Keira Knightley em "Colette" (2018) | © NOS Audiovisuais

Colette, em análise

Apesar de hoje ser considerada uma das mais influentes escritoras francesas de sempre, Colette começou a carreira a escrever com o nome do marido e teve de o levar a tribunal para afirmar a sua autoria legítima. Em “Colette”, com Keira Knightley e Dominic West, a história do começo da sua vida artística e do seu matrimónio chega ao grande ecrã.

Filmes de época, tão habitualmente batizados com o nome costume dramas, não são famosos pela sua audácia. Quando entramos no patamar de trabalhos de prestígio estreados no rubro da temporada dos prémios, cheios de pedigree histórico e insuflados de importância literária, então deparamo-nos com um beco sem saída onde a criatividade morre. São filmes embalsamados no formol do Oscar buzz, tresandam a ambições vácuas, exibem desempenhos sonambulísticos e vestem-se em rendas bolorentas dos anos 70 que um figurinista sem meios tenta fazer passar por uma relíquia oitocentista.

Em suma, tal tipo de veneno cinematográfico é o oposto diametral de tudo o que é celebrado pela escritora francesa Colette, santa padroeira da Belle Époque, cuja obra e vida escandalosa em nada obedeceram ao dogma da convenção. Talvez mesmo pela força do caráter da sua protagonista, “Colette”, a mais recente cine biografia a ser vomitada pela fábrica de prestígio que são os estúdios de cinema ingleses, consegue circum-navegar a mediocridade sugerida pela sua condição. De facto, esta obra de Wash Westmoreland representa uma brisa de ar fresco, oferecendo uma visão surpreendentemente matura, adulta e despida de moralismos.

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Uma vida sensacional, dramatizada de forma inteligente e anti sensacionalista.

Grande mérito há quer ser dado ao argumento de Richard Glatzer, Wash Westmoreland e Rebecca Lenkiewicz que emprega uma estrutura básica e convencional, mas nunca impõe uma força simplificadora à história da sua protagonista. Quando o filme começa na França rural do virar do século, onde uma jovem rebelde encontra um marido e um bilhete para uma vida sofisticada na forma de um homem mais velho, podemos presumir que sabemos para onde a narrativa se dirige. Estaríamos enganados.

Chegada a Paris com uma aliança no dedo, Colette, a nova esposa do empresário cultural conhecido simplesmente como Willy, não é, de todo, a Cinderela deslumbrada pelo aparato urbano e seus salões glamorosos que poderíamos presumir. Há até um toque de desdém no modo como ela desfila pelos interiores mal iluminados em vestidos inapropriadamente informais. Esta Colette é uma mulher altiva e segura de si, negando ao espectador a fórmula confortável de um bildungsroman de crescimento pessoal. “Colette” não é a história de uma mulher a descobrir quem é e a crescer. É, pelo contrário, a narrativa de uma pessoa assertiva a esculpir à força o seu lugar numa sociedade decidida a menosprezar a sua presença.

Colette foi forçada pela vontade do marido e pressões económicas a ficcionar a sua vida na forma dos romances sobre a personagem Claudine e a ver o seu nome ser substituído na capa de tais obras com o de Willy. Contudo, seria erróneo presumir que Colette não foi uma cúmplice ativa da sua exploração e o filme não nega tais permutações complicadas da sua luta por independência artística. Quando ela já não aguenta viver na sombra do marido e sua sistemática capitalização da vida de Colette, vemo-la, não como vítima, mas como alguém que cometeu um grave erro e agora tem de o retificar para encontrar uma vida suportável e possivelmente a felicidade.

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Tais factos podem parecer pouco importantes, mas é raro ver um filme dar tanta agência e autonomia a uma protagonista feminina, especialmente no contexto de um conto histórico de putativa inspiração. Tanta é a raridade desta abordagem que, quando aplicada à esfera amorosa e sexual, os resultados são positivamente chocantes. Longe de uma história amargurada de um casamento a definhar, “Colette” retrata a relação entre Willy e sua esposa como um miasma de ousada experimentação com os limites da intimidade matrimonial.

Confrontada com as traições do marido, Colette reage primeiro como tantas outras esposas entristecidas nos anais do cinema, mas suas resoluções levam-na a aceitar tais aventuras sexuais. Em troca, ela também prova ser uma aventureira das camas parisienses e seus gostos incidem mais sobre o seu próprio sexo que sobre qualquer pretendente masculino. A certa altura, ela e Willy são amantes da mesma americana e, mais tarde, ambos vivem num casamento que tem espaço para os amantes um do outro, incluindo Missy, um aristocrata transgénero e devoto parceiro da escritora.

Muita desta glória se deve ao argumento que já mencionámos, mas convém prestar homenagem à abordagem formal do realizador e sua equipa criativa, assim como aos esforços do esplendoroso elenco. Começando pelos atores, Keira Knightley volta a provar que é uma das atrizes mais destemidas e subvalorizadas da sua geração. Quer seja a contorcer-se como um pretzel em “Um Método Perigoso” ou a sucumbir aos epítetos operáticos de “Anna Karenina”, Knightley traz sempre um elemento de risco aos seus trabalhos de cinema de época. “Colette” não difere, com a atriz a usar a sua postura e falta de graciosidade rítmica como espetaculares elementos de caracterização e grotesco inesperado.

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Elegância histórica, tão imersiva como curiosamente idiossincrática.

Tanto em récitas de pantomima medíocre como em discussões acesas sobre o valor da autoria, a Colette de Knightley é uma coleção de músculos tensos e um coração a rebentar de sinceridade cáustica. Até em momentos meio surreais, como umas quantas passagens de teatro desconfortavelmente metatextual, a atriz consegue trazer ironia e humor à narrativa. Ela e Dominic West como o pomposo Willy são estrelas perfeitas para esta história. O melhor de tudo é que o elenco secundário também não desaponta, com especial destaque para Denise Gough e Eleanor Tomlinson como dois dos interesses amorosos da protagonista.

A execução formal do filme tem muito de bom e admirável, a começar pela sua reconstrução da França do virar do início do século XX. Os figurinos, em particular, são extraordinariamente estranhos sem fugirem ao rigor histórico, não temendo cair no bizarro, no andrógino ou mesmo no feio. As pessoas neste filme parecem viver nas suas roupas, seus ambientes são marcados pela presença humana, pelo bafio do fumo de cigarro e pelo fausto de uma elite hedonista. Tal imersividade anda, no entanto, de mãos dadas com uma fotografia extremamente banal, com construções cénicas desinspiradas e uma banda-sonora cliché de meloso piano. “Colette” é um filme que corajosamente foge à mediocridade que lhe foi predestinada pelo seu género e ambições prestigiosas. Apesar disso, nesta corrida, o filme é ocasionalmente ultrapassado pelo inimigo de que tenta fugir.

Colette, em análise
Colette

Movie title: Colette

Date published: 2018-12-13

Director(s): Wash Westmoreland

Actor(s): Keira Knightley, Dominic Cooper, Denise Gough, Eleanor Tomlinson, Fiona Shaw, Robert Pugh, Dickie Beau, Rebecca Root, Aiysha Hart

Genre: Biografia, Drama, História , 2018, 111 min

  • Cláudio Alves - 75
  • Daniel Rodrigues - 67
  • Rui Ribeiro - 90
  • José Vieira Mendes - 65
74

CONCLUSÃO

“Colette” é uma valiosa cinebiografia que foge a muitas das doenças do género e propõe uma visão adulta e complicada da vida da sua protagonista, sua sexualidade e mérito artístico. Os atores e os figurinos são estupendos. Uma vida sensacional representada sem sensacionalismo e com muita inteligência.

O MELHOR: Keira Knightley, de postura altiva e desdém pintado na expressão a deambular por um salão parisiense com um vestido inapropriado e o mesmo tipo de aborrecimento entorpecedor sentido por uma tartaruga coberta de joias.

O PIOR: A maldita banda-sonora e seu piano tilintante. Além disso, só mesmo a estranheza de ver a vida de uma das suprassumas vozes da cultura francesa a ser dramatizada em inglês.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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