MOTELx ’17 | Os Crimes de Limehouse, em análise

Os Crimes de Limehouse” pode parecer uma história de terror vitoriano à moda antiga, mas a sua inteligente desconstrução de convenções do género é de uma modernidade desconcertante.

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Desde tempo imemorial na história do cinema de terror que a era Vitoriana tem sido um dos seus cenários e temas principais. Isto deve-se a inúmeros fatores. No entanto, para efeito desta análise, queremos salientar como, de certo modo, os paradoxos inerentes a esta época específica na história da Grã-Bretanha fazem dela o cenário ideal para o terror. Por um lado, o reinado da rainha Vitória no século XIX foi uma época de grandes feitos culturais e tecnológicos, de prosperidade e de enormes moralismos. No entanto, foi também uma era de vício sem estribeiras, de consumo obsceno, de miséria e de violência hedionda, tanto numa esfera politica e mundial como ao nível do indivíduo nas ruas sombrias da capital. A Londres vitoriana é assim o cenário perfeito para o terror pois é a hipocrisia tornada metrópole, é a fachada de prosperidade aristocrática e prestígio cultural a esconder a miséria do proletariado, o ódio, o preconceito e o sangue derramado nas pedras da calçada.

O realizador espanhol Juan Carlos Medina e a restante equipa criativa de “Os Crimes de Limehouse” certamente adoram as maravilhas da época Vitoriana e o seu potencial para o terror. Parte homenagem aos clássicos de outros tempos, como as obras-primas da Hammer Films, parte recriação histórica para o cinema da era digital, a Londres de “Os Crimes de Limehouse” é uma pequena maravilha de atmosfera e cenografia, trespassando sempre o enorme prazer que os cineastas tiveram na sua elaboração. Entre prisões enegrecidas, bibliotecas antigas, becos sujos de sangue, pequenas lojas delapidadas e o esplendor burlesco do music hall, este é um filme que valeria a pena ver, nem que fosse simplesmente, pelo festim visual que tem para nos oferecer.

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Contudo, “Os Crimes de Limehouse” está longe de ser somente um deleite para os olhos. Aliás, por muito admiráveis que sejam os esforços de toda a equipa do filme, a obra ainda mostra algumas marcas do seu orçamento diminuto, especialmente quando chega altura de as personagens andarem pelas ruas superpopulosas da cidade. Com isto dito, é certo´que o argumento do filme é uma grande ajuda ao seu sucesso, sendo também uma excitante reinvenção do já cansativo cliché que é a história de um serial killer a aterrorizar as zonas pobres da Londres do século XIX.

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Adaptado de um bestseller de Peter Ackroyd publicado em 1994, e trazido ao grande ecrã pela argumentista Jane Goldman, “Os Crimes de Limehouse” conta a história fictícia de como o inspetor John Kildare da Scotland Yard descobre quem é o infame Golem de Limehouse. Esse é um pérfido assassino com um gosto pelo espetáculo inerente à carnificina, cujo modus operandi é inicialmente uma incógnita. Não que os superiores de Kildare lhe tenham dado o caso por confiarem nos seus talentos de dedução. Foi o segredo mal-escondido da homossexualidade do protagonista que fez dele um perfeito bode expiatório para a policia incapaz de encontrar o homem que anda a aterrorizar e entreter Londres em igual medida.

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Uma fortuita ida à biblioteca do Museu Britânico acaba por dar uma pista fulcral a Kildare, assim como uma lista de quatro suspeitos principais. Três deles, Dan Leno, George Gissing e Karl Marx são figuras reais da época, mas é o quarto nome, a única personagem fictícia do grupo, que captura a atenção e a suspeita de Kildare. Trata-se de John Cree, um jornalista e dramaturgo fracassado que recentemente morreu e cuja mulher, uma antiga estrela do music hall, está em julgamento pelo seu envenenamento. Lizzie Creed é, na verdade, a outra protagonista do filme e certamente a sua figura mais enigmática. Não queremos revelar muitos spoilers sobre este enredo cheio de reviravoltas, mas resta dizer que muita da narrativa ocorre em flashback, relatando a vida de Lizzie, seus traumas, seu sucesso e seu abuso numa sociedade patriarcal cheia de preconceitos venenosos.

