LEFFEST ’16 | Christine, em análise

Christine traz, mais uma vez, ao cinema a história da jornalista que, em 1974, se suicidou em direto e constitui aqui o papel da vida de Rebecca Hall.

christine leffest rebecca hall

Christine, o novo filme de Antonio Campos, não é, de todo, a primeira vez que a história de Christine Chubbuck chega aos cinemas. A 15 de 1974, a jornalista que trabalhava para o canal televisivo local de Sarasota, na Califórnia, interrompeu o procedimento usual do noticiário com um anúncio especial. Segundo as suas palavras e seguindo a política sensacionalista (blood and guts) da estação, ela iria apresentar um exclusivo televisivo e uma estreia, uma tentativa de suicídio em direto. E foi precisamente isso que ela fez, dando um tiro na nuca e epitomando, pelo caminho, uma era em que os media sofreram revolucionárias mudanças de tal modo que, em 1976, Network, parcialmente inspirado por Chubbuck, mostrou ao mundo uma visão venenosa e satírica do caminho que se estava a tomar, onde sensacionalismo sem limites e busca por audiências sem remorsos estavam a construir uma imprensa desprovida de integridade jornalística ou ética. Em 2016, no atual e assustador panorama político, estamos a testemunhar precisamente as consequências dessas alterações que Chubbuck protagonizou.

Mas, como acima referimos, não foi apenas Network de Sidney Lumet que tomou inspiração na história desta mulher para um trabalho cinematográfico. Mesmo este ano, e estreado no mesmo festival que este filme, tivemos Kate Plays Christine, um híbrido entre documentário e ficção assinado por Robert Greene. Nesse filme, foi explorada a própria ética e moralidade de se representar a história de Christine, sublinhando-se a incapacidade de entender, por completo, as suas motivações e, acima de tudo, a hipocrisia inerente a qualquer projeto que, na reconstrução do célebre momento cuja filmagem está escondida ou perdida, acabe por se tornar numa obra de exploração sensacionalista da mesma natureza daquelas que enojavam Christine. Pela sua parte, Antonio Campos não parece ter qualquer hesitação moral e o seu filme é precisamente o tipo de dramatização, cheia de manipulação factual, que provavelmente iria horrorizar a sua protagonista. Mesmo assim, há que se avaliar o filme para além desta problemática ideológica e, para sorte de Campos, Christine tem muito mais para oferecer que um simples caso de hipocrisia representativa.

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Na verdade, as complexidades de Christine começam logo a ser bem calaras na cena de abertura, onde vemos Chubbuck a fazer uma entrevista imaginária a Richard Nixon, um convidado bem diferente das criadoras de galinhas e agricultores sorridentes que, nesta conjetura profissional, são os seus principais alvos de investigação. No mesmo dia em que este ensaio criativo ocorre, testemunhamos o início de uma avalanche de problemas no trabalho quando o chefe da equipa do noticiário pede uma reunião coletiva e fala da sua nova filosofia para ter mais audiências: “if it bleeds, it leads”. Tais palavras farão com que qualquer cinéfilo atento tenha flashbacks de Nightcrawler e é precisamente esse tipo de malevolência e amoralidade que a protagonista de Christine vê nessas palavras agoirentas, manifestando-se contra elas aqui e durante o resto do filme, para seu muito vistoso demérito aos olhos dos seus superiores e de todos os que a rodeiam.

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Na verdade, esta é só a primeira peça a cair no dominó que é a vida de Chubbuck nas semanas que antecedem o seu suicídio. Depois desta nova política sanguinária se abater sobre o seu ambiente profissional, a neurótica Christine vê na visita do dono da estação uma oportunidade de promoção para uma estação em Baltimore, mas, como seria de esperar, a homens de negócios assim, o charme paternalista de um pivô e as curvas de uma repórter desportiva são muito mais valerosas que a inteligência agressiva de uma feminista desenvergonhada. Paralelamente, Jan, sua produtora de segmentos e amiga, faz o que, da perspetiva de Chubbuck é uma traição profissional e, de forma semelhante, a sua mãe, que ainda vive na mesma casa de Christine, parece estar finalmente a ter uma vida separada da filha, arranjando um namorado e ponderando a hipótese de ir viver com ele. A acrescentar-se a isto temos ainda problemas de saúde e um encontro que nada tem de romântico e que, na estrutura do filme, constitui a final punhalada na frágil psique da protagonista.

