"Paraíso Infernal" | © Columbia

Clássicos em Casa | Paraíso Infernal (1939)

Entre homens que dão a vida ao ofício de aviador e belas sedutoras, “Paraíso Infernal”, também conhecido como “Only Angels Have Wings”, é um clássico intemporal que todos deviam ver. Cary Grant, Jean Arthur, Thomas Mitchell e Rita Hayworth são alguns dos atores em destaque nesta aventura do grande ecrã.

Howard Hawks foi um dos primeiros realizadores a serem categorizados como um autor pelos escritores vanguardistas da Cahiers du Cinéma. Foram os críticos de cinema franceses que deram origem à célebre teoria de autor, que examina a História do Cinema considerando o realizador como a principal voz criativa de um filme. Para eles, Hawks foi um dos primeiros exemplos a apontar, mostrando como havia sempre temas e técnicas que se repetiam ao longo do seu trabalho, mesmo quando o seu produto se incluía dentro de modelos promulgados pelos grandes estúdios de Hollywood e seus modelos de produção industrial.

Com tudo isso em conta, “Paraíso Infernal” ganha particular importância histórica, pois foi o primeiro filme desse realizador a ser um sucesso popular nos cinemas franceses. De facto, desde a sua estreia, a obra só tem vindo a ganhar respeito e apreciação. Em 1939, foi um nomeado para dois Óscares, mas foi relativamente ofuscado por alguns dos seus competidores como “E Tudo o Vento Levou”. Com o passar dos anos, contudo, muitos são os cineastas que apontam para o filme como inspiração e influência. Até há aqueles que categorizam “Paraíso Infernal” como uma produção perfeita. Será que a obra merece tamanha reputação?

paraiso infernal only angels have wings
© Columbia

A resposta é indubitavelmente sim. Focando-se numa cidadela portuária da Colômbia, esta é a história de um grupo de aviadores que todos os dias arriscam as vidas para distribuir correio pela região. A eles se juntam algumas outras personagens coloridas, incluindo uma pianista interpretada pela gloriosa Jean Arthur. O romance entre ela e o chefe dos aviadores é um dos alicerces narrativos do filme, mas tão ou mais importante que isso são os laços afetivos que se desenvolvem entre os homens que trabalham juntos. Romances antagónicos e as dinâmicas homossociais que nascem em ambientes masculinos são dois dos temas preferidos de Howard Hawks.

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Aqui, esses temas são entrelaçados com duas importantes vertentes emocionais. Por um lado, há o fatalismo que os aviadores tomaram como seu mantra pessoal para conseguirem manter-se sãos face à constante morte dos seus amigos em traiçoeiros acidentes aéreos. Por outro, há a excitação da aventura, a adrenalina que vem com as proezas dos aviões e a angústia daqueles que ficam em terra e tudo observam com o coração aos saltos. Tudo isso traz uma grande riqueza sentimental à história que tanto nos oferece momentos de humor crasso, apaixonante romance, camaradagem inspiradora, tensão agonizante e tragédia lacrimosa. Não há nada melhor que um filme que nos faz rir e chorar em igual medida.

paraiso infernal only angels have wings
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Além disso, há também que considerar a perfeição formalista de “Paraíso Infernal” e o modo como a sua construção técnica aponta para os talentos singulares de Hawks atrás das câmaras. Em primeiro lugar, temos que falar do som. Este realizador era um mestre da sonoplastia e sua particular expressividade, usando ruídos de fundo para pintar um mundo além da moldura do ecrã. Veja-se a sequência excecional em que uma aterragem perigosa através de nevoeiro espesso se torna numa cena de ação arrepiante devido ao horror sónico na distância. Também consideramos o modo como Hawks adorava que os seus atores improvisassem e falassem por cima uns dos outros, sobrepondo diálogos.

Essa vertente de caos controlado que se estabelece no som também trespassa nas imagens. Tal como gostava de sobrepor diálogos, Hawks também gostava de sobrepor informação visual, conjurando complicadas composições saturadas de gente e detalhes idiossincráticos. Quando as personagens dele se entretêm num bar minúsculo, o público sente a pequenez do espaço, sendo que não há nenhuma daquela ordem artificial que estava tanto em voga na era doirada dos estúdios de Hollywood. Uma história arrebatadora, realização precisa assim como o trabalho de um elenco insuperável fazem deste filme um estrondo que não perdeu nenhum do seu poder nos 81 anos desde a sua estreia.

Podes alugar “Paraíso Infernal” no Apple iTunes. Acredita que vale a pena ver este grande clássico de Howard Hawks.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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