Só o facto de os dois grandes protagonistas deste drama de época serem um homem homossexual e uma mulher que alcançou o sucesso nos palcos ao trajar disfarces masculinos, seria caso para olhar para “Os Crimes de Limehouse” com algum fascínio, mas o filme não se fica por aí. A indefinida fluidez de género, identidade, realidade, fantasia, natureza e construção social é algo absolutamente central à obra, que muitos têm aliás vindo a caracterizar como feminista ou, pelo menos, proto feminista. O que é certo é que, num tipo de história onde mulheres normalmente são somente vítimas indefesas, “Os Crimes de Limehouse” tem coragem de desafiar essas convenções, de as expor e de lhes cuspir na cara, aludindo mesmo ao modo como homens adoram salvar mulheres para se validarem a si mesmos.

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Mesmo Kildare, uma das personagens que verbaliza tais ideias, é culpado desse pensamento e é precisamente a sua imperfeição que o torna numa figura tão fascinante. Interpretado por Bill Nighy numa das melhores prestações da sua rica filmografia, Kildare move-se com elegância solene, mas a sua gestualidade é pontuada por insinuações de comédia seca que nunca ganham asas no diálogo. Ele é uma figura do seu tempo, mas também é idiossincrático e um ser humano intrinsecamente bom, que quer ver algo de positivo num mundo que o está sempre a desiludir com o seu horror. Olivia Cooke, no outro grande papel do filme, é uma mistura eletrizante de vulnerabilidade, carisma e orgulho, sugerindo uma altivez abrasiva, mesmo nas passagens onde Lizzie mais se apresenta como uma vítima indefesa.

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O único passo em falso do elenco, de modo geral, ocorre nos últimos 10 minutos do filme. Aí dá-se um twist que o texto andou desde o início a telegrafar, mas que, por alguma razão misteriosa, o realizador decidiu tratar como uma insana revelação. A direção de atores torna-se particularmente má, escolhendo os extremos mais simplistas para ilustrar as naturezas escondidas de alguns dos principais figurões da história. Para além disso, o tom de comédia negra sobrepõe-se de tal modo a tudo o resto, que a pseudo coda teatral converte um dos poucos espaços associados a felicidade no filme – o palco caloroso – em mais uma expressão da hipocrisia grotesca. Não podemos dizer que tudo isto resulte dramaticamente, mas tais escolhas parecem certamente coerentes com a restante celebração jocosa do macabro entretenimento adorado pelo público vitoriano. Só que o filme também se propõe a criticar tal cumplicidade passiva com o horror.

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Quem permite que crimes ocorram, ou pior, quem se entretém com as injustiças e monstruosidades do mundo, é culpado desses mesmos horrores tal como os assassinos que se escondem nas sombras. No final, existe alguma confusão ideológica em jogo no argumento, mas isso deve-se mais à riqueza das suas ideias e á grandiosidade das suas ambições. Poder dizer que um filme deste género tem como seu principal problema demasiadas ambições concetuais é algo maravilhoso e que deve ser valorizado. É certo que por vezes o espetáculo de “Os Crimes de Limehouse” pode parecer melodramático ou absurdo, mas é também inteligente e perspicaz. Para além do mais, qual é o mal de um pouco de melodrama, absurdo e vísceras de vez em quando?

 

Os Crimes de Limehouse, em análise
Os Crimes de Limehouse

Movie title: The Limehouse Golem

Date published: 7 de September de 2017

Director(s): Juan Carlos Medina

Actor(s): Bill Nighy, Olivia Cooke, Douglas Booth, Sam Reid, María Valverde, Eddie Marsan, Daniel Mays, Henry Goodman

Genre: Terror, Mistério, Thriller, 2016, 109 min

  • Claudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO

Parte desconstrução de convenções do subgénero do terror vitoriano, parte melodrama de época cheio de twists e reviravoltas, “Os Crimes de Limehouse” é uma poderosa e excitante proposta cinematográfica que tem mais para oferecer ao espetador do que pode ser inicialmente percetível.

O MELHOR: A prestação de Bill Nighy.

O PIOR: A nível puramente mecânico, a montagem deixa muito a desejar em partes fulcrais do filme, especialmente o seu clímax.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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