de uma mulher. Estreou fora da competição no último Festival de Veneza, mas é já apontado com um dos filmes que poderá, pela actualidade do tema de fundo entrar na corrida aos Óscares 2022.

Adam Driver
Adam Driver/©Nos Audiovisuais

Esta opção segue aliás a linha de outros filmes realizados por Ridley Scott, dos seus dramas épicos do passado (Gladiador, 2000), às suas obras de ficção científica (Blade Runner, 1982). Os filmes do grande realizador britânico, ambientados seja em qualquer época, acabam sempre por abordar grandes questões do nosso tempo, como neste caso da denúncia de um abuso sexual, passado na Era Medieval. Além do facto de ser um filme de aventuras, passado na Idade Média, também não diminui a sua força de ensaio, denúncia e reflexão jurídica-social, com um registo das cínicas disputas de poder na corte, ilustrando ao mesmo tempo a corrupção e o favorecimento de certas figuras das classes mais altas, por motivos económicos e pessoais.

Ben Affleck
Ben Affleck/©Nos Audiovisuais

Realizado pelo experiente Ridley Scott, O Último Duelo ganha ainda mais significado cinematográfico e técnico, alternando entre as batalhas sangrentas, momentos  íntimos, marcados pelos perfeitos e pausados movimentos de câmara e uma fotografia cinzenta e sombria, que está directamente ligada ao drama de cada uma das personagens bastante diferentes, vistos como já sabemos, conta-nos os seus três pontos de vista. A luz marca também as suas personalidades da mais sombria à mais solar, realçando as excelentes interpretações, com destaque para a britânica Jodie Comer, revelada no seu papel de Villanelle, da série Killing Eve (2018). Aliás Jodie Comer é a grande figura do filme!

O Último Duelo, em análise
O Último Duelo

Movie title: The Last Duel

Date published: 21 de October de 2021

Director(s): Ridley Scott

Actor(s): Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer, Ben Affleck

Genre: Drama/Aventuras, 2021, 152 min

  • José Vieira Mendes - 70
  • Maggie Silva - 66
  • Manuel São Bento - 83
73

CONCLUSÃO:

‘O Último Duelo’, com argumento (juntamente com Nicole Holofcener) e interpretação dos dois actores, Matt Damon e Ben Affleck, parceiros e amigos de longa data (ganharam juntos o Óscar de Melhor Argumento por ‘O Bom Rebelde, em 1997), mais Adam Driver e realizado pelo ‘mestre’ Ridley Scott, não é apenas um mero ajuste de contas, pela honra e glória. Talvez mais importante que isso, o filme tem como pano de fundo a história do estupro de uma bela mulher (pelo menos no filme interpretada por Jodie Comer) na França, da Idade Média.

O MELHOR: A despretensiosa estrutura em três actos, que nos permite ver os três pontos de vista e nós próprios tiramos conclusões sobre a verdade;

O PIOR: Apesar das excelentes interpretações é difícil imaginarmos, ou melhor vermos, Matt Damon e Ben Affleck, disfarçados e como ‘heróis’ da Idade Medieval. 

JVM

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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