"Vitalina Varela" | © Midas Filmes

A glória do Cinema Português no século XXI

A alvorada do novo século, do novo milénio, trouxe consigo uma nova era de glorioso cinema português. Relembramos alguns dos melhores títulos, a aclamação internacional, a magia audiovisual.

Desde cursos em Harvard dedicados ao estudo dos nossos filmes nacionais até ao reconhecimento de publicações estrangeiras como a Cahiers du Cinéma e a Sight & Sound, os últimos vinte anos têm marcado um crescente reconhecimento da maravilha que é o cinema português. O milénio começou com produções tão audazes como as fantasias fetichistas de “O Fantasma” de João Pedro Rodrigues e perdura com obras tão discutidas como o calcinante comentário social de “Listen”, realizado por Ana Rocha de Sousa.

Pelo caminho, muito aconteceu. Vejamos, por exemplo, como Miguel Gomes se veio afirmar como uma das grandes vozes do cinema made in Portugal. Seguindo uma tradição bem lusitana de documentário hibridizado com ficção, seu “O Meu Querido Mês de Agosto” deu que falar. Depois veio “Tabu” e o épico “As Mil e Uma Noites”, projetos tão ambiciosos quanto arrojados.

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“Listen” | © NOS Audiovisuais

Ao mesmo tempo, Pedro Costa descobriu um novo realismo nas ruínas das Fontainhas e veio a ganhar Locarno com a formidável “Vitalina Varela”. Pedro Salaviza e Leonor Teles, filhos jovens da indústria cinematográfica portuguesa, conquistaram palmarés mundo fora com suas longas-metragens. O tempo avança e seus pequenos projetos cresceram, tornaram-se tão grandes como a crónica amazónica “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” e o documentário lírico “Terra Franca”.

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Numa veia mais comercial também houve sucesso, tanto com novas ideias como com o desenterrar e reinventar de clássicos antigos. Raul Ruíz por cá passou nos seus últimos dias e assinou um sonho sem igual, seus “Mistérios de Lisboa” uma obra-prima que encanta o coração. Outro titã caído foi Manoel de Oliveira que trabalhou até ao fim, dando-nos meditações em celuloide que surpreendem pela sua severidade, pela delicadeza e convicção do discurso. Como poderemos esquecer a maravilha poliglota de “Um Filme Falado” ou as peculiares “Singularidades de Uma Rapariga Loura”?

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“Eu Não Sou Pilatus” | © Kussa Productions

Fora da distribuição comercial, também há muita maravilha para descobrir. Um dos maiores prazeres que o cinéfilo português pode desfrutar nos últimos anos foi uma desventura pela seleção festivaleira. Entre curtas e longas mais desconhecidas, há muita magia do grande ecrã a ser experienciada. Pensamos nas reflexões sobre a vida campestre de “Entre Leiras” ou na sensibilização antirracista do “Eu Não Sou Pilatus” de Welket Bungué.

Tanta palavra e ainda nem sequer chegámos à base deste iceberg titânico que é o cinema português do século XXI. Onde param João Canijo, Rita Blanco, João Nicolau, Pedro Cabeleira, Teresa Villaverde e tantos outros grandes nomes? Convidamos-vos a explorar este nosso cinema nacional, a sentir sua glória. Acreditem que vale a pena.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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