Anote’s Ark

CineEco ’18 | Anote’s Ark, em análise

O Festival CineEco dedica toda a sua programação a filmes ambientalistas, alertando as audiências para as urgentes realidades do mundo em que vivemos, que cada vez está mais perto do desastre climático imparável. Entre os filmes apresentados neste festival de Seia, na Serra da Estrela, destaca-se “Anote’s Ark”, um dos títulos da sua competição oficial.

Há alguns meses, os cinemas nacionais receberam o hino de desespero cósmico a que Paul Schrader chamou “First Reformed” e que, em Portugal, deu pelo título de “No Coração da Escuridão”. Nesse filme, Ethan Hawke interpreta um padre confrontado com a angústia de um homem que se suicida após confiar ao sacerdote que não consegue imaginar trazer outra vida a esta realidade condenada. Para trás fica a sua esposa grávida e uma filha sem pai que efetivamente irá nascer num mundo a caminhar para o seu fim em passadas largas. Atualmente, falar sobre alterações climáticas é discutir um apocalipse imparável para o qual caminhamos a passos largos e do qual todos somos culpados enquanto seres humanos.

O tempo de debates já acabou. Agora, ou agimos ou apenas aceleramos o processo da nossa própria destruição. O consenso científico aponta já para alterações ambientais irreversíveis e que, se tudo continuar igual, chegarão a um ponto crítico em 20 anos depois do qual não poderemos fazer nada senão esperar passivamente pelo fim do mundo assim como o conhecemos. Muito se fala de como o ser humano está a destruir a Terra, mas o planeta sobreviverá aos horrores do aquecimento global e suas cataclísmicas consequências. Quem vai ser destruído é o ser humano que, mesmo com toda esta informação disponível, parece cego pela sua mesma mesquinhez e egoísmo.

CineEco Anotes Ark critica
O pessoal e o político em comunhão num prólogo do apocalipse ambiental.

Que outra razão podemos encontrar senão egoísmo e cegueira para o facto de que, por todo o mundo, políticos que são contra medidas ambientais progressivas estejam a ganhar poder e a desmantelar os esforços daqueles que vieram antes de si. Donald Trump, o homem a que putativamente damos o título de líder do mundo livre, caracteriza estas questões como um mito de origem chinesa. Para ele e muitos que o seguem, o futuro apocalíptico é algo que não vão experienciar, sendo que, nessa altura já os seus corpos estarão a apodrecer sob sete palmos de terra. No entanto, é o futuro que nos é roubado pelas suas ações, pois já nem falamos de inação política e sim de ação destrutiva.

O privilégio de uma morte próxima e da presente prosperidade são seguranças que levam muitos a virar a cara à situação atual. Para certas pessoas, contudo, já não é possível, fechar a cara ou fechar os olhos, pois o fim está palpavelmente próximo. Em “Anote’s Ark”, o realizador Matthieu Rytz conta a história de um povo. Assim, documentando a vida de uma mulher comum e do presidente da ilha de Kiribati, uma ilha no centro do mundo que, em 20 anos, estará sob as águas do Pacífico. Já não há muito a fazer para impedir esse fado, mas algo tem de ser orquestrado para salvar a população em necessidade de novo lar e a lidar com a perda sacrílega da sua terra.

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Em contraste com tais fados cataclísmicos, o filme começa com imagens de extraordinária beleza. Praias vistas de cima, de uma perspetiva quase divina, parecem pinturas abstratas de azuis celestes, com manchas de verde aqui e ali, assim como alguns rasgos de sol refletido nas águas ou a brilhar na areia branca. As pessoas são elementos minúsculos, insignificantes, mas não por isso menosprezáveis. Pelo menos, assim é para a câmara. No palco das políticas internacionais, onde um punhado de potências económicas decide o destino do mundo, essas vidas são algo em que ninguém parece pensar.

É pela mão do presidente Anote Tong que perscrutamos essa esfera política, por onde a voz de Barack Obama tanto ecoa com promessas solenes de ajuda internacional a nações como o Kiribati. Hoje em dia, tais promessas, por muito belas que sejam, já soam ocas e ineficazes. Pelo que lhe compete, Rytz não enfatiza esta falta de poder inerente à palavra dos poderosos, mas a sua montagem e coleção de momentos sugerem isso mesmo, especialmente a um espectador bem informado. Certamente, a figura de Tong contribui para muito desse entendimento, pelo menos a nível emocional, sendo ele quase que uma âncora humana para o conteúdo mais informativo do filme.

CineEco Anotes Ark critica
Será justo trazer uma nova vida a este mundo condenado?

Verdade seja dita, as documentações das atividades presidenciais não coerem particularmente bem com o retrato da vida de Tiemeri Tiare, conhecida como Sermary. Ela é uma mulher que não esperou pelo afundar da sua ilha e já emigrou do Kiribati para a Nova Zelândia, onde tenta construir nova vida e onde dá à luz o bebé que anteriormente mencionámos. Se as cenas de Tong são guiadas pelo propósito da sensibilização política, a metade do filme dedicada a Sermary é muito mais amorfa e vagarosa. Contudo, é dela que vem a pouca esperança que este documentário cheio de palavras ominosas e imagens lindíssimas tem para dar.

Na resiliência de Sermary, “Anote’s Ark” encontra heroísmo em miniatura, por onde gestos do quotidiano ganham nova glória e até beleza. Mesmo com o mundo no precipício da catástrofe ambiental, a vida continua e temos de nos agarrar à sua maravilha para não ficarmos imobilizados pela impotência face ao egoísmo humano e à fragilidade da Natureza. Assim, a história dela serve de contraponto ao desespero crescente na experiência do presidente, ao mesmo tempo que faz o panorama do quotidiano íntimo e pessoal dialogar com a ação coletiva, política e necessariamente global. Não se trata da mais funcional das relações, parece quase ser o resultado de duas curtas-metragens coladas à força, mas há sentido temático nas escolhas de Rytz.

“Anote’s Ark” vai buscar o seu título à tentativa à la Noé de Anote Tong salvar o seu povo do flagelo climatérico, mas, chegado o fim do filme, é-nos revelado que as suas muitas medidas ambientais estão a ser desmanteladas pelo novo presidente. Seu plano para procurar refúgio nas ilhas Fiji é derrocada pelo advento do furacão Winston e nenhuma das exigências por justiça climática parece estar a ser respondida a nível global. Sem nunca levantar a voz, este documentário canta um hino de indignação que muito transcende a qualidade vagamente antropológica que alguns poderão ver na sua construção. Pode não ser um objeto de cinema de grande sofisticação, mas tem um grande valor e devia ser visto por todos, especialmente aqueles que continuam a fechar os olhos aos horrores da realidade e que só o farão quando toda a sua terra, cultura e fontes de subsistência estejam debaixo de água juntamente com Kiribati.

A nova edição do CineEco começa já dia 13 de outubro. Não percas este festival!

Anote's Ark, em análise
CineEco Anotes Ark critica

Movie title: Anote's Ark

Date published: 9 de October de 2018

Director(s): Matthieu Rytz

Genre: Documentário, 2018, 77 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO

“Anote’s Ark” não é o mais sofisticado dos documentários ambientais, mas a sua justaposição de ideias e imagens sugere uma melancolia trágica tingida pela urgência política da catástrofe em que nos encontramos.

O MELHOR: A beleza meio trágica das primeiras imagens.

O PIOR: A estrutura do filme é extremamente instável. Contudo, nada é pior que as passagens mais melosamente banais da banda-sonora.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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