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Corpus Christi: A Redenção, em análise

‘Corpus Christi: A Redenção’, de, Jan Komasa é mais um filme que aborda a religião católica e como esta ainda parece influenciar muito a sociedade polaca em geral, embora se passe numa pequena cidade do interior rural. É um dos nomeados ao Óscar de Melhor Filme Internacional 2020.

Corpus Christi: A Redenção’ de Jan Komasa, não passou despercebido na Giornate degli Autori do Festival de Cinema de Veneza 2019, embora tivesse sido apresentado num das secções paralelas, em vez da competição principal. O filme de Jan Komasa que estreia agora nas salas portuguesas com a chancela de uma nomeação para a nova nomenclatura de Óscar de Melhor Filme Internacional 2020, seria um dos mais fortes candidatos do cinema europeu ao prémio — até pela actualidade da sua controversa temática sobre o celibato e a vida do sacerdócio e na linha de Cold War-Guerra Fria’ (2018), de Pawel Pawlikowski, — não fosse o sul-coreano Parasitas, ser o favorito quase indiscutível. Corpus Christi: A Redenção’ passa-se numa pequena cidade polaca — microcosmos de uma sociedade mais ampla —, observando silenciosamente os seus conflitos, mentalidades e sobretudo a tendência para esta comunidade se deixar influenciar por líderes reais ou falsos, que prometem o céu e conforto espiritual às pessoas.

TRAILER DE ‘CORPUS CHRISTI: A REDENÇÃO’

Daniel (Bartosz Bielenia), um jovem de 20 anos, parece ter mais passado que futuro. Vive há vários anos num centro de recuperação de menores debaixo de uma constante e violenta pressão interna, além de se sentir atormentado pela culpa dos seus delitos. Pode-se dizer que o seu único amigo é o padre-capelão da casa de correção, uma figura poderosa e influente, mas de mente aberta (Łukasz Simlat, um dos actores polacos mais conhecidos internacionalmente que participou entre outros em ‘United States of Love’, de Tomasz Wasilewski), que lhe proporciona algum conforto espiritual e conselhos. Se Daniel não fosse um delinquente juvenil, gostaria muito — e até parece ter vocação para isso — de se tornar sacerdote, algo que parece impossível na sua situação de recluso e antecedentes criminais. No entanto, o seu desejo vai tornar-se realidade de uma forma inesperada, não sem um certo humor e ironia do destino. Enviado em saída precária, para iniciar um trabalho de reintegração social numa serração de uma remota cidade do interior, a situação de Daniel vai modificar-se. Conhece um rapariga mais ou menos da sua idade, na igreja local (Eliza Rycembel), e diz-lhe que é padre. O que ao principio era uma brincadeira para entabular conversa, torna-se realmente na experiência da sua tão deseja vocação: Daniel acaba por vestir a sotaina, pregar o evangelho e exercer as funções de pároco local. A medida que que a história, vai avançando Daniel descobre que existe um trágico segredo que vai corroendo a comunidade, espalhando a superstição e a exclusão social de alguns dos seus membros. Daniel consegue convencer a população que é realmente padre, apesar da sua juventude e dos seus inovadores métodos litúrgicos, criando aliados e inimigos, ao mesmo tempo que tem de ultrapassar os seus próprios fantasmas e segredos.

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Um dos maiores méritos de Corpus Christi: A Redenção’ de Jan Komasa é sem dúvida a fabulosa interpretação do jovem actor-protagonista, Bartosz Bielenia, que vem do circuito de teatro polaco independente. Bielenia emerge completamente na perturbadora mente da sua personagem, expressando a sua luta interior através da sua irritação, ora através dos seus olhares penetrantes e dos seus frios olhos azuis, que dão uma sensação de transcendência. O carisma Bieleni no ecrã é impressionante. Depois a  história de Corpus Christi: A Redenção’ está muito bem escrita, colocando várias questões que são autênticos ensaios de psicologia de grupos: como as pessoas se agregam em comunidades e tendem a pensar todas da mesma maneira; ou como é possível através da manipulação de um líder carismático, estabelecer clivagens e conflitos no seio dessas mesmo comunidades. De destacar que ‘Corpus Christi: A Redenção’ está na linha de outros excelentes filmes polacos recentes, que abordam a religião como ‘Ida’, (2014), de Pawel Pawlikowsk ou ‘Mug’, (2018), de Małgorzata Szumowska que investiga as dinâmicas de pequenos grupos ou tentam desmantelar ou criticar as estruturas de poder, questionando as velhas formas de religiosidade.

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Esta história de ‘Corpus Christi: A Redenção’, baseada em factos reais e escrita por Mateusz Pacewicz, aproxima-se da muito estrutura de um comovedor e espiritual road movie. No entanto, como espectadores, ficamos numa situação ambígua entre querer proteger Daniel do seu segredo, ao mesmo tempo, que vamos assistindo à sua queda (ou não!), novamente no abismo. Daniel na verdade consegue o que tanto ambiciona, mas vai acabar por sofrer as consequências dos seus actos que parecem em principio bem-intencionados. Quanto mais se compromete em guiar o seu rebanho, mais se reacendem as suas próprias mentiras, tornando as expectativas cada vez mais elevadas, para si e para os outros. Torna-se difícil avaliar se Daniel quer mudar realmente a sua vida ou é apenas um impostor que apenas quer manipular as pessoas, em seu favor. O final não deixa de ser um tanto imprevisível e demasiado aberto sem qualquer conclusão para o jovem recluso, que parece procurar a redenção.

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Jan Komasa, que antes estreou ‘Warsaw 44’ (2014), um super-produção sobre a ocupação nazi da capital polaca, disponível na Netflix, volta a explorar aqui em Corpus Christi: A Redenção’, alguns dos seus temas favoritos: as desigualdades e classes sociais, a luta de classes, a desconfiança e a manipulação da autoridade e a empatia pelas minorias e marginalizados. Quase como no seu filme anterior Komasa consegue o elenco ideal para arrancar excelentes interpretações, aliadas a um extraordinário trabalho do director de fotografia, Piotr Sobociński Jr (‘Silent Night’), que acrescenta outra face narrativa à história: as ferramentas principais para apresentar o interior das suas personagens são grandes planos estáticos dos seus rostos e algumas alterações na paleta de cores e na profundidade de campo. Mais uma rara pérola do cinema europeu que merece ser amplamente visto e divulgado independentemente do resultado dos Óscares 2020.

JVM

Corpus Christi: A Redenção
Corpus Christi: A Redenção

Movie title: Corpus Christi, aka Boże Ciało

Date published: 2020-02-02

Director(s): Jan Komasa

Actor(s): Bartosz Bielenia, Łukasz Simlat, Eliza Rycembel

Genre: Drama, Polónia, 2019, 116'

  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO

‘Corpus Christi: A Redenção’ é um filme soberbo e mais uma grande afirmação do cinema europeu em Hollywood, que investiga em detalhe questões como as vocações e celibato sacerdotal, além da estranha dinâmica social de uma pequena comunidade, que incorpora um novo sacerdote, que esconde a sua verdadeira identidade.

O MELHOR: O carisma e a fabulosa interpretação do jovem protagonista Bartosz Bielenia;

O PIOR: Apesar de baseada numa histórica verídica custa um pouco a acreditar que um jovem quase adolescente consiga se fazer passar por sacerdote, numa comunidade tão fechada.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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