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Todos estes eventos, por muito anódinos que possam parecer a nossos olhos, são representados com um rigor psicológico que favorece a subjetividade de Christine acima de qualquer noção de objetivismo histórico. Por muito brilhantes e verosímeis que sejam os vários detalhes de figurino e cenografia temos também os ritmos de montagem e uso de música que são especialmente expressivos de um estado mental telegrafado em forma de filme. Apesar de ser arriscado chamar a esta obra um thriller, existe um sufocante suspense a infetar todos os acontecimentos, como uma corda a torcer-se até ao inevitável momento em que se rompe. Todos os espetadores de Christine sabem como vai acabar, o que interessa aqui é a viagem até esse tiro.

E, seguindo as diretivas formais, Rebecca Hall constrói em Christine Chubbuck um galvanizante retrato psicológico de uma mulher no precipício da sanidade mental. Esta é a prestação da carreira da atriz e ela não poupa qualquer detalhe, desde a postura curvada, aos tiques vocais e de movimento da verdadeira Chubbuck, ao mesmo tempo que, em momentos preciso, exagera essa mesma caracterização, esbugalhando os seus olhos, e sugerindo um desespero que mais ninguém parece totalmente ver dentro do filme. Neste sentido, Hall e Campos não poupam a própria Christine na sua dissecação dos eventos, sempre salientando o modo como ela reage a qualquer demérito como se fosse uma mortal afronta contra a sua pessoa e como a possibilidade de um compromisso é algo perfeitamente monstruoso para ela.

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No entanto, a capacidade de ver como os extremismos na personalidade de Christine e seus muito referidos problemas mentais – nunca temos a certeza, mas é provável que ela sofresse ou de bipolaridade ou de depressão crónica – contribuíram para o seu fim, não torna este filme numa acusação post-mortem. De facto, as personagens em torno de Christine, por muito bem-intencionadas que possam ser, falam sempre com ela num tom de irritante condescendência masculina, riso (partilhado pela audiência) ou minimização ineficiente. O mais doloroso de tudo isto é o modo como Michael C. Hall, Maria Dizzia, J. Smith-Cameron e Timothy Simmons, entre outros, interpretam de forma empática os colegas e familiares de uma mulher perdida dentro da sua própria cabeça e são ou demasiado ignorantes ou distraídos para a ajudarem de qualquer modo significativo.

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O culminar de tudo isto ocorre na coda que encerra Christine. Aí, vemos como Jean volta à sua casa e procede a fazer o ritual que já tinha aconselhado a amiga a fazer para se acalmar. Ela desliga as notícias, põe música a tocar, canta e come gelado, mas nos seus olhos vítreos está bem presente o trauma de ter visto a morte horrenda da colega e amiga. Esta performance de felicidade ilusória tipifica uma atitude nacional da América em escapismo insensato, fugindo à realidade e refugiando-se numa falsa paz que nasce da ignorância do caos à volta. Apesar dos seus defeitos, da sua autodestruição e sua bizarra atitude, Christine era, de facto, a pessoa dentro desta comunidade que mais precisamente parecia estar ciente do mundo, da época e da história que todos eles estavam a viver. Quando a ficção e o sensacionalismo valem mais que a verdade factual, não estará o mundo tão perdido como Christine? Mas, também ficamos com algo assustador na cabeça – talvez o conhecimento de tais situações apenas traga desespero. Antonio Campos não responde a essa questão, temos de ser nós, a audiência a descobrir o que é verdade para nós mesmos.

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O MELHOR: A inspirada e destemida prestação de Rebecca Hall.

O PIOR: A hipocrisia moral inerente à mera existência do projeto.



Título Original:
 Christine
Realizador: Antonio Campos
Elenco:
Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts, Maria Dizzia, J. Smith-Cameron

LEFFEST | Drama, Biografia | 2016 |115 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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