Homenagem e Retrospectiva dedicada a Claudia Cardinale. ©19ª Festa do Cinema Italiano/Divulgação

Eu, Claudia Cardinale | 19ª Festa do Cinema Italiano

Claudia Cardinale. a mulher que transformou o desejo masculino em matéria-prima para uma carreira maior do que os homens que a filmaram.

A 19.ª Festa do Cinema Italiano, em parceria com a Cinemateca Portuguesa, dedica uma ampla retrospetiva a Claudia Cardinale (1938-2025), com sessões ao longo do mês, tendo já tido até uma abertura especial com a presença de Claudia Squitieri, filha da atriz e presidente da Fundação Claudia Cardinale. Entre os filmes anunciados estão “A Rapariga da Mala”, “8½”, “O Leopardo”, “A Pantera Cor-de-Rosa”, “Os Profissionais”, “O Dia da Coruja”, “Fitzcarraldo”, “Henrique IV” e o tardio encontro com Manoel de Oliveira em “O Gebo e a Sombra”.

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A anti-diva que entrou no lugar errado e ficou

Claudia Cardinale não foi apenas uma atriz famosa. Foi uma espécie de erro de casting num sistema que queria mulheres arrumadas em gavetas muito simples: a voluptuosa, a italiana fatal, a deusa ornamental, a santa pecadora, a musa pronta a ser filmada de perfil e a calar-se quando os homens começassem a explicar o mundo.

O cinema italiano dos anos 50 e 60 adorava este catálogo. E, convenhamos, também o exportava muito bem. Havia busto, havia ancas, havia fotogenia mediterrânica, havia realizadores a fingirem profundidade artística enquanto filmavam carne com iluminação renascentista. No meio disso tudo apareceu Claudia Cardinale, que tinha beleza a mais para passar despercebida, mas inteligência a mais para ficar presa ao papel de mobília de luxo.

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Nasceu em Tunes, em 1938, filha de italianos da Sicília, cresceu entre línguas, identidades e geografias cruzadas e chegou ao cinema quase por engano, depois de um concurso de beleza que a levou a Veneza. Durante anos, foi dobrada nos filmes italianos porque a sua voz, marcada pelo francês e pelo siciliano, não encaixava no ideal de pureza fonética que a indústria queria vender. É um pormenor delicioso e cruel: uma mulher tornada ícone por um país que, no início, nem sequer a deixava falar com a sua própria voz. A história do cinema está cheia destas subtilezas brutais.

Claudia Cardinale
Claudia Cardinale em “A Rapariga da Mala”. ©Cinemateca Portuguesa/Divulgação

Quando a presença substitui o decote

Mas Cardinale fez daquilo combustível. Entrou em “Gangsters Falhados” (“I soliti ignoti”), de Mario Monicelli, e depressa se percebeu que não estava ali apenas mais uma cara bonita para preencher o enquadramento entre homens nervosos e piadas italianas. O que ela tinha era outra coisa: uma presença que não pedia autorização ao plano. Não era só sensualidade. Era insolência. Era modernidade. Era um rosto que parecia carregar sempre uma biografia secreta, uma melancolia subterrânea e uma ironia privada. Claudia Cardinale tinha qualquer coisa de mulher real enfiada à força numa fábrica de fantasias masculinas. E talvez por isso continue a parecer mais contemporânea do que muita atriz actual fabricada pelos media, assessorias e luz de selfies.

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O ciclo agora apresentado pela Cinemateca e pela Festa do Cinema Italiano é particularmente feliz porque mostra justamente essa amplitude: a rapariga popular e ferida de “A Rapariga da Mala”, a aparição quase ideal de “8½”, a Angélica de “O Leopardo”, a sofisticação irónica de “A Pantera Cor-de-Rosa”, a mulher resistente de “Era Uma Vez no Oeste” — esse filme não está no núcleo anunciado, mas continua a pairar sobre qualquer conversa séria sobre Cardinale —, a densidade política de “O Dia da Coruja”, a maturidade de “Fitzcarraldo” e, muito mais tarde, a sua presença grave e crepuscular em Manoel de Oliveira em “O Gebo e a Sombra”. A retrospetiva não celebra apenas uma estrela: mostra uma atriz que foi atravessando formas, géneros, países e épocas sem nunca perder o centro.

Mais do que beleza: inteligência em estado de imagem

E isso importa sublinhar porque, durante demasiado tempo, a história popular do cinema tratou Claudia Cardinale como um monumento visual antes de a tratar como uma intérprete. Sim, era lindíssima, a câmara adorava-a e fazia parte daquela galeria de italianas que fizeram a Europa parecer um sítio mais desejável do que alguma vez foi. Mas reduzir Cardinale à beleza é como reduzir Visconti à cortina ou Fellini ao chapéu. É ficar pela superfície porque a superfície brilha muito e dá menos trabalho.

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Em “A Rapariga da Mala”, por exemplo, há nela uma mistura de vulnerabilidade, orgulho e fadiga que rasga o verniz romântico da época. Em “O Leopardo”, Visconti transforma-a em força social, sexual e histórica: Angélica não é apenas a rapariga bonita que entra no baile, é o sinal vivo de uma mudança de classe, de gosto, de sangue e de regime. Ela entra na aristocracia como quem entra para a desmontar com um sorriso. E naquela célebre valsa com Burt Lancaster, não é apenas cinema bonito. É cinema a pensar o fim de um mundo através da coreografia dos corpos.

