"Casa Gucci" | © NOS Audiovisuais

Casa Gucci | Figura de Estilo

O novo filme de Ridley Scott, “Casa Gucci” sobre o homicídio de Maurizio Gucci nos anos 90, é um festim para fãs da moda e da arte do figurinismo. Trata-se de um dos filmes mais bem-vestidos de 2021.

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Há cerca de duas décadas, Janty Yates ganhou o Óscar para Melhores Figurinos pelo seu trabalho em “Gladiador”. Esse épico histórico de Ridley Scott foi um triunfo tanto na temporada dos prémios como a nível comercial, cimentando a relação do realizador britânico com seus colaboradores criativos. Desde então, Yates tem concebido os guarda-roupas para a maioria dos projetos que Scott assina, tendo particular especialidade no desenho de figurinos de época. Foi ela que evocou o Egito antigo com lamé dourado em “Exodus: Deuses e Reis”, o futuro incerto de “Prometeus”, a França Medieval de “O Último Duelo” e muito mais.

No panorama deste duo, “Todo o Dinheiro do Mundo”, sobre a dinastia Getty nos anos 70, é o projeto que mais se assemelha ao recente “Casa Gucci”. Acontece que, apesar do nome que exibe no título, este não é um filme especialmente interessado na arte do vestuário, no esplendor da moda ou o espetáculo da passerelle. Se desejam ver uma fita assim, recomenda-se o “Saint Laurent” de Bertrand Bonello. De facto, ao longo da sua épica duração, aparecem somente três desfiles. Primeiro, existe a réplica de um faustoso Versace de 1984, tudo metálicos e brilhantes reluzentes.

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Note-se quanto a Patrizia Reggiani de Lady Gaga se veste em concordância com as modelos, revelando a sua sede pelo ouro, sua vontade de revolucionar a Gucci à imagem mediática da Casa Versace. A seguir, há o Carnaval do mau gosto desenhado por Paolo Gucci, uma coleção imaginada pela figurinista visto que não existem grandes registos das roupas envergadas nessa data. O uso do padrão e do rosa, elementos essenciais na própria vestimenta pessoal do Paolo de Jared Leto, é refletido por aqueles que desejam manipular o criador.

Numa cena de manipulação, Gaga usa uma peça de arquivo da Yves Saint Laurent, achada na célebre Tirelli Costumi, toda feita em preto e bolas cor-de-rosa, com chumaços espampanantes que fazem o vestido parecer saído de um episódio do “Dynasty”, quiçá “Dallas”. Por fim, existe um momento histórico replicado com estilo e gozo também – a primeira coleção que Tom Ford desenhou para a Gucci. Essa terceira visita à passerelle não é emparelhada tão perfeitamente por um figurino reflexivo de Lady Gaga. Isso acontece porque Patrizia é alguém se veste como uma atriz e, quando Ford ascende na Gucci, as portas para o palco familiar já lhe foram fechadas.

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Por outras palavras, o divórcio cortou-lhe os laços com a Gucci. Por muito que ela queira ir contra isso, aquele já não é o seu mundo. Quiçá nunca tenha sido. Certamente, em termos de classe e história do clã, ela jamais fez parte do ambiente aristocrático desses titãs da moda e do cabedal. Patrizia também tinha dinheiro antes do matrimónio, mas as origens da fortuna do pai eram recentes, vindos da empresa transportadora e seus camiões. É o conflito eterno entre o dinheiro velho e os nouveau riche. Contudo, na visão de Scott, ambos parecem ser duas faces da mesma moeda – todo o rico é grotesco neste cosmos cinematográfico.

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Contudo, nada disso implica que os figurinos não sejam belos. De facto, Janty Yates e sua equipa conceberam um sublime guarda-roupa, cheio de detalhes astutos e um equilíbrio seguro entre facto e ficção. A figura de Patrizia é o principal alvo da sagacidade artística da figurinista, envergando mais de meia centena de conjuntos ao longo do filme. Para isso se reuniram peças originais da época, incluindo acessórios da Gucci e têxteis seus dos anos 60, 70, 80 e 90. A já mencionada Yves Saint Laurent também teve grande impacto nos figurinos de Gaga, alguns dos quais foram emprestados pela cantora tornada atriz que tem grande coleção de peças históricas.

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Se bem que, como já dissemos, nem tudo é facto. O vestido vermelho com que Patrizia conhece Maurizio é réplica de um traje verdadeiro. Só que, na vida real, era rosado como uma pastilha elástica e não o escarlate luxuriante que Yates escolheu para a cena. Na cena do casamento, quando nenhum dos Gucci aparece para apoiar o herdeiro, o figurino cinematográfico nada tem que ver com a realidade. A simplicidade modesta dá lugar a um decote profundo e saia em forma de sino. Quase que querendo insinuar o insulto que lhe foi feito, Patrizia visita os Gucci envergando renda de aspeto nupcial. O fato inspirado em Gina Lollobrigida simboliza a pureza que Patrizia quer personificar assim como um obstinado desafio perante a sua nova família.

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Existe uma clara evolução da personagem, desde a inocência romântica dos primeiros dias de amor até à viúva negra que manda matar o ex-marido. Desde que tem a aliança no dedo, é como se a promessa do nome Gucci a levasse à loucura. A partir daí, toda a roupa se torna em figurino e armadura, uma forma de seduzir os adversários, projetar poder ou ilustrar uma ideia de falsa melancolia. Quando é para ser criminosa, ela veste cabedal e calças de ganga tiradas de um filme de gangsters da rua. Quando os fotógrafos estão atrás de si para ver a lágrima enlutada, um enorme casaco preto faz da perda uma máscara, uma máquina de deslumbramento.

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Mesmo assim, nem todos os figurinos aparecem no filme e alguns passam num abrir e fechar de olhos. Para cenas rodadas numa recriação do Studio 54, Yates vestiu Gaga em lantejoulas turquesa e uma verdadeira montanha de joalharia da Bulgari. Infelizmente, a cena foi cortada. Ainda aparece nos trailers, é certo, mas só veremos o esplendor total do figurino quando, um dia, Ridley Scott lançar uma versão estendida da fita. Outros grandes designs incluem um vestido roxo adornado com peles escuras. A cor trespassa realeza e, na curta cena em que é envergado, Patrizia está vitoriosa enquanto rainha suprema da Gucci. É um triunfo fugaz, efémero.

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Nem tudo são figurinos de Lady Gaga, é claro. “Casa Gucci” é um épico biográfico e inclui uma panóplia de personagens coloridas além da sua protagonista. Cada membro da família titular é soberbamente vestido com alfaiataria personalizada. Já falamos do mau gosto de Paolo, mas há também a opulência antiquada de Jeremy Irons como o pai de Maurizio, o tradicionalismo elegante do Aldo de Al Pacino. Por fim, temos Maurizio, interpretado por Adam Driver, um homem que começa por fugir do legado familiar, depois o embraça e, por fim, deixa-se esmagar pelo excesso e pelo ciúme. Do glamour de Gaga à solenidade de Driver, “Casa Gucci” é um filme que, apesar de não ser sobre moda, tem muita moda, revelando-se um verdadeiro festim para os olhos.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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