"Parasitas" | © Alambique

Parasitas, em análise

O grande vencedor da Palme d’Or do Festival de Cannes deste ano foi “Parasitas”, a mais recente obra-prima do cineasta coreano Bong Joon-ho. O cineasta chegou até a pedir aos críticos que desvendassem o mínimo possível do enredo tal esta obra é uma caixinha de surpresas. Fizemos o nosso melhor para revelar tudo sem revelar nada. Como nos saímos?

Parasita é aquele que come ou vive à custa de outro ou outros. Diz-se parasita o ser vivo que se sustém e alimenta através da invasão do organismo de outro ser vivo, causando-lhe danos. Um parasita pode também ser um ruido, algo incómodo e irritante. Um parasita é inútil e um parasita é supérfluo. Ninguém precisa dele, mas ele precisa dos outros, precisa de os devorar, sugar-lhes tudo e deixá-los só com o suficiente para subsistirem e assim continuarem a fornecer alimento para o parasita. Viver à custa de outrem é parasitar. Uma carraça pega-se à pele de um cão e lá por cima forma residência. Ela suga o sangue e come, mas também envenena e adoenta.

Ser hospedeiro de um monstro destes é algo insustentável a longo prazo. Ser quem se aproveita do hospedeiro, pelo contrário, é uma situação que pode durar eternamente. Quando se gastam todos os recursos de um hospedeiro, passa-se ao seguinte. Para um parasita as vidas alheias são descartáveis, sendo que só os outros parasitas lhes importam, como colónias de piolhos que invadem a pelagem de bestas ou a cabeleira de miúdos infelizes. Quando o pobre hospedeiro se tenta livrar deles, o provável é fazer mais danos a si mesmo que ao organismo invasor. Quem já não viu um cão comichoso a coçar-se até sangrar?

parasitas critica
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O pior de tudo é que os parasitas se veem no direito de parasitar. Afinal, assim é a ordem natural das coisas. Uns nasceram para beber o sangue e outros nasceram para serem bebidos. Contam-se histórias de simbioses benéficas para ambos os partidos, mas, para o cão que se esfola a si mesmo com comichão, tudo isso são contos vácuos. É difícil dizer a quem morre que não está a morrer sem essa afirmação saber a mentira. Sabe ao morango falso que aromatiza gelados baratos, sabe a comida de cantinas de motoristas e latas antiquíssimas comidas em restaurantes subterrâneos.

Em contrapartida, o suor e as lágrimas do hospedeiro são a ambrósia do parasita e sabem a néctar dos deuses. Sabem a festins preparados pela mão de servos pagos com esmolas insignificantes. Sabem a pêssegos maduros colhidos por aquelas que nunca terão o privilégio de os provar. Sabem a pele que foi lavada com poções caras e cheira a rosas. Os hospedeiros não têm a mesma sorte. Eles que andam de metro e cheiram a trapos velhos. Eles que vivem nas margens e na escuridão, que formam o paraíso em que os parasitas vivem e lhes ligam as luzes como inteligências artificiais que de artificial não têm nada.

Enfim, essa é a ordem do mundo, não é? Os parasitas também dão, não tiram só. Não é? Não. Não é assim quando os parasitas só dão a quem conhecem e se isolam dos outros, quando constroem ilhas de silêncio em selvas urbanas e montam palácios por cima de bairros de lata para onde a chuva dos telhados parasíticos corre e se acumula. Cunhas e conhecimentos, esses são os bilhetes para partilhar a ambrósia, mas ela vem sempre com um preço. Quanto custa a tua dignidade? A partir do momento em que assinas o contrato, ela pertence ao parasita e tu passaste a ser um hospedeiro que julga ser mais que isso, mas está enganado. Um cão nunca poderá ser uma carraça.

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A ordem do universo assim dita. Mas está certo? Não, não está e dá vontade de gritar. Dá vontade de mirar o desdém de um nariz franzido e cravar uma faca num peito emproado. Dá vontade de envenenar os parasitas que nos envenenam a nós e têm a ousadia de ignorar a desgraça que causam. Para eles, uma monção destruidora é a oportunidade para um piquenique. Para eles o suor e as lágrimas são alimento. Nada mais, nada menos e assim é. Viola esta ordem e acabas atrás das grades e a ríres-te como um doido, acabas esquecida num cemitério sem campas para pobres e fechada num caixão por cima do qual vivem mais parasitas.

Que raiva, que ardor, que fúria. Queremos esmagar os parasitas, queremos arrancá-los do nosso corpo e saborear a ambrósia. Só por um momento, só por uma noite. Quando os parasitas são donos do sol e do silêncio, eles são donos da paz e não merecemos todos um pouco de paz? Mesmo que seja só por uma tarde e depois tudo acabe mal com serões debaixo de mesas e julgamentos humilhantes. Que raiva, que comichão. Coça-te, coça-te mais e talvez sintas a ambrósia. Ela sabe a algo fantástico, sabe ao teu sangue e ao teu suor, sabe a ti que agora morres. Sobre o teu cadáver vão viver mais parasitas. É sempre assim, sempre foi.

O realizador Bong Joon-ho sabe-o e também está enraivecido. Sua fúria é organizada, contudo e as maravilhas que ela produz são lâminas de perversão que se cravam no nosso peito. A lâmina fere, mas acorda e, por momentos, sentimos o júbilo do conhecimento. Sim, saber que somos oprimidos e fantasiar com a vingança é um prazer doce e estamos ávidos por essa doçura. Bong dá, e Bong tira, ele dá-nos o remédio na quantidade certa e no final tem a delicadeza de nos lembrar que estamos doentes e que não, não estamos curados. Continuamos a morrer, porque um cão nunca será uma carraça.

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É cruel? Sim. É perverso? Sem dúvida. É cinema e do melhor. “Parasitas” acorda e magoa, faz rir e chorar, choca e transtorna. A sua história é retorcida e difícil de explicar. É melhor nem o fazer, pois desvendar os seus mistérios seria trair o génio que nos concedeu esta ambrósia cinematográfica. Vão ver “Parasitas”, vão acordar. Depois todos choramos em conjunto, partilhamos a dor e voltamos à nossa vida como hospedeiros. Pelo menos, durante duas horas, podemos esquecer as nossas mágoas e perdermo-nos nas de outros tão parecidos connosco. Podemos triunfar ao seu lado, ver um ritmo preciso, imagens perfeitas e, por momentos, aguentar e até desfrutar do horror de servir e perder o nome, de perder a identidade e ser alimento de uma carraça com uma voz cheia de dinheiro.

Ao ritmo de uma valsa, este mestre dança connosco até à perdição. A sua câmara também dança, está sempre e não para. Ela acompanha o gesto e a banda-sonora torna tudo num jogo obsceno e sensual. É tudo um jogo, mas todos saímos perdedores. Quer dizer, alguns parasitas não. Alguns perdem-se quando o cão morde a própria carne em busca da carraça. No entanto, esses bichos feios e maus sobrevivem sempre. Lá vai ele, no seu Mercedes com motorista, vai viver por cima de mais hospedeiros. Vai sugar e esvair, vai viver e ser feliz enquanto outros morrem exangues. É assim a vida, sempre foi e sempre será… não é?

Parasitas, em análise
parasitas

Movie title: Gisaengchung

Date published: 2019-09-27

Director(s): Bong Joon-Ho

Actor(s): Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Ju, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park

Genre: Comédia, Drama, Thriller, 2019, 132 min

  • Cláudio Alves - 100
  • José Vieira Mendes - 80
  • Catarina d'Oliveira - 85
  • Inês Serra - 90
89

CONCLUSÃO:

“Parasitas” é perfeito!

O MELHOR: Tudo.

O PIOR: Nada.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “Parasitas, em análise

  • Onde se lê hóspede deve ler-se hospedeiro. Com este erro toda a leitura fica deturpada.

    Fiquei curiosa

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