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Já em “8½”, Fellini faz dela quase uma figura impossível: não exactamente mulher, não exactamente fantasma, não exactamente musa, mas uma promessa de harmonia que o herói masculino nunca merecerá. Cardinale, ali, é menos personagem do que hipótese. E isso só resulta porque ela consegue parecer próxima e inalcançável ao mesmo tempo. Não é pouca coisa.

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Hollywood, Europa e a recusa em ser domesticada

Depois houve Hollywood, claro. Porque Hollywood fareja depressa quando a Europa fabrica mitologia em bom estado. “A Pantera Cor-de-Rosa”, “Os Profissionais”, grandes produções, estrelas americanas, circulação internacional. Mas o mais interessante em Cardinale é que nunca pareceu completamente colonizada por esse sistema. Entrou, brilhou, saiu sem vender a alma por inteiro. Ao contrário de outras trajetórias devoradas pelo mercado americano, a dela manteve sempre um pé na Europa, nos autores, no risco, na estranheza. Era demasiado inteligente para acreditar que Los Angeles era o centro moral do mundo. E ainda bem, porque não era nessa maquinaria que ela podia fazer o melhor trabalho da sua vida.

Também por isso a sua carreira diz tanto sobre as contradições do cinema europeu. Claudia Cardinale foi filmada por Visconti, Fellini, Monicelli, Comencini, Damiani, Ferreri, Bellocchio, Herzog, Oliveira. Poucas atrizes atravessaram tantos universos fortes sem se dissolverem dentro deles. Há atrizes que são moldadas pelos realizadores. Cardinale tinha uma qualidade mais rara: era transformada por eles sem deixar de ser reconhecível. Continuava sempre a Claudia. Mais precisamente: continuava sempre aquela mistura de carne, inteligência, dureza e sonho que nenhum realizador conseguia domesticar por completo.

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A vida fora do plano e dentro dele

A vida, essa, não foi exactamente um desfile em Via Veneto. A história pessoal de Cardinale inclui zonas duras que durante muito tempo ficaram soterradas sob a narrativa glamourosa da estrela: uma gravidez escondida, um sistema de controlo exercido pelo produtor Franco Cristaldi, relações afectivas complexas, uma carreira por vezes atravessada por chantagens subtis e violências do próprio meio. Mais tarde, ela falou disso com franqueza crescente. E talvez seja também por isso que hoje nos pareça ainda mais forte.

Não porque tenha sofrido — o sofrimento, por si só, não santifica ninguém —, mas porque não deixou que o sofrimento se tornasse a legenda única da sua imagem. Continuou a trabalhar, a reinventar-se, a envelhecer sem restrições, a fazer teatro, cinema, televisão, ativismo, a receber distinções importantes como o Leão de Ouro de Carreira em Veneza, em 1993, e o Urso de Ouro Honorário em Berlim, em 2002.

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Uma retrospetiva que devolve o cinema ao cinema

E depois há um dado que me interessa particularmente nesta homenagem lisboeta: ela acontece não como um embalsamamento, mas como uma devolução à sala escura. Isto é essencial. Há demasiadas retrospetivas que parecem funerais com legendas. Aqui, pelo contrário, a ideia é voltar a ver Claudia Cardinale em movimento, em choque com outros corpos, com outros atores, com o preto e branco e o technicolor, com o barroquismo de Visconti e o delírio de Fellini, com o cinismo elegante de Blake Edwards e a febre de Herzog, com a secura moral de Damiano Damiani e o crepúsculo filosófico de Manoel de Oliveira. Uma estrela não vive só em necrológios. Vive em projeção.

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No fundo, toda a sua carreira foi uma batalha pela primeira pessoa. Numa indústria que queria usar-lhe o corpo, dobrar-lhe a voz, administrar-lhe os afectos e vender-lhe a imagem em prestações, Claudia Cardinale insistiu em continuar sujeito. Não objeto. Não decoração. Não mito inofensivo. Sujeito. É isso que a distingue de tanta iconografia italiana que envelheceu mal, presa a caricaturas de feminilidade mediterrânica. Cardinale não foi apenas desejada. Foi pensante. Foi teimosa. Foi livre dentro do possível, e às vezes contra o possível.

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Maior do que a máquina da fama

Num tempo em que se fala tanto de empoderamento com a profundidade de um slogan de champô, talvez valha a pena voltar a esta mulher que fez esse caminho numa época muito menos simpática, muito menos pedagógica e muito menos dada a campanhas publicitárias sobre autonomia feminina. Ela fez-se no interior de uma máquina machista e espectacular. E saiu de lá maior do que a máquina.

Por isso, esta retrospetiva é mais do que uma homenagem. É também uma pequena lição sobre o que o cinema já foi e, em dias bons, ainda pode ser. Um lugar onde uma mulher entra em cena e obriga tudo a reorganizar-se à sua volta. Não por berrar mais alto. Não por ter melhor agente. Não por dominar a espuma mediática.

Mas por ter presença, talento e uma espécie de verdade física que a imagem reconhece imediatamente. Claudia Cardinale morreu em setembro de 2025, aos 87 anos. Mas o cinema, quando é cinema, tem esta vantagem indecente sobre a vida: recusa obedecer ao calendário. Em abril, na Cinemateca, ela volta a entrar pela tela dentro como entrou sempre, de cabeça erguida, sorriso oblíquo, olhar de quem já percebeu tudo e não vai explicar nada a ninguém. E fez muito bem.

JVM


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