LEFFEST ’16 | Homenzinhos, em análise

Homenzinhos é mais um triunfo na filmografia de Ira Sachs que se continua a revelar como o Yasujiro Ozu do cinema atual, um verdadeiro mestre do drama doméstico.

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Depois de se ter inspirado em Tokyo Story para criar Love is Strange em 2014, o realizador nova-iorquino Ira Sachs volta a ir buscar inspiração ao cânone de Yasujiro Ozu. Desta vez, o mestre do drama doméstico americano atual revisita duas obras do mestre nipónico do passado, Eu Nasci mas… e Bom Dia, onde um par de jovens faz uma greve de fala como modo de punir os adultos por uma qualquer afronta contra as crianças em questão. Como seria de esperar pela sua passada filmografia, Sachs pega neste conceito base e expande-o aos dias de hoje, focando-se, desta vez, nos conflitos de duas famílias em Brooklyn e a complexa questão da gentrificação de bairros e comunidades em detrimento da sua população mais antiga e, usualmente, com uma diversidade étnica e cultural em perigo de ser eliminada pelo processo em questão.

Num movimento narrativo que parece ligar este filme a Love is Strange quase como uma sequela tonal, Homenzinhos começa num funeral. O falecido é Max, um velho que vivia sozinho em Brooklyn e que há anos estava afastado dos seus filhos, preferindo a amizade de vizinhos como Leonor, uma costureira latina que tem uma loja na parte de baixo da casa onde ele vivia. Aquando desse já referido funeral, o neto de Max, Jake, conhece Tony, o filho de Leonor, e os dois travam uma rápida amizade. Um abrupto, mas necessário, salto temporal, mostra-nos quão intensa e dependente essa mesma amizade se tornou, especialmente depois de Jake e seus pais, Brian e Kathy, se mudarem para a casa que encima a loja de Leonor e se tornam nos arrendatários da antiga amiga de Max.

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A natureza orgânica e credível da ligação entre Tony e Jake está no centro do filme, depositando uma colossal responsabilidade nos ombros de Michael Barbieri e Theo Taplitz. Felizmente, os dois atores são soberbos e a direção de atores nunca esteve tão apurada na filmografia de Sachas, resultando num par de espantosas prestações juvenis dotadas de uma invulgar maturidade e capacidade para sugerir e telegrafar uma interioridade em conflito. Algo vital para o equilíbrio deste retrato duplo é o contraste entre as duas personalidades e registos de atuação. Enquanto Barbieri oferece uma prestação vistosa de um rapaz bonacheirão, carismático, cheio de amigos e com pretensões de um dia ser ator, Taplitz tem em Jake um desafio muito mais introspetivo e silencioso. O modo como o filme vai sugerindo que Jake será possivelmente gay acrescenta mais uma camada de complexidade ao trabalho de Taplitz que, pela sua parte, tem aqui uma prestação que certamente será superior à de muitos dos grandes nomes nomeados ao Óscar e Melhor Ator deste ano.

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O virtuosismo do elenco não está, contudo, restrito aos atores mais jovens, pois os adultos são igualmente exímios e estrondosos, sendo que a sua narrativa, paralela à dos filhos, é infinitamente mais complicada. Leonor, interpretada por Paulina Garcia, é uma mulher orgulhosa que, desde que vê a família de Jake, se move com a caução de quem já foi muitas vezes vitimada por semelhantes pessoas. Fumando cigarros como se fosse uma Bette Davis dos nossos dias, a atriz chilena, é estupenda no modo como sugere o iminente conflito, e é fácil perceber a sua indignação quando Brian e sua irmã a informam que a sua renda vai subir significativamente. Ela, grande amiga de Max, tem um profundo ressentimento pelos filhos que o negligenciaram, mesmo nos últimos anos de vida, e, apra além disso, não tem maneira de pagar a renda exorbitante, o que significará que ela e o filho perderão a sua única fonte de sustento. Pela sua parte e apesar de terem claramente mais posses monetárias que Leonor, Brian e a sua irmã também precisam do dinheiro em questão. A carreira de ator de Brian está na penúria e ele depende completamente do ordenado da mulher, enquanto sua irmã, que há muito está zangada com o pai, tem problemas financeiros que precisão de ser urgentemente remediados.

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A Ira Sachs e à obra que é Homenzinhos não falta nenhuma empatia mas o mesmo não se pode dizer das personagens em cena. O que não implica que Sachs não retrate as suas diferentes agências, motivações e condições com exímia e minúcia humanista. Mesmo a irmã de Brian é humanizada nas suas curtas cenas e, longe de ser uma vilã unidimensional, é palpável o modo como o pai a magoou e como ela quer ter algo dele quando, em vida, ele a negligenciou tal como ela, nos últimos anos, fez em retribuição. Mesmo Kathy, interpretada pela astuta Jennifer Ehle, se envolve na situação e mostra como a racionalidade simples não é nenhuma solução. Rapidamente nos apercebemos que será impossível sair desta situação sem que ninguém saia magoado e, infelizmente, depressa se vê que duas das principais vítimas da guerra interfamiliar são os dois melhores amigos titulares.

Numa brilhante cena em que Leonor e Brian, um comovente e subtil Greg Kinnear, têm uma dolorosa confrontação no quintal traseiro à loja, outro dos principais temas e objetos de estudo de Sachs acaba por se revelar. Falamos do modo como as pessoas têm a capacidade de cruelmente infligir dor umas nas outras, mesmo que, posteriormente, se arrependam disso mesmo. Aqui, o golpe dado é intencional e preciso, quando Leonor fala da opinião que Max tinha do filho, emasculando-o e demonstrando a capacidade que ela tem de ser muito mais que uma vítima. No que diz respeito, a Brian, as suas reações a isto podem parecer pacíficas, mas são igualmente catastróficas, tanto para Leonor como para Jake e é precisamente aí que reside a grande tragédia deste pequeno, mas não por isso medíocre, filme.

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Se é doloroso ver como pessoas são capazes de golpear os corações de conhecidos, então ver isso acontecer no seio de uma família é dez vezes pior, especialmente quando essas pequenas punhaladas são dadas sem que o atacante se aperceba disso mesmo. Num momento passageiro do início do filme, Brian descobre que acidentalmente deitou fora algumas pinturas do filho, cujas ambições artísticas são a única coisa que ele tem em comum, com o pai e seu melhor amigo. Brian rapidamente minimiza a situação, não se apercebendo do impacto que isso tem no filho. Mais tarde, a sua rejeição progressiva de Tony vai fazer o mesmo de modo muito mais consciente, até que um incontornável par de explosões, uma de Brian no carro a seguir à sua estreia em A Gaivota, e outra em casa depois de uma revelação dolorosa, mostram como, inadvertidamente, Brian pode ter magoado o seu filho de modo invariável.

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Ao longo de Homenzinhos, a direção de Sachs é caracterizada por uma observação delicada e por cortes elípticos que sugerem a fluida passagem do tempo. Essa modesta abordagem formal chega ao seu píncaro no final, onde uma visita escolar a um museu se torna numa silenciosa coda de isolamento introvertido em que assistimos ao modo como um jovem aceita, resignado, a perda. Na pequenez e modéstia do seu drama, Homenzinhos consegue ser um desconfortável reflexo do modo como, mesmo na mais abjeta banalidade, se podem encontrar tristes tragédias pessoais. É um gesto humanista de belíssima delicadeza e sofisticação cinemática que tem a capacidade de nos por a pensar na mesma medida que causa lágrimas escorrer pelas faces de uma audiência recetiva.

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O MELHOR: O sublime elenco.

O PIOR: O modo como o filme, apesar de tudo, nunca é uma visão completamente equilibrada do conflito entre as famílias. É óbvio que a aliança de Sachs com Jake o coloca como o protagonista da narrativa, mesmo quando Homenzinhos beneficiaria de um maior desenvolvimento do ambiente doméstico de Tony e Leonor, especialmente seguindo-se à conclusão da questão financeira.



Título Original:
 Christine
Realizador: Antonio Campos
Elenco:
Theo Taplitz, Michael Barbieri, Paulina Garcia, Greg Kinnear, Jennifer Ehle

LEFFEST | Drama, Família | 2016 |85